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Quando foi que você deixou de se sensibilizar pela dor do outro?

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"É uma vergonha acordar em um mundo de dor.
O significa quando uma guerra toma conta?
É o mesmo todo dia no inferno dos homens.
O que pode ser salvo, e quem restará para segura-la?" 

(Pearl Jam, World Wide Suicide)

Um pai matou o filho por diferenças políticas.

Releia essa frase três vezes por favor. Releia e se você puder dar um sentido espalhe pelo mundo, eu te peço. Nós estamos precisando deste sentido. Eu estou precisando.

Perdemos a estribeira e acordamos em um mundo de dor, a guerra tomou conta, é o inferno feito pelos homens. O que nos resta? Quem vai ficar por último pra apagar a luz entre mortos, feridos e fugitivos?

Os comentários sobre essa triste notícia são de partir o coração. Teve gente, muita gente, mas muita gente MESMO, dizendo que o pai estava certa em matar o filho, afinal o filho era de esquerda, tinha uma doença incurável, e a morte era a recompensa por cometer o pecado de ter lido O Capital algum dia.

Eu não tenho coração pra suportar tudo isso. Minha alma está cansada deste ódio terrível. Sem falsa modéstia, eu acredito que posso contribuir para melhorar meu País, mas com igual honestidade e um pouco envergonhado, começo a pensar que tenho medo de mudá-lo.

Quer dizer, eu vou tornar o meu país um lugar melhor como? De que jeito? Como se dialoga com quem acha ok matar o filho, se este for de esquerda? Como? Alguém nos ajude Lázaro, a entender, porque do jeito que está eu não sei o que vai dar.

Com nossas vozes estamos dizendo chega de violência, com nossas vidas estamos dizendo chega de ódio, com nossos olhos estamos dizendo chega de ofensa, com nossos corpos estamos dizendo chega de briga.

Mas há quem ignore nossas vozes, vidas, olhos e corpos. Há quem nos olhe e não nos veja humanos, mas menos que isso. E não falo dos políticos. Estes já não olham por nós desde que o mundo é mundo. Falo do povo, porque eu sou o povo, você é o povo.

Falo do meu irmão na fila do pão.

Aquele vizinho que antes me cumprimentava e hoje não me olha no rosto. Aquela tia que já não manda mais bom dia. Aquele colega de classe que tenta humilhar minha visão de mundo.

Eu era adolescente e pensava que era possível mudar o mundo. Aos dezesseis tudo é possível. Me avisaram que eu estava errado. Não acreditei e segui meus anos assim, tão tolo no presente quanto era no passado, e crendo. É possível.

Mas ai um pai mata um filho por divergência política. O garoto queria ocupar sua faculdade e o pai não aceitava. E há milhares, talvez milhões de pessoas que concordam com o que fez o pai. O pecado mais elevado foi cometido.

Ele matou o amor.

Porque o amor do pai é o filho.

Mataram o amor e as pessoas aplaudem. Justificam. Defendem.

Não. Desse jeito, não dá.

Chega de tudo, é preciso por um fim a tudo isso. Que se foda PT, Lula, Temer, Garotinho, MBL, todos eles. Todos eles, que se fodam.

Esqueçam tudo isso, em nome daquilo que você considera sagrado, e volte a olhar uns aos outros como nos olhávamos no recreio da escola, quando tínhamos uns seis anos e todo mundo era amigo e as brigas acabavam quando alguém chorava. Você se lembra dessa época? Se lembra quando a dor do outro nos tocava, e nos abraçávamos para que a dor fosse embora?

Alguém ainda se lembra que não vale a pena brigar, xingar, gritar com seu irmão por conta daquilo que ele acredita, seja em Deus, seja que o Lula é inocente?

Eu estou cansado e triste. Tudo isso que começou nos corredores de Brasília tomaram as ruas, isso me machuca.

Não acreditem nestes que xingam, gritam. Não podemos viver mais um dia em um lugar que parece ter sido esquecido por Deus. Ele não era brasileiro?

Esse terremoto já causou problemas e dor demais. As perguntas que todos se fazem continuam sem resposta e estamos a cada gota de ódio que se acumula, mais longe da verdade acerca de nós mesmos. O país não irá mudar dessa forma, a não ser para pior.

Volte a crer nas coisas cafonas dos anos 60. No amor, no beijo, no abraço. Nós somos jovens e até podemos perder de vez em quando a esperança por não termos ainda aprendido a olhar além. Mas existe um além. Há um depois.

Diante da imensidão do universo, toda esse ódio tolo em que nós estamos nos metendo dia após dia não significa nada. Um dia todos nós que hoje estamos nos odiando entre si iremos morrer, e será como se nada tivesse acontecido. Morreremos todos, e chegará o dia em que a última pessoa que se lembra de nós também morrerá e nós voltaremos ao pó. Será como se nunca tivéssemos sequer existido.

Diante de tudo isso, eu repito, só há uma palavra na qual eu acredito.

E é o amor.

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