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Agonia e êxtase dos empreendedores gringos no Brasil

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ENTREPRENEURSHIP
PhotoAlto/Ale Ventura via Getty Images
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Na semana passada este gringo assistiu à Cúpula do CEO (empreendedor chefe) da organização Endeavor, para ter a oportunidade de nadar entre os peixes realmente grandes do crescente mar de empreendedores no Brasil. Foi instigante, apesar de eu nem sempre ter entendido toda a conversa dos "techies".

Onde mais poderíamos ouvir as reflexões de três gringos altamente bem-sucedidos sobre as agonias e os êxtases que viveram para construir empreendimentos novos no Brasil, país que, notoriamente, foi classificado pelo Banco Mundial em 116º lugar entre 189 nações, em matéria da facilidade de se fazer negócios?

Brian Requarth é CEO e co-fundador da VivaReal, uma feira imobiliária online, em rápido crescimento, que está mudando o ramo dos imóveis. David Velez é fundador e CEO do Nubank, uma empresa nova que veio sacudir a poeira do mundo parado dos serviços financeiros brasileiros. Mate Pencz, co-fundador da Printi, descobriu um mercado grande e crescente de impressão gráfica especializada. Cada um deles se apaixonara pelo Brasil, por uma razão ou outra, e queria construir alguma coisa aqui. ("Quase sempre há uma mulher envolvida nessas histórias", comentou um deles, em meio a risos e olhares de concordância.)

A agonia, concordaram os três, foi o tempo e a dificuldade envolvidos na criação de uma empresa. O Banco Mundial diz que esse processo leva 83 dias no Brasil, comparado com a média mundial de 25. Se houve consenso em relação às dificuldades de iniciar um novo empreendimento aqui, também o houve em relação às oportunidades. Nascido na Alemanha e formado nos EUA, Mate disse simplesmente: "Temos mais problemas, mas menos concorrência. Temos oceanos profundos de oportunidades."

Não surpreendeu o fato de David, com histórico profissional forte no setor dos serviços financeiros, ter achado a experiência com os bancos no Brasil pavorosa; ele levou seis meses para conseguir abrir uma conta bancária. "A experiência do cliente de um banco aqui é semelhante à experiência criminal", ele disse. "Pagamos as taxas mais altas do mundo e temos infraestrutura fraca. Por que tanta burocracia?" Essa experiência foi a semente da qual nasceu o Nubank, cujo objetivo, ele fala, é simplesmente utilizar canais 100% digitais e reduzir ao máximo a burocracia e papelada. "Podemos repassar essas economias de custo aos nossos clientes."

Brian viveu as mesmas frustrações e também achou que a burocracia o tratou como criminoso. Pelo fato de não ter autorização de trabalho, apesar de ter investido dinheiro no Brasil, também ele teve dificuldade em abrir uma conta bancária, e sem conta bancária ele não podia alugar um espaço comercial.

Brian, David e Mate concordaram que, uma vez superadas essas barreiras, as coisas ficam mais fáceis. Como você está competindo com empresas tradicionais, disse Mate, "se você é inovador, consegue atrair pessoas que compartilham sua visão". Para ele, torna-se um misto da visão do estrangeiro que desafia o status quo e as competências locais e o "jeito" para levar as coisas a ser feitas.

Muitos dos problemas parecem ser "culturais". "Ouvimos muito que 'no Brasil você não pode, no Brasil você não consegue', muito negativismo, mesmo da parte de especialistas no setor. Se você é gringo, não sabe das coisas. Há muitas ideias preconcebidas sobre como as coisas devem ser. A maior parte do que é dito não é verdade. Precisamos questionar esse 'como as coisas devem ser'", falou David. Brian foi mais longe: "Até um estagiário pode ter impacto na empresa. Questione seus superiores! Conte-me se você discorda de nossa opinião. Empodere as pessoas, ouça as pessoas. A hierarquia pode ser perigosa. Muitas vezes são os profissionais dos escalões baixos que conversam com os clientes, que os conhecem bem. É preciso ouvir esses profissionais."

Para os três, o empoderamento de todas as pessoas é crucial, e todos os três qualificaram seus amigos e colegas brasileiros de "fantásticos". David falou com orgulho do plano amplo de opções de ações do Nubank, uma raridade no Brasil. "Queremos criar uma mentalidade de donos e uma cultura empresarial singular que fundamente isso."

O êxtase, disse Mate, é que, "se você consegue dar certo no Brasil, vai conseguir em qualquer lugar. Os funcionários brasileiros precisam entender que estão passando por uma fase difícil, mas que, se se saírem bem, estarão dando certo no nível internacional. As empresas brasileiras precisam deixar seus profissionais fazer o que estes acham que seria ótimo."

Na minha experiência, muitas vezes é.

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