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Este é 'Donald Trump da Roma Antiga', um populista demagogo que ajudou a derrubar a república

Publicado: Atualizado:
ROMAN TRUMP
Getty/CC/WorldPost Illustration
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O populismo tem uma história longa e pitoresca na política americana, de Huey Long na esquerda, a George Wallace na direita e - mais recentemente - a Ross Perot em 1992 e Donald Trump hoje.

Mas as raízes do populismo estão num passado muito mais distante: há mais de dois milênios, no começo do fim da República Romana.

Durante a maior parte de sua história, a República Romana foi governada por antigas famílias e operadores políticos que sabiam como manter a população na linha. Havia eleições, mas elas eram desenhadas para garantir a maioria dos votos para as classes dominantes.

Se a aristocracia romana, que votava primeiro, escolhesse um nome para um cargo, as autoridades nem se davam o trabalho de contar os votos das classes mais baixas.

Às vezes, agricultores e donos de tavernas insatisfeitos se levantavam para exigir perdão de dívidas e voz real no governo. Mas essas revoltas eram controladas rapidamente com promessas de dias melhores no futuro - além da contratação de alguns gladiadores de folga para espancar os criadores de problemas.

No fim do século 2 A.C., os irmãos Gracchi tentaram iniciar uma revolução política no seio da aristocracia, mas foram mortos pela nobreza conservadora.

Nada era sagrado para Clódio. Quando mais audacioso seu comportamento, mais o público o adorava.

O homem que acabou por derrubar o sistema era um nobre rico e ambicioso chamado Públio Clódio Pulcro, um demagogo populista que se recusava a seguir as regras do jogo.

Clódio sempre fora excêntrico e imprevisível, de maneiras que chocavam e divertiam a população romana. Quando jovem, ele incitou um motim entre as tropas de seu cunhado. Quando foi capturado por piratas, ficou ofendido com o pequeno resgate pago pela sua libertação.

Nada era sagrado para Clódio. Quando mais audacioso seu comportamento, maior era a adoração pública. Em Roma, por exemplo, Clódio, notório mulherengo, cometeu o sacrilégio de vestir-se de mulher e infiltrar-se num festival religioso exclusivo para mulheres, em homenagem à deusa Bona Dea.

Seu objetivo era seduzir Pompeia, a mulher de Júlio César. O escândalo levou César a se divorciar de Pompeia e deu origem à famosa frase segundo a qual "à mulher de César não basta ser honesta, ela deve parecer honesta".

Depois de escapar da punição com a ajuda de uma grande equipe de defesa e muita propina, Clódio entrou para a política, com o objetivo de conquistar o respeito da classe dominante - que o considerava um bufão. Mas os críticos de Clódio não perceberam que ele era esperto e determinado e estava em sintonia com as frustrações da população em geral.

Mas os críticos de Clódio não perceberam que ele era esperto e determinado e estava em sintonia com as frustrações da população em geral.

Rejeitado pela elite, Clódio começou a violar todas as regras em sua busca pelo poder. Ele abriu mão de sua posição de nobre e se juntou à plebe, assumindo o papel de líder das classes trabalhadoras enfurecidas. Usando seu charme natural, sua retórica feroz e sua percepção aguçada para jogar os políticos uns contra os outros, ele conseguiu aprovar a primeira distribuição gratuita de grãos na história ocidental.

Isso lhe garantiu um enorme apoio entre as pessoas comuns, especialmente aqueles que haviam perdido seus empregos por causa da instabilidade econômica. Clódio tornou-se o rei das ruas de Roma e deu início a uma revolta populista diferente de tudo o que a República tinha visto.

A classe dominante de Roma não tinha ideia de como controlar Clódio. Se a República estivesse a caminho da destruição, lamentou Cícero, famoso orador e político do establishment, pelo menos que fosse pelas mãos de um homem de verdade.

Como vingança, Clódio engendrou o exílio de Cícero e fez planos para chegar ao topo da pirâmide política. Durante sua campanha para tornar-se pretor, um magistrado que estava logo abaixo dos cônsules governantes, as eleições tiveram de ser suspensas duas vezes por causa de brigas nas ruas entre seus apoiadores e os de seu inimigo, Annius Milo.

Quando Clódio encontrou Milo na Via Ápia, seus guardas entraram em confronto. Clódio ficou gravemente ferido. Entendendo que um rival morto era menos ameaçador que um rival vivo e raivoso, Milo ordenou que seus homens matassem o adversário.

A classe dominante ficou atônita e indefesa, e o controle do Estado que ela havia exercido durante séculos lhe escapou das mãos.

Apesar da morte de Clódio, as forças populistas que ele representava continuaram muito vivas e rapidamente encontraram novos símbolos - mais notavelmente César. A classe dominante ficou atônita e indefesa, e o controle do Estado que ela havia exercido durante séculos lhe escapou das mãos.

Em 49 A.C., César cruzou o Rubicão, e Roma mergulhou na guerra civil. O assassinato de César nos Idos de Março foi seguido por uma revolta que destruiu, de uma vez por todas, o poder da classe dominante.

Emergiu um império autocrático, e a República Romana desapareceu para sempre.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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