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A temporada variada da SPCD

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SO PAULO DANA
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É raro que companhias de dança daqui se apresentem durante um mês inteiro (ou pelo menos nos finais de semana de um mês) em um bom teatro. Normalmente, quando você fica sabendo das apresentações, a "temporada" de três ou quatro espetáculos já acabou. É quase tão frustrante para o público que quer assistir às apresentações quanto para os dançarinos, que precisam de tempo para desenvolver seus papeis no palco, não só no estúdio.

É por isso que, num lance de sorte especial, a excelente São Paulo Companhia de Dança (SPCD) pode ser vista durante boa parte deste mês no confortável Teatro Sérgio Cardoso. Ela apresenta três programas diferentes, que nos dão a oportunidade de ver essa bela companhia em uma variedade de trabalhos de gerações coreográficas do passado e do presente.

A primeira semana se encerrou em 5 de junho. A segunda, de 10 a 19, traz a maravilhosa montagem de "O Sonho de Dom Quixote", imaginado e criado para a companhia no ano passado pela bailarina brasileira Marcia Haydée. Amantes de balés clássicos com história não podem perder.

Finalmente, de 23 a 26 de junho, três apresentações estão no programa, incluindo "Suíte para Dois Pianos", a aguardada estreia da interpretação da companhia para o trabalho do falecido coreógrafo alemão Uwe Scholz.

É uma felicidade incomum que três das sete obras da atual temporada sejam danças coreografadas por Jiri Kylián. Nascido há quase 70 anos em Praga, durante oito anos ele dançou e coreografou para John Cranko, do Balé de Stuttgart, e em 1976 tornou-se diretor artístico do "Nederlands Dans Theater", considerada uma das companhias de dança mais excitantes do mundo.

A imensa contribuição de Kylián, de mais de 60 trabalhos, o coloca na mesma classe de Jerome Robins, Maurice Bejart, Robert Joffrey e até mesmo seu mentor, John Cranko - uma geração que quase toda se foi, infelizmente. O problema de geração no mundo da dança pode ser visto nos trabalhos inconstantes e muitas vezes autoindulgentes da atual safra de coreógrafos.

A primeira noite da SPCD apresentou "Indigo Rose" e "Petite Morte", de Kylián, ambos trabalhos lindamente construídos e cheios de movimentos imaginativos, linhas maravilhosas e surpresas engraçadas. Em contraste, a estreia de "Six Odd Pearls", coreografada pelo jovem e elogiado alemão Richard Siegal, desconstruiu justamente as coisas que tornam o trabalho de Kylián tão agradável.

Pode-se argumentar que a filosofia da "desconstrução", que parece cada vez mais permear tudo, de modelos de negócios às artes, é um aspecto necessário de nossos tempos e justifica o que, aqui, parece levar os movimentos dos dançarinos a conflitos uns com os outros, e com as composições barrocas de Jean-Phippe Rameau (1683-1764). Se, como sugeriu o coreógrafo, o objetivo for unir séculos para atualizar "... o barroco do século 18 para o século 21", o objetivo não é alcançado - ficamos confusos e pouco à vontade.

O programa da última semana começa com "The Seasons", estreado pela companhia em 2014 e apresentado ao som de percussão ao vivo. É um trabalho interessante, que se concentra na relação entre dançarinos, música, cenário e luz. O ponto alto da semana deve ser a estreia de "Suite para Dois Pianos" (1987), do alemão Uwe Scholz (1958-2004), ao som da Opus 17 de Sergei Rachmaninoff e inspirada pelos reflexos gráficos de Wassily Kandinsky (1866-1944).

A noite termina com a sempre charmosa e divertida "Sechs Tanze", também de Kylián, um salto para trás em direção àquela geração de coreógrafos dedicados a usar os dançarinos para criar beleza, unidade e prazer.

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