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Perdedores e vencedores

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Para este gringo americano, profundamente chocado e envergonhado pela vitória de Trump, o importante não é tanto quem ganhou a eleição de terça, mas sim o que foi perdido.

A maioria da população americana sucumbiu ao medo em relação ao futuro e ao ódio contra o que veem como as forças que estão subvertendo suas ambições. Ela deixou que as promessas vazias de um charlatão minassem sua razão.

Finalmente o interminável circo eleitoral levantou a lona e foi embora da cidade. Quando os comentaristas e analistas, que estão recebendo nossa atenção há tempo demais, terminarem de explicar como puderam errar tão feio, também vamos respirar aliviados. Mas não há alívio à vista.

Que a população americana tenha deixado de lado seu bom senso histórico e elegido Donald Trump, uma pessoa clara e perigosamente inadequada para a Presidência dos Estados Unidos, é inacreditável. Sinaliza que o grande experimento americano com o governo democrático sai dos trilhos. Esta vitória republicana mostra uma grande nação seriamente dividida. O resultado é assustador não só para os Estados Unidos, mas também para o mundo.

O Brasil certamente viveu um ano politicamente traumático, e as dificuldades estão longe de passar. Vocês bateram panelas, foram às ruas para protestar contra a corrupção; a presidente Dilma foi impedida e vimos até mesmo algumas brigas no Congresso. Comparado com o que acabamos de testemunhar nos Estados Unidos e com o que provavelmente vem por aí, é tudo muito tranquilo e pacífico. A próxima eleição no Brasil, marcada para outubro de 2018, vai provar se essa relativa calma vai continuar ou se há grandes tempestades no horizonte.

Escrevendo no The New York Times, o colunista David Brooks nos lembra: "A política é uma atividade em que você reconhece a existência simultânea de grupos, interesses e opiniões diferentes. Você tenta encontrar uma maneira para equilibrar ou conciliar esses interesses, ou pelo menos a maioria deles. Você segue um conjunto de regras, consagradas na Constituição ou nos costumes, para obter acordos de maneira que todos os considerem legítimos". Ele observa que o que vemos cada vez mais nos Estados Unidos é "a emergência de um grupo que é contra a política".

Parece que a "selfie" virou o símbolo de nossos tempos, e o Twitter sua forma preferida de expressar ideias pequenas. Costumávamos olhar para a frente, através do visor da câmera, e nos deliciar com imagens do mundo e discussões aprofundadas. Agora parece que só queremos olhar para nós mesmos narcisisticamente, tuitando causticidades e nonsense e esquecendo dos outros e das concessões, que são o baluarte da democracia.

Donald Trump, o "über selfie", não é todo o problema, mas sua presidência provavelmente vai piorar as coisas. Ele é somente um sintoma, não a doença. Que milhões de americanos tenham votado nesse charlatão, nessa pessoa vulgar e cheia de si, demonstra que, se a democracia ainda existe nos Estados Unidos, ela parece estar à deriva, desconectada de suas âncoras na decência e na igualdade. A democracia corre o sério risco de se afogar. Escreve o colunista Charles Blow:

"O próprio Donald Trump está no centro de seu sistema de valores. Ele não se preocupa com os Estados Unidos, com o Partido Republicano ou com nenhum princípio em particular. Trump é enriquecimento pessoal e autoafirmação inequívoca e interminável. Trump é megalomaníaco, além de várias, várias outras coisas terríveis."

Uma dessas coisas terríveis é o racismo. Muitos de nós, eu incluído, ficamos orgulhosos quando um afro-americano foi eleito presidente. Aparentemente era o fim simbólico de anos de discriminação. Mas fomos incapazes de enxergar o ódio palpável de uma grande parte da população branca, que viu a elevação de Obama como prova tangível de que seu poder e sua supremacia estava ameaçados - ou até mesmo tinham terminado. E, como se não fosse suficiente, o medo de que imigrantes não-brancos roubassem seus empregos só compôs essa angústia.

As chamadas lideranças do Partido Republicano hesitaram em apoiar Trump, fazendo contorcionismos para parecer apoiá-lo e repudiá-lo ao mesmo tempo. Declarando em alto e bom som sua crença na santidade da Constituição, eles fizeram tudo o que estava a seu alcance para minar Obama. Agora, eles certamente vão destruir a rede de segurança criada ao longo de anos. E estarão na posição de indicar juízes da Suprema Corte cujos mandatos vitalícios lhes darão o poder de voltar ao passado em relação aos avanços liberais das últimas décadas.

Deveríamos ficar surpresos que, com essa liderança política, essa coalizão de basicamente pobres e pouco educados -- incapaz de acompanhar as enormes mudanças tecnológicas e econômicas que mal compreende e não tem nenhum poder para influenciar - encontrasse seu líder em uma celebridade de reality shows, um bilionário banhado a ouro cheio de promessas enormes e impossíveis cumprir?

Dizia-se que, quando os Estados Unidos espirram, o mundo pega uma gripe. Mas observando o avanço mundial dos partidos de extrema direita e as crescentes tensões na Europa e na Ásia, parece que a aflição não conhece limites geográficos. Durante a campanha eleitoral, houve violência em comícios de Trump. Diante de uma possível derrota, ele anunciou que o motivo seria um "sistema viciado". Trump repetiu inúmeras vezes que, se eleito, tentaria colocar Hillary Clinton na cadeira e instauraria controles sobre a imprensa. "Prendam-na" virou um dos gritos de guerra dos eleitores de Trump. Agora vamos ver se ele vai levar adiante essas ameaças obscenas.

O que aconteceu não parece nada bom no resto do mundo, onde ser "americano" costumava gerar respeito e admiração. Não mais. Essa campanha presidencial sombria, violenta e repleta de escândalos, com ameaças de fraudes eleitorais e vingança, manchou a imagem dos Estados Unidos perante si mesmo e perante os olhos de amigos ao redor do mundo. Na melhor das hipóteses, Donald Trump será visto pelos líderes mundiais como um palhaço; na pior, como uma ameaça real.

Escreveram os editores da revista alemã "Der Spiegel":

"Não se engane: quando os avanços da civilização são deixados de lado, mesmo que temporariamente, o resultado são fraturas, e elas não são fáceis de reparar. Quando argumentos não contam e mentiras são aceitas como verdade, quando políticos têm equipes inteiras para espalhar desinformação, a democracia como a entendemos deixa de existir."

Com tanto som, fúria e incerteza nos Estados Unidos, além das ameaças de uma "nova revolução", os perdedores não são apenas a população americana, mas aqueles que olhavam para os Estados Unidos em busca de inspiração e apoio.

A imagem não é nada feliz.

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