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Impeachment e o brasileiro no País das Maravilhas

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DILMA ROUSSEFF
Anadolu Agency via Getty Images
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É o fim.

Acabou a peça de teatro, os letreiros estão subindo e nos levaram muito mais que o nosso voto. Nossa dignidade enquanto brasileiro foi levada junto. Aquele restinho de orgulho está sendo lentamente trocado por algo ainda indizível.

Após Dilma, nossa presidenta eleita, passar catorze horas ouvindo as mesmas perguntas e dando obviamente as mesmas respostas, as cortinas sobem e olhamos de perto o que já era sabido de antemão por todos nós, embora apenas alguns aceitem. O veredicto já estava dado antes do palco ser montado, porque o roteiro já estava pronto desde muito antes, tal qual o julgamento de Alice pela Rainha de Copas. Mas lá é o País das Maravilhas, e tudo é invertido. As maravilhas do Brasil terminaram com o fim das Olimpíadas, mas as inversões permanecem. Parece que nem mesmo nosso amado Rio de Janeiro tem estado assim, tão maravilhoso.

O presidente em exercício - é assim que o chamarei agora, uma vez que eleito não foi e interino não é mais - Michel Temer, não concorrerá às próximas eleições, nem para síndico de prédio, não porque não quer. Sabemos de longa data a sanha do PMDB pelo poder. Não concorrerá porque está inelegível, ao contrário da presidente eleita e afastada, Dilma Rousseff.

Convém lembrar que mesmo citado nas delações da Lava Jato, condenado e punido com a inelegibilidade, Temer, ao assumir a presidência via golpe institucional, um golpe com ares de legalidade - golpe líquido talvez? - fica sem poder ser investigado por atos fora do mandato.

Há alguns atores que esquecem suas falas e falham fora das sombras, a olhos vistos. Caso do senador Acir Gurgacz (PDT-RO) que acaba revelando, ao vivo na TV Senado, que ele e seus pares sabem não haver crime de responsabilidade fiscal por parte de Dilma, mas que mesmo assim votou a exemplo de outros 60 senadores pelo fim do mandato dela por uma questão daquilo que ele chamou de governabilidade. Até a última vez que li a respeito, creio que a solução para governo com problemas de governabilidade era o diálogo ou o voto após quatro anos da sua eleição.

Mesma TV Senado que anunciava Temer tomando posse definitiva antes mesmo de começar a votação do impeachment.

Mas como estamos no país invertido, mesmo com o fim das maravilhas, o senador Romero Jucá (PMDB -RO) é gravado em ligação a Sérgio Machado (PMDB, ex PSDB) insinuando a queda de Dilma, com a finalidade de parar a Lava Jato antes que algum outro juiz além de Sérgio Moro comece a investigar e prender efetivamente algum outro político que não um filiado ao PT. E nada ocorre, porque, convém lembrar, em palestra em Wilson Center, Washington, Sérgio Moro afirma não julgar casos relacionados ao PSDB porque essas investigações não chegam até ele. Mesmo com Aécio Neves, candidato derrotado do PSDB nas eleições presidenciais de 2014 sendo citado, seguramente em ao menos onze oportunidades por quatro delatores diferentes da Lava Jato. Mesmo com Odebrecht afirmando que José Serra, senador do PSDB -SP, e atual ministro do exterior do Governo Temer, teria recebido a bagatela de R$ 23 milhões via caixa dois.

O que nos devolve a Dilma, nossa Geni, que vem recebendo algumas pedradas. Algumas ela até merece, outras deveriam ser endereçadas a outros corpos, mas nossa Geni, nossa maldita Geni, Dilma maldita, ela é boa de cuspir, inclinada para o drama, essa dama, nossa Geni, mais fácil de apanhar que Cunha, dono da mão que deu a primeira facada, quando aceitou a meia dúzia de patetas que andaram a pé até Brasília, para protocolar o pedido de impeachment.

E o roteiro segue seu script. Dilma afastada em definitivo, Cunha livre, e a Lava Jato já dá sinais de desgaste entre a classe média brasileira. Gradativamente ela está saindo dos jornais e noticiários na televisão. Lembremos que Moro comentava, quando o impeachment foi aceito por Eduardo Cunha, desejar encerrar a Lava Jato até o fim do ano. Ele parece ser um homem de palavra.

Daqui pra frente o discurso está pronto. Caso aconteça o provável - o que espero veemente que não ocorra - o Brasil irá piorar a olhos vistos. A recessão irá continuar, eventualmente aumentar. Os benefícios sociais serão pouco a pouco diminuídos e cancelados. Fies, Prouni, Ciências sem Fronteiras, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, entre outros, serão reduzidos, e cortados. Cortes em áreas estratégicas e essenciais como saúde e educação serão congelados - a proposta que se debate é um congelamento com correção inflacionária pelos próximos vinte anos - bem como o corte de investimentos em universidades federais da ordem de 45%.

Privatização da saúde não seria surpresa. Aumento da carga semanal de trabalho do brasileiro também não. O fim de alguns direitos trabalhistas viriam na esteira, junto com o arrocho salarial, o que contribuiria a médio e longo prazo para dificultar o mobilidade de ascensão social.

E quando a população apontar estes e outros problemas será alardeado que a culpa ainda é do PT. Dirão que há muitos problemas, que o buraco é mais fundo do que pensavam.

E neste país invertido, convém uma pergunta: onde foi que erramos como povo? Será que foi quando os portugueses chegaram a nossa costa? Quando permitimos que dividissem nossas terras com os espanhóis? Quando deixamos levar o ouro de Minas Gerais, secar o solo do Nordeste com a monocultura de açúcar, quando criaram os latifúndios? Será que nosso terror foi gerado por aceitarmos séculos de escravidão negra, negarmos os direitos as mulheres, aos LGBT's?

Não sei. Não sei mesmo. Ao fim perdemos, nós todos que lutamos pela democracia. Os de ontem e os de hoje. Perdemos porque todo esse processo de impeachment foi tristemente conduzido por uma maioria de bandidos e Dilma, por mais incompetente que seja não é corrupta, e isso é sabido por aliados e adversários.

Perdemos, portanto, mas olha do lado de lá. Entre os vencedores do golpe estão Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Michel Temer, Jair Bolsonaro. Eu não podia estar entre eles, portanto nos orgulhemos da derrota. Que a derrota se torne um trunfo, uma medalha. Não é o que dizia Darci Ribeiro?

Deixe que a história seja contada um dia, por mãos competentes e atentas, e tudo que hoje parece tão nebuloso será limpo e claro.

Por hora está tudo parado como em 1964, naquele dia triste que durou 21 anos, que carregou as roseiras todas pra lá, junto de quem partiu e morreu.

Passado o golpe, tornado derrota em medalha é hora e começar outra luta, pela democracia e pela legalidade de nossas instituições. Que se apaguem os rostos sisudos, as carrancas feias, o grito de ódio, o punho cerrado. Não suporto mais brasileiro deitado como se fosse sábado, tropeçando como se fosse bêbado, indo ao chão feito pacote flácido, morrendo na contramão atrapalhando o tráfego.

O mundo não é pequeno e a vida não é fato consumado. Há espaço para todos nós, brasileiros. Há espaço, creia. Não pode ser que não haja, o país é grande, é bonito.

Levantemos como brasileiros, cheios de paixão, e dispostos a lutar o bom combate sem ter nem causar pavor. Esse tempo, página infeliz da nossa história, vai passar, e o futuro dirá quem esteve do lado correto. Dirá quem não se envergonhará ao contar sua história aos filhos e sobrinhos. Quem como eu o fará de queixo erguido, orgulhoso?

Espero que você, quem está lendo.

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