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Não precisamos mais dessa dicotomia entre 'coxinhas' e 'petralhas'

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Quem não conhece, deveria conhecer um cara chamado Axel Honneth.

Honneth nasceu na Alemanha, foi aluno de Jürgen Habermas e representante da terceira geração de uma corrente filosófica chamada Teoria Crítica. Publicou em 1992, Luta por Reconhecimento - A gramática moral dos conflitos sociais, obra que discorre sobre temas complexos como psicanálise, psicologia social, sociologia de grandes grupos, gramática de conflitos, o papel da filosofia na leitura dos processos históricos entre outros.

Mas se ler Honneth é difícil, ao mesmo tempo, conforta em tempos sombrios. E vivemos tempos sombrios. Ele é um autor que prevê um ganho civilizatório e portanto ético e moral, exatamente nos momentos de crise e de conflito.

O autor elenca três níveis no qual o reconhecimento e a individualização humana acontece e após isto, as três formas de desrespeito a estas formas, para por fim acrescentar que este elemento negativo - o desrespeito - é fundamental como motor motivador da construção de identidade política do ser humano é de sua ação no espaço público, mesmo quando há mais ônus do que benefícios.

Em linhas gerais as três formas de reconhecimento são:

a) Reconhecimento pelo amor; o que gera uma ligação simbiótica entre mãe/pai e filho durante a fase dos primeiros meses de vida. Essa fase é onde a criança é reconhecida e tratada como alvo de afeto pela mãe e recebe os requisitos para desenvolver a confiança necessária para pleitear a segunda fase do reconhecimento.

b) Reconhecimento jurídico; onde o reconhecimento se dá de modo mais amplo, na medida que o direito oferece estabilidade a todos os participantes do grupo social quando os reconhece como cidadãos livres e iguais. Porém o indivíduo só consegue requisitos psíquicos para pleitear este reconhecimento quando possui convicção no mundo social, e está convicção depende da relação gerada na primeira fase do reconhecimento.

c) Reconhecimento pela estima social; que é quando o cidadão volta a ser individualizado por pertencer a determinado grupo como por exemplo, grupo dos estudantes, de homossexuais, de negros.

É importante ressaltar que estas três formas de reconhecimento descritas por Honneth são baseadas primeiramente nas intuições propostas por Hegel durante sua juventude, e posteriormente com embasamento empírico oferecido por teóricos da psicologia e psicanálise como Winnicot, Mead, Thompson, Dewey, entre outros.

Após esta descrição das formas de reconhecimento, Honneth descreve as formas de rebaixamento/desrespeito do sujeito:

a) Pela perca de controle sobre seu corpo. Por exemplo num caso de estupro ou sequestro. Este desrespeito abala a confiança do sujeito no mundo social.

b) A falta de reconhecimento de seu plano de vida como algo de valor. Como quando, por exemplo, sua profissão não recebe nenhuma forma de reconhecimento.

c) Quando o modelo social não reconhece e não permite que determinada forma de vida se manifeste, como por exemplo as sociedades escravocratas brasileiras que impediam a forma de vida livre para a população negra.

Sempre que há desrespeito, há potencial para que formas de resistência se manifestem.

Invariavelmente podemos compartilhar formas de desrespeito e quando conseguimos expor no espaço público que o modo como somos desrespeitados é compartilhado por mais pessoas, podemos gerar um motor para que possamos criar uma identidade social e política capaz de gerar em nós a estima que nos foi negada, e com isso lutarmos para ter nossas reivindicações atendidas. Neste momento voltamos a ter uma identidade política individual e criamos laços de solidariedade entre nós.

Com essa introdução penso que posso chegar onde quero: por maiores divergências que os brasileiros demonstraram possuir nos últimos anos e meses, creio que há algo que compartilhamos, algo que nos une, enquanto povo.

O desrespeito.

O último de uma série de desrespeitos contra nossos direitos está sendo a mudança do ensino médio sem diálogo com aqueles que entendem do assunto: os professores. Afinal eu sou um e não me perguntaram nada.

Nossos planos de vida estão comprometidos com um retrocesso na educação, e por isso mesmo deveríamos ter formas de direcionar modelos mais completos de educação a nossos jovens. Não parece ser o caso.

Mas meu ponto é o desrespeito neste artigo. Creio que, não importa se você é coxinha ou petralha, direita ou de esquerda. Se você não faz parte do 1℅ mais rico do País, você precisa, assim como eu, pagar contas.

E você sabe a dureza que está sendo pagar as contas do mês. Por motivos diversos as coisas estão complicadas em nosso país, e a menos que você seja um economista e/ou cientista político altamente qualificado, duvido que você tenha uma solução perfeita para o tirar nosso país desse problema profundo em que se encontra.

A direita de quem discordo aponta uma saída. A esquerda com quem concordo aponta outra. Mas sendo honesto comigo mesmo, não saberia dizer qual saída está certa, qual a melhor delas. Me baseio em um suposto senso moral, que pode muito bem estar equivocado.

Mas sei de algo. Sei que o coxinha que teve o seu Ciências sem Fronteiras cortado está tão triste quanto o petralha que teve o mesmo benefício cortado.

O petralha que viu reduzir as bolsas do ProUni e do FIES está tão preocupado quanto o coxinha que vai prestar vestibular esse ano. Quando são cancelados financiamentos do Minha Casa Minha Vida, coxinha e petralha dão as mãos e vão juntos atrás de fiador para locar um imóvel.

Quero dizer que por mais que nenhum dos lados queira admitir, se há algum jogo de nós contra eles, não é de coxinha contra petralha. É de povo contra maus políticos.

Espero, realmente que nosso povo compreenda isto e venha a produzir formas de resistência a medidas que nos trazem prejuízos. Porque já vimos que se não vier algo de nós, do povo, não virá nada de lugar algum.

Quero acreditar que o brasileiro consegue superar este momento. Que nosso povo não é um povo classe C, como diz o Criolo. Porque eu, assim como ele, olho para nosso povo, e nosso povo é nota A.

A+

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