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GringoView: O espetáculo do esporte e o pesadelo da política

Publicado: Atualizado:
TRUMP
Montagem/Reuters
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Este gringo vem dividindo seu tempo na frente da TV entre a elegância e a exaltação dos atletas olímpicos dando o melhor de si e o pesadelo que são o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, e seus comparsas desfilando o que têm de pior.

A comparação é esclarecedora.

Embora haja controvérsias sobre a existência de certos movimentos democráticos anteriores, a crença popular é que a democracia (apesar de limitada) nasceu em Atenas no ano 50 AC.

Centenas de anos antes, em Olímpia, um distrito de Elis, no sul da Grécia, homens competiam a cada quatro anos em um evento para celebrar Zeus.

O primeiro evento foi uma corrida de 200 metros. Com vários intervalos e mudanças profundas, tanto a democracia quanto a Olimpíada ainda estão conosco.

Mas ambas correm riscos.

Os Jogos Olímpicos há muito deixaram de honrar Zeus -- hoje eles têm mais a ver com milhões de dólares em patrocínios e com Mamon.

Apesar de os Jogos terem se tornado um "gigante de marketing e merchandising", eles ainda são lindos de assistir, no calor das competições individuais ou coletivas. Cor da pele, nacionalidade, etnia, religião ou orientação sexual não têm lugar: os atletas são julgados apenas pelo estilo e pelo valor.

É impossível não sentir a generosidade e a tolerância, mesmo que esta Olimpíada tenha sido manchada pelas revelações de escândalos de doping e por um comercialismo crescente que ameaça transformar os jogos mais em espetáculo que disputa esportiva.

A riqueza de criatividade e elegância da cerimônia de abertura foi espetacular. O Brasil pode estar atravessando um período extremamente difícil em termos políticos e econômicos, mas o show brilhante da abertura mostrou que o espírito e a energia dos brasileiros estão muito vivos. Defendendo o barulho e a empolgação dos torcedores, que às vezes atrapalham a concentração dos competidores, um adolescente disse: "Estamos só sendo brasileiros".

Seria impossível dizer que o que está acontecendo na campanha presidencial dos Estados Unidos se trata apenas de meus compatriotas "sendo gringos". Poucas vezes na história americana as premissas básicas que sustentam a democracia - civilidade e o respeito às leis - estiveram sob ataque tão grave.

Em seu mais recente ultraje, Donald Trump, falando em um comício na Carolina do Sul, fez mais uma das suas. Ele fez referência ao fato de que, se Hillary Clinton for eleita e indicar juízes da Suprema Corte favoráveis a mais controles sobre a venda de armas, a Segunda Emenda da Constituição que diz que os cidadãos têm o direito de "portar armas" poderia ser abolida - apesar do fato de que Clinton disse claramente na convenção:

"Não estou aqui para repelir a Segunda Emenda... Não estou aqui para tirar suas armas. Só não quero que vocês sejam baleados por alguém que jamais deveria ter uma arma".

O que veio depois foi um novo ponto baixo para Trump. Ele disse: "Se ela pode escolher juízes, nada a fazer, pessoal". Depois ele acrescentou: "Apesar de que as pessoas da Segunda Emenda - talvez dê para fazer alguma coisa, não sei".

Embora ele não tenha dito com todas as palavras que as pessoas pró-armas - "as pessoas da Segunda Emenda" - poderiam, como afirmou o The New York Times, "resolver o problema com as próprias mãos", foi praticamente um convite para que loucos armados assassinassem Clinton ou algum juiz. (Depois, como sempre, Trump disse que sua declaração foi mal interpretada.)

A boa notícia é que, como no caso dos ataques contra o casal muçulmano que perdeu um filho que servia o Exército americano, o incidente criou mais um contingente de eleitores determinados a parar Trump. Não com balas, como disse um deles, mas com votos.

Ele vem despencando nas pesquisas, e especula-se até mesmo que ele possa abandonar a campanha. Infelizmente, o número de deputados e senadores republicanos que têm a coragem de repudiar Trump é minúsculo. O maior aliado dele é a National Rifle Association, o poderoso lobby pró-armas. Não é exatamente uma boa referência para a democracia.

Respondendo a mais uma declaração ultrajante de Trump, o respeitado jornalista Dan Rather parafraseou o advogado que décadas atrás acabou com o odioso macarthismo, olhando nos olhos do senador McCarthy diante de milhões de telespectadores e perguntando:

"O senhor não tem senso de decência?" Isso e uma carta aberta de 50 ex-altos integrantes de governos republicanos alertando que Trump seria "o presidente mais irresponsável da história americana... e colocaria em risco nossa segurança nacional e nosso bem estar" parecem ter minado suas chances de vitória.

Quando olhamos para o berço da democracia e da Olimpíada, enxergamos nessas instituições que já foram gloriosas um espelho do nosso mundo conturbado de hoje e um alerta sobre o futuro.

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