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A bandeira do Brasil já é vermelha

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Programa social que ajuda a pagar o aluguel de quem está desempregado ou recebe um salário muito baixo. Casa gratuita para mães ou pais solteiros com um salário baixo. Ajuda financeira para cobrir metade da licença maternidade, que é de seis meses pagos e seis meses não-pagos. Financiamento do governo para pagar faculdade, ajudar em crises financeiras ou cobrir os custos de um funeral. Redução dos impostos de alguém que é responsável por cuidar de crianças com necessidades especiais ou idosos. Comida gratuita para quem sofre de alergia a glúten e não tem o suficiente para pagar as opções mais caras. Pagamento mensal para ajudar na conta do aquecimento interno durante o inverno para pessoas que ganham pouco.

Esses são alguns dos 59 benefícios existentes em um país nunca citado na lista dos "socialistas" ou "comunistas" dos comentadores de mídias sociais mais raivosos: o Reino Unido. Muitas vezes tido como exemplo de primeiro mundo, o país britânico possui uma série de programas sociais implementados ao longo das últimas décadas e que não foram cortados nem pelo Partido Conservador, que governa a nação desde 2010.

Não se trata de ser socialismo ou comunismo, mas sim de ter um governo que enxerga a necessidade de ajudar aos setores da população que possuem desvantagens na hora de competir - e isso em um país onde a desigualdade social é muito menor se comparada à América Latina.

Que o governo do Partido dos Trabalhadores possui muitos problemas e erros, isso é inegável. Há, sim, muitos indícios de incompetência por parte do quadro de ministros escolhidos e pela administração em geral.

Mas uma pesquisa a fundo de tudo que aconteceu nas décadas governadas por eles revela, facilmente, a raiz do problema: os acordos e parcerias escusos, o financiamento de campanhas, os partidos sem ideologia que se aproveitam da necessidade de aliança, o lucro desenfreado dos bancos e empresas, com lucros recordes mesmo em meio à uma crise tão evidenciada pela imprensa a todo momento. Ser oposição a esse governo e apontar os erros é algo coerente e necessário. Mas atribuir os problemas e o caos político, econômico ou social a programas como o Bolsa Família ou à tentativa de implementação de um comunismo ou "socialismo bolivariano" é de uma ignorância risível.

O Brasil, tão apaixonado e obcecado pelo futebol, transformou a política em torcida, mas esqueceu de estudar. De repente parecia ter descoberto que existe direita e esquerda, mas não se lembrou de entender o que são eles - ou de procurar saber o que existe entre os dois. Implementar ideais ditos socialistas é algo que até os Estados Unidos, obviamente e assumidamente capitalista (inclusive pelos dois partidos majoritários, o Republicano e o Democrata), precisou fazer, quando Obama e o congresso criaram e aprovaram uma forma de levar o sistema de saúde até a parcela mais pobre da população.

Em um desespero ao pensar que poderia perder os privilégios adquiridos e mantidos durante séculos, a classe alta, com a ajuda dos empresários da mídia, faz de tudo para manter a posição hegemônica e assustar a classe média com as ideias aterrorizantes que funcionavam em escala global nos anos 60. Mas o resto do mundo entendeu e evoluiu, enquanto o Brasil parece ter saído de um coma e querer lutar contra a União Soviética.

O caos presente na saúde e na educação pública, que não foram resolvidos nem pelo governo do PSDB, onde um professor era o presidente, nem pelo governo do PT, onde um ex-torneiro mecânico foi eleito, é de responsabilidade também de todos os governos estaduais e municipais que conseguem se manter em posição de poder graças a uma máquina engenhosa que usa, por exemplo, o ufanismo e a exaltação da nação para passar uma sensação de cidade maravilhosa e país do futuro. Exatamente como o fascismo fez no passado ou como Adolph Hitler fez na Alemanha. Parecem comparações desmedidas, mas quando observamos a quantidade de mortes e os índices de violência no Brasil, elas infelizmente tornam-se bem realistas.

Quando gritam, aos berros verde e amarelos, que "a nossa bandeira jamais será vermelha", as pessoas revelam o tamanho da falta de conhecimento. A bandeira do Brasil já é vermelha, manchada com o sangue de todos aqueles que morrem diariamente pelo descaso de uma população anestesiada aos problemas sociais e os homens e mulheres engravatados mais preocupados em achar um cargo público para o cunhado. Ela jamais terá a foice e o martelo porque nem Cuba e China vivem, de fato, o comunismo como foi idealizado, e ninguém vai tentar implementar isso em um país onde 10% da população detém 90% do dinheiro. A liberdade brasileira é parcial e muitas vezes virtual.

Mais do que discutir o fato de a situação atual ser um golpe de estado, um golpe político ou nada disso, falta autocrítica ao Brasil. A anestesia coletiva pega e a sociedade brasileira de repente se enche de orgulho por "ter feito" Olimpíadas ótimas. Só esquecem que quem fez os jogos não foi o povo brasileiro - e nem mesmo a pequena torcia presente nas competições teve tanta influência assim. Quem deixou que tudo ocorra bem foi o poder público - o que não é algo a ser comemorado quando os leitos dos hospitais e as carteiras de madeira escolares vivem em situação de abandono em grande parte do País.

Que as Olimpíadas tenham transcorrido tão bem deveria levar ao questionamento do porquê isso não ser cotidiano. Para onde vão os impostos? Quem realmente detém o poder de decisão dos assuntos mais importantes? Por que as soluções são colocadas em práticas aos olhos do mundo mas abandonadas quando ninguém mais presta atenção no gigante latino?

Voltando à comparação com o Reino Unido, o país europeu cobra 40% de impostos de qualquer pessoa que receba mais de 42 mil libras por ano. Heranças também recebem impostos deste tamanho. E as Olimpíadas de 2012, que transformaram profundamente parte do leste de Londres, dando origem a novos empreendimentos, emprego e mais segurança em uma área necessitada, também foi recebida com críticas dos ingleses à própria cerimônia de abertura, piadas sobre a própria culinária e cobranças em investimentos.

Quando, no Brasil, políticos como Bolsonaro são atrelados à direita e manifestações contra o governo são feitas com uniforme da seleção de futebol e pessoas pedindo a volta da ditadura militar, a certeza que fica é que não, o brasileiro não está mais politizado.

Deputados evangélicos ou que atacam os direitos humanos não devem ser atribuídos à direita, mas os desinformados que de repente acham que fazer oposição ao PT é a mesma coisa que defender essas ideias.

Parte da população está simplesmente usando a vida real como usa o Facebook: compartilhando bobagem sem questionamento, sem leitura e sem lembrar do que o professor de História passou para ler e debater.

A formação intelectual não aconteceu na escola mas também não aconteceu agora. São milhões de papagaios registrando manchetes mas sem a menor vontade de entender aquilo que repetem - o que importa é estar certo e torcer pelo time que escolheu.

LEIA MAIS:

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