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Uma importante lição sobre o que você NÃO pode deixar de dizer aos seus filhos

Publicado: Atualizado:
CHILDREN
tatyana_tomsickova via Getty Images
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Era quase 1h quando meu avião aterrissou. Sentia ansiedade. Era só a segunda vez que voltava para meu novo "lar", uma cidade que tinha um dos aeroportos mais movimentados dos Estados Unidos.

Lembrei-me de que os palestrantes do evento de que tinha acabado de participar sabiam da minha ansiedade em viajar e da meu péssimo senso de direção.

Eles gentilmente arrumaram uma empresa de transporte para me buscar no aeroporto e me levar para casa. Tomei o shuttle do aeroporto sem problemas e estava certa de que estava descendo na parada certa. Mas, quando cheguei ao alto da escada rolante, o carro não estava lá.

Senti meu peito apertar e meu pulso acelerar. Olhei em volta e vi o enorme saguão se esvaziando, as pessoas caminhando com pressa para seus destinos.

Peguei meu celular. Liguei para a empresa de transporte e disse que não conseguia encontrar meu carro. Eles me instruíram a procurar o terminal da Delta, sair e descer uma rampa, onde estariam os carros. Respondi que não via nenhum sinal indicando Delta e que não conhecia o aeroporto.

"Será que o motorista pode vir até mim?", perguntei, tentando controlar minhas emoções. Eles me colocaram em contato com o motorista, que foi grosseiro, condescendente e não ajudou em nada.

Fiquei parada no meio do aeroporto decidindo se deveria andar na escuridão, sem ter certeza de onde deveria chegar, ou se deveria ficar parada. Com as mãos tremendo, enxuguei as lágrimas que caíam dos meus olhos. Não sabia o que fazer.

"Vejo que a senhora está com problemas. Posso ajudar?", perguntou um motorista de uniforme que esperava seu cliente.

Expliquei a situação e ele se ofereceu para falar com meu motorista. Enquanto esperava o homem atender a ligação, ele me reconfortou: "Não se preocupe, vou te ajudar".

Num tom firme, mas respeitoso, meu novo amigo disse repetidas vezes ao colega que ele precisava entrar no aeroporto para me buscar. Em alguns minutos, o homem apareceu.

Perguntei o nome do meu amigo, apertei sua mão e pedi um cartão, para usar a empresa dele nas próximas vezes que precisasse de transporte. Não poderia ir embora sem dizer para Emmanuel que ele era meu anjo. Ele trouxe luz para a escuridão.

escuridão

Não tenho certeza que teria pensado naquela experiência ruim se não fosse por uma viagem para Indiana, para falar num evento específico. Como da outra vez, meu voo pousou depois da meia-noite. Os anfitriões gentilmente cuidaram do meu transporte.

Mas, dessa vez, um rosto conhecido me esperava no alto da escada rolante. De todos os motoristas da empresa, Emmanuel me levaria para casa.

Foi só quando chegamos ao carro que senti coragem suficiente para falar. "Não sei se você se lembra de mim, mas um ano atrás você me ajudou quando estava sozinha e confusa. Você foi meu anjo."

"Senhora Rachel?", disse ele, surpreso e sorrindo. "Sim! Sim! Me lembro! Mas fiz apenas o que qualquer outra pessoa faria."

Emmanuel e eu passamos o percurso todo falando sobre nossas famílias, as alegrias e os desafios da tecnologia, sua família em Gana e como pareceu providencial que nos encontrássemos naquela noite.

Apesar de estar exausta quando deitei na cama, demorei uma hora para dormir. A reunião inesperada com Emmanuel restaurou minha fé na humanidade e me deu esperanças. Mas senti tristeza.

O peso no meu coração tinha a ver com as crianças que não saíram do aeroporto naquela noite acompanhadas de pessoas que não tinham as melhores intenções - incluindo as que cometeram crimes indescritíveis naquele mesmo aeroporto.

O peso no meu coração tinha a ver com a menina de 13 anos que saiu de casa pela janela para encontrar uma pessoa que ela conheceu online - e nunca mais voltou.

O peso no meu coração tinha a ver com o jovem que foi violentado pelos colegas de equipe voltando para casa depois de uma competição esportiva.

O peso no meu coração tinha a ver com a criança que se sente cada vez menos por ser isolada, esnobada e menosprezada pelos seus pares, na vida real e na internet.

O peso no meu coração tinha a ver com a criança que não consegue parar de olhar para imagens perturbadoras na internet, que a fazem se sentir envergonhada, suja e imprestável.

O peso no meu coração tinha a ver com quem olha para a escuridão e se pergunta se deve caminhar sozinha - quem acha que ninguém vai ajudá-la.

sozinha

O que recebi no aeroporto - segurança, conforto e validação - deveria ser dado a todas as crianças, e a hora é agora. Pessoas e conteúdos que podem mudar uma vida estão nos seus bolsos, a um clique de distância. E, apesar de eu falar sobre responsabilidades na internet, software de filtragem e envolvimento ativo dos pais na vida online das crianças, isso não é suficiente.

Elas precisam de proteção interna.

Três anos atrás, dei um pouco de proteção interna para minha filha. Foi durante um período em que houve muitos casos de suicídios motivados por bullying online e estupros gravados no celular.

Lembro de tentar desesperadamente proteger minha filha dos perigos que ela encontraria ao sair de casa - ou ao entrar na internet. Como eu sabia que isso não seria possível, jurei equipá-la com proteções internas.

A carta abaixo foi o começo de uma conversa que mantenho com minha filha - uma prova tangível de que ela nunca estará sozinha nos momentos mais sombrios.

salvavidas

Um salva-vidas do século 21 para minha filha querida:

A tecnologia se tornou parte integral da sua vida, agora que você tem de fazer suas lições de casa. Logo você vai começar a se comunicar online com outras pessoas. Antes da chegada desse dia, é muito importante que eu te diga algumas coisas.

Você vai ouvir essas palavras de mim várias vezes - até enjoar. Mas esses lembretes são importantes. Quando chegar a hora, você vai saber como eles são importantes. Quando chegar a hora, essas palavras vão fazer toda a diferença. Eis meus lembretes para você.

Quando te provocarem, te magoarem ou te humilharem, esse dia vai parecer horrível e insuportável. Mas saiba que esse dia vai acabar, e o amanhã está logo ali. O amanhã tem possibilidades que você não consegue enxergar hoje. Vou te ajudar a enxergar as promessas do amanhã.

Meu amor por você não vai mudar.

Comigo você não precisa ser forte. Pode chorar, gritar e botar para fora seus verdadeiros sentimentos. Meu amor por você não vai mudar se você revelar os sentimentos que você tem dentro de si - por mais difícil que seja expressá-los.

Você merece amor e respeito e gentileza. Se as pessoas te tratarem mal, vamos pensar juntas numa maneira de enfrentar os problemas, superá-los, afastar-nos deles, se for o caso.

Te incentivo a encontrar amigos leais e gentis que possam te ajudar a enfrentar o ano escolar. Não deixe a pressão social te enganar: os amigos não precisam ser populares, bonitos ou descolados; no fim das contas, gentileza é a qualidade mais importante.

Você tem força e coragem.

Se você foi humilhada ou provocada, pode parecer impossível encarar certas pessoas. Mas você tem a coragem e a força internas para mostrar aos outros que ninguém vai te impedir de viver sua vida.

O problema é deles.

O ataque pode ser pessoal contra você, mas o problema é deles - e as inseguranças, também.

Ninguém vai mudar como te vejo.

Não importa a humilhação ou a vergonha que você tenha passado. Quando olho para você, vejo minha filha linda e incrível. Nada vai mudar isso.

Pode me contar tudo.

Você pode falar tudo para mim - mesmo que tenha cometido um erro, mesmo que tenha te faltado discernimento. Não tem nada que seja "ruim demais" para me contar. Pode acreditar, também cometi muitos erros. Por mais difícil que seja dividi-los com outras pessoas, fiquei aliviada por não ter de carregar o fardo sozinha.

Conte para um adulto.

Se no fundo você sabe que alguém está fazendo coisa errada, provavelmente é verdade. Contar para um adulto que alguém está sendo magoado ou maltratado não te transforma numa pessoa covarde, e sim numa pessoa corajosa e cheia de compaixão.

Você vira uma amiga que no futuro vai poder olhar para trás e dizer com orgulho: "Não ofereci a outra face. Tentei ajudar."

Se você é a pessoa que está sendo magoada ou maltratada, conte para um adulto. Não sofra sozinha. Mesmo que dê vergonha... ou que ache que ninguém vai acreditar... ou que ache arriscado contar; não fique em silêncio. Venha imediatamente até mim ou alguém em quem você confia.

Você nunca está sozinha.

Não tenho como fazer sumir sua dor ou seus problemas, mas posso ouvir. E juntas podemos encontrar uma solução. Não tem nada que não possamos enfrentar juntas. Você nunca, nunca estará sozinha.

Te amo para sempre.

[Do meu livro Hands Free Life ]

Meus amigos, você consideraria dar à criança da sua vida um pouco de proteção interna? Em meu segundo livro, chamo esse tipo de mensagem de Salva-Vidas do Século 21, e eis o porquê:

Um salva-vidas pode te puxar de volta quando você vai longe demais.

Um salva-vidas é algo que você pode agarrar quando a pressão dos outros te puxa para o lado errado.

Um salva-vidas te ajuda a ter coragem e a dizer: "Aconteceu uma coisa terrível comigo".

Um salva-vidas é a prova de quem alguém te ama e te aceita, o que quer que o mundo diga.

Um salva-vidas é algo que mantém sua cabeça acima da linha da água, quando parece mais fácil deixar-se afogar.

O Salva-Vidas do Século 21 contido neste post é seu. Minha maior esperança é que minhas palavras sejam transmitidas a uma criança. Fique à vontade para usar todas elas. Fique à vontade para usar somente as palavras que te parecem adequadas. Mas, por favor, não fique em silêncio. Não ache que as pessoas que você ama já sabem disso. Não ache que as pessoas que você ama não vão enfrentar problemas.

E, quando elas estiverem sozinhas, morrendo de medo de caminhar na escuridão, espero que elas ouçam a sua voz.

Elas vão lembrar de você falando: "Não se preocupe, vou te ajudar".

Em um instante, o pior momento da vida delas não será o fim.

Em um instante, o pior momento da vida delas será sua chance de ajudá-las a encontrar o caminho de casa.

E você agradecerá por ser a pessoa segurando a mão dela, enquanto vocês caminham em direção à luz.

*Post publicado originalmente no www.handsfreemama.com.

*O Salva-Vidas do Século 21 contido neste post veio de HANDS FREE LIFE, best seller de Rachel Macy Stafford que fala das proteções internar que podemos oferecer às pessoas queridas.

O livro também revela nove hábitos diários para criar relacionamentos fortes, amorosos e comunicativos, apesar de nossa cultura de distração, perfeição e correria. Mas ainda não foi publicado em português.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Por uma maternidade que não nos faça sentir culpa

- Das lutas que valem a pena entrar

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