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'Marido, sinto muito que você não tenha chorado'

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POORNA BELL
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Marido, sinto muito que você não tenha sido capaz de chorar.

Sinto muito que, quando você finalmente conseguiu, na sua primeira internação num hospital psiquiátrico, suas primeiras palavras tenham sido: "Não conseguia chorar havia anos".

Sei que você achava que era sinal de fraqueza, mesmo que, quando algum amigo chorasse, você o abraçasse com força. Sei que você achava que suas lágrimas te ancoravam a emoções e que você tinha medo de morrer afogado nelas.

Lembro de te dizer, quando tomávamos chá no hospital, que era bom chorar. Mas lembro você me dizendo que, depois de começar, você tinha medo de não parar mais.

Em um momento raro, você me contou os motivos pelos quais estava chorando.

Tinha medo de não ser um pai bom o suficiente. Tinha medo de que sua saúde mental te impedisse de ser pai.

Estava preocupado em não conseguir emprego, pagar suas contas, tinha medo de ter queimado pontes com seu comportamento errático, tentando controlar sua depressão e seu vício, fingindo que estava tudo normal.

Sei que você tinha medo de não merecer ser amado (sim, é claro que merece) e se seria capaz de sair do ciclo autodestrutivo em que se encontrava.

Você sofre com isso desde a infância. Sinto muito por você ter sido vítima de bullying na escola porque não era tão forte quanto os outros meninos. Sinto muito por isso ter causado tanto sofrimento durante tanto tempo.

Essa parte de você aprendeu a ser homem apanhando e, no fim das contas, você acreditou na maior mentira que contam para meninos e homens: aguentar tudo em silêncio te faz uma pessoa melhor.

Fico feliz porque você não se deixou definir por essa mentira. Por você manter sua gentileza, sua bondade, sua empatia, as partes suas que são mais magníficas.

Fico feliz pelos seus pais, seus tios, seus amigos -- todo mundo que te ama te ajudou a se tornar o homem que você é: inteligente, curioso, apaixonado pela natureza, bom cozinheiro, respeitador das mulheres e sabedor da importância de baixar a tampa da privada.

Fico feliz por ter amado alguém como você, que me ensinou que os homens são complicados, maravilhosos e estupendos.

Mas sinto muito, querido marido.

Sinto muito por você achar que não podia demonstrar suas emoções - não estou falando de felicidade, amor ou bondade --, mas daquelas que podem minar seu amor pela vida. Sua tristeza, sua solidão, sua preocupação.

Por que você as guardou por tanto tempo? Estava tentando atender às expectativas de quem? Queria que você soubesse que a missão era impossível - que, para sobreviver neste mundo como homem, esperam que você faça tudo, seja tudo e jamais chore quando as coisas fiquem difíceis.

Sinto muito que você tenha guardado tantas coisas por tanto tempo, que você não tenha conseguido falar até ser tarde demais. Que você achasse que suas lágrimas fossem resultar em qualquer coisa que não um abraço.

Sinto muito que você tenha achado que a única saída era tirar sua própria vida.

Não tem um dia, uma hora, um minuto em que não eu queira que você volte a existir, para eu te beijar e te abraçar e dizer mais uma vez que tudo vai melhorar. Que ser homem é muito mais que ser forte fisicamente ou manter um emprego. Que se você conversasse com seus amigos sobre seus problemas eles te ouviriam com prazer.

E que é OK chorar. Na verdade, é essencial que os homens possam chorar, porque nenhum ser humano pode se manter em um silêncio estoico em meio a tudo o que a vida lhe coloca no caminho.

Sinto muito que ser homem tenha causado a sua morte. E sinto muito que isso mate tantos homens como você.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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