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Uma joia australiana

Publicado: Atualizado:
SIDNEY DANCE COMPANY
Pacific Press via Getty Images
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Distantes de grandes influências artísticas, os australianos tendem ou a olhar muito para dentro - "I'm all right, mate" - ou então para fora, abrindo uma via de duas mãos com o mundo da cultura internacional.

Graças à generosidade do governo australiano, e parte do amplo e rico Festival de Cultura Australiana, temos a chance única de assistir à The Sydney Dance Company , principal trupe de dança contemporânea do país. Serão apena duas noites, 29 e 30 de abril, no Sesc Vila Mariana, em São Paulo. Se você ama dança, dê um jeito de conseguir ingressos - não irá se arrepender.

Tive a sorte de acompanhar de perto o começo da companhia, em 1977, e testemunhar seu desenvolvimento desde então. Ela é criação dos dançarinos australianos Graeme Murphy e Janet Vernon. Na época, lembro de descrever a Sydney Dance Company como um "híbrido"; você nunca sabia o que estava para acontecer; um dançarino atravessando o palco num skate ou artistas vestidos de roupa de motoqueiro interpretando um romance pastoral. Havia múltiplos projetores de filmes e bonecos gigantes. E dançarinos maravilhosos do mundo inteiro. Os australianos não entendiam muito bem o que estava acontecendo, e demorou um tempo até que a companhia formasse seu público - que agora cresce 25% ao ano nos últimos anos.

Descrevendo o público australiano hoje, o diretor artístico da companhia, o coreógrafo espanhol Rafael Banachela, aponta "uma mudança significativa na cultura australiana, um desejo crescente de experimentar algo novo, tudo sustentado por uma forte educação cultural". Sob a direção de Murphy, não raro as performances Sydney Dance Company eram dominadas por sua prolífica produção coreográfica. "Tudo isso mudou, e agora somos muito abertos, temos vontade de fazer produções de vários coreógrafos diferentes. Estamos olhando muito mais para fora." Banachela não vê a Sydney Dance Company como sua companhia de "assinatura", com seu nome em letras garrafais. O programa de São Paulo é prova disso.

"Interplay", nome dado aos três trabalhos que compõem o espetáculo que será apresentado em São Paulo, junta três estilos de dança muito diferentes, de três coreógrafos muito diferentes, todos interpretados pelos mesmos dançarinos, criando uma tensão interessante entre eles.

"2 in D Minor", lírico e tocante, ao som da "Partita para Violino nº 2 em Ré Menor", de Bach, é um manifesto do desejo apaixonado de Rafael Bonachela de explorar a gama completa e lírica do movimento da dança moderna. "Raw Models", do coreógrafo italiano Jacopo Godani, não é exatamente o "Kama Sutra", mas sim uma visão sexy da maleabilidade infinita do corpo humano. Finalmente, "L'Chaim!" ("à vida", em hebraico e iídiche), coreografado pelo australiano Gideon Obarzanek, se afasta dos estilos coreográficos mais formais e acrescenta palavras ao movimento e à exploração das relações pessoais.

Tudo demonstra a definição ampla de Bonachela para dança "contemporânea", como o jazz, uma mescla de estilos sem restrição que permite que o coreógrafo "abrace tudo", tirando o melhor do que veio antes: dança nativa, balé e moderna, ao mesmo tempo rompendo com as tradições e não as deixando para trás.

A dança australiana definitivamente virou uma via de duas mãos. Temos a sorte de poder desfrutar dela.

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