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O que Bolsonaro, Donald Trump e Kim Kardashian têm em comum?

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KIM TRUMP BOLSONARO
Agência Brasil/Fotos Públicas/GettyImages
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São três personalidades completamente diferentes: um é um empresário egocêntrico cuja vaidade o levou a se candidatar à presidência dos Estados Unidos; o outro é um militar político abertamente homofóbico, preconceituoso e ignorante; e a terceira é a estrela de um reality show sobre a própria família onde nada de relevante acontece mas que ainda assim é visto por mais de 3 milhões de telespectadores toda semana. Então o que as trajetórias de três figuras aparentemente tão distintas têm em comum?

A resposta está em uma palavrinha mágica e muita usada por apoiadores e detratores desses três, em especial daquele de cabelo laranja: mídia. Não que ela seja a única culpada pelo sucesso ou popularidade do trio. Não podemos isentar a grande parcela de responsabilidade daqueles ludibriados por discursos intolerantes ou personalidade superficiais. Mas a imprensa é, de fato, um instrumento poderoso para que pessoas como eles atinjam seus objetivos, por mais diferentes que sejam um do outro.

Antes do surgimento e popularização da internet, os jornais e revistas mediam o sucesso de suas histórias pelo número de exemplares vendidos nas bancas, enquanto analisavam o resultado de suas estratégias, qualidade e perfil do leitor através do número de assinaturas. Assim, era possível entender o que a maioria de seus leitores fiéis queriam, já que eles provavelmente se tornariam assinantes, e que tipo de notícia fazia com que as edições se tornassem mais populares. O Reino Unido é um grande exemplo disso, com seus tabloides nefastos que durante anos exploraram a fundo a vida da Princesa Diana, em um dos episódios mais tristes e comentados quando se discute invasão de privacidade e limites da imprensa.

Mas quando o mercado digital surgiu e as redes sociais começaram a mudar a forma como se consome notícia, o imediatismo praticamente substituiu o número de assinaturas e a internet virou um campo de batalhas entre meios de comunicação tradicionais e reconhecidos e blogs e sites complemente escusos e partidários: vale tudo para receber mais cliques e compartilhamentos. Ficou muito mais fácil para uma pessoa famosa ou subcelebridade alcançar seus quinze minutos de fama. Também ficou muito simples para políticos propagarem suas ideias, por mais absurdas que sejam. Mas engana-se quem pensa que isso tudo é feito de forma democrática e orgânica. A grande mídia, ainda muito mais presente e influente nas casas do mundo todo do que a internet, é quem alimenta a transformação de uma piada em ameaça, de uma tentativa ridícula a uma candidatura bem-sucedida. O espetáculo é armado e o que acontece dentro da arena não tem limites.

Falando em exemplos práticos e usando os três escolhidos para o título desse artigo: nas eleições presidenciais americanas, Donald Trump teve mais cobertura do que qualquer outro candidato republicano. Ele soube jogar bem, com declarações polêmicas que ele sabia que ganhariam espaço em todos os lugares. E assim sua cara estava estampada diariamente, espalhando suas ideias intolerantes e absurdas em todos os cérebros pouco exercitados sem anticorpos intelectuais para combatê-las. Deu certo para ele, é só ver até onde o homem chegou. Nem quando a vitória dentro do Partido Republicano aconteceu, a mídia aprendeu. Hillary Clinton fez papel de coadjuvante nas eleições americanas de 2016, independentemente do resultado.

No Brasil, o deputado Jair Bolsonaro não é muito diferente. Felizmente, o militar é menos rico, menos esperto e menos poderoso do que o irritante candidato americano, por isso a diferença de proporção. Mas a popularidade que o levou a ser o deputado mais votado pelo Rio de Janeiro e de conseguir emplacar candidaturas de seus filhos, como ratos que se proliferam no meio de uma cidade em chamas, contou com a mesma ferramenta de ajuda: a exposição midiática. O espaço que jornais, revistas e sites deram a um ser tão ignorante ajudou na campanha de angariar apoiadores, igualmente intolerantes, que ajudam no projeto de poder estapafúrdio. E ele não está sozinho: os deputados das bancadas evangélicas utilizam-se do mesmo meio para espalhar homofobia e preconceito, como no clássico exemplo do jornal Folha de S. Paulo, que lançou uma coluna voltada para a comunidade LGBT com uma entrevista do deputado Marco Feliciano, um dos maiores combatentes dos direitos igualitários no Brasil, que usa e abusa de seu espaço de destaque na mídia para espalhar seu veneno intelectual.

E Kim Kardashian, o que tem a ver com isso tudo? A socialite, famosa depois que uma fita erótica veio a público, é uma das celebridades que mais desperta as perguntas raivosas de "por que ela é famosa?" ou "por que vocês não param de escrever sobre ela?". A resposta não poderia ser mais óbvia: porque você continua clicando nesses links. Não importa como a pessoa ficou famosa, o quão vazia é a vida dela ou toda a falta de talento. O número de cliques é diretamente proporcional à quantidade de reportagens, notícias, fotos, vídeos e capas de revistas. Não existe mistério. E se tem uma coisa que a família Jenner/Kardashian sabe fazer, é manipular a mídia a seu favor, com a divulgação de rompimentos amorosos perto a estreia de uma nova temporada do programa de TV e atualizações constantes no Twitter que alimentam o circo.

E assim funciona o ciclo, desde o surgimento da imprensa e até as novas formas de se fazer jornalismo: a exposição começa, as pessoas se interessam, a exposição aumenta, os espertos se aproveitam e a gente sai perdendo.

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