Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Rafael Alves de Oliveira Headshot

Eduardo Cunha finalmente caiu. Mas e agora?

Publicado: Atualizado:
EDUARDO CUNHA
EVARISTO SA via Getty Images
Imprimir

Caiu. Demorou, mas caiu.

Demorou mais do que o esperado e explico por quê.

Eduardo Cunha começou sua carreira política logo após se formar em economia em 1980 pela Universidade Cândido Mendes ao trabalhar na campanha de Eliseu Resende (PDS) em 1982 e atuando na campanha de Moreira Franco (PMDB) em 1986. Em 1989 é convidado por ninguém mais, ninguém menos que Paulo César Farias a se filiar ao PRN e assim trabalha na campanha de Fernando Collor de Melo à Presidência, exercendo o cargo de tesoureiro, no Rio.

O resultado hoje sabemos. Collor vence e, em 1991 Cunha acaba comandando a Telerj, conhece Cláudia Cruz, sua atual esposa, e já em 1992 o TCU (Tribunal de Contas da União) constata irregularidades na companhia, cuja comissão está vinculada ao seu gabinete.

Desde então Cunha acumulou problemas com a Justiça - assim, com J maiúsculo mesmo. Foi exonerado da Telerj em 93, logo após ser descoberto um esquema de corrupção que acabou culminando no impeachment de Collor. Em 96 torna-se réu no esquema de PC Farias; em 99 Cunha é indicado como subsecretário por Francisco Silva, o então secretário de Habitação nomeado por Anthony Garotinho. Quando a secretaria se torna Companhia Estadual de Habitação (Cehab), Cunha torna-se presidente e logo é afastado por suspeita de contratos sem licitação e favorecimento de empresas afastadas em 2000.

Desde então, entre idas e vindas por diversos espaços políticos, exercendo papel controverso em debates importantes para o país, Cunha é eleito líder do PMDB na Câmara em 2013 exatamente por seu poder de adiar ou acelerar votações na Casa. Mesmo ano em que o STF (Supremo Tribunal Federal) abre investigação contra ele no Tribunal de Contas no Rio.

Chegamos então ao ano de 2015 onde Cunha ganha protagonismo e destaque político ao ser eleito presidente da Câmara dos Deputados com 267 votos, derrotando o candidato petista Arlindo Chinaglia no início do ano. Em março ele aparece na lista de Rodrigo Janot, procurador-geral da República, junto de políticos citados por delatores da Operação Lava Jato (ainda se lembra dela?) e então comparece a sessão da CPI da Petrobrás negando possuir contas na Suíça. Para sua surpresa, em setembro do mesmo ano, autoridades suíças enviam ao Brasil provas documentais sobre uma conta bancária mantida em segredo no mesmo país e um ano após estas provas documentais chegarem as autoridades brasileiras ele é afastado por quebra de decoro parlamentar - um nome pomposo para mentira.

Um ano.

Nesse meio tempo ele recebeu uns patetas do MBL que protocolaram o pedido de impeachment assinado por Hélio Bicudo, Miguel Reale e Janaina Paschoal, e pago pelo PSDB a quantia de 45 mil reais para que fosse escrito. Já é o segundo impeachment em que Cunha se mete. Mais um e ele pede música no Fantástico.

A pergunta que precisa ser colocada em debate público, e para a qual não há resposta fácil é exatamente esta que se passa na cabeça de tantos brasileiros neste momento: porque Cunha sofre a cassação somente agora, um ano após as provas de suas contas virem a tona e ficar provado que mentiu a seus pares? Ou melhor, porque apenas mais de vinte anos após tantas denúncias feitas contra ele? Sua biografia é recheada de problemas e complicações para as quais ninguém até hoje tinha dado a mínima. Seus pares - os mesmos 450 que o cassaram - com raras exceções não pareciam se importar com tantos casos de corrupção em suas costas.

Hoje se importam, e é preciso que isso seja colocado em questão, pois passado a catarse coletiva - em especial a catarse da esquerda que vê em sua queda uma compensação para a queda de Dilma - é preciso que se pergunte o que isto muda efetivamente para Eduardo Cunha e também para o país.

Para Cunha, pouco muda em princípio, pois sejamos francos, após mais de duas décadas envolvido até o pescoço em casos de corrupção das mais diversas naturezas, é muito improvável que ele dependa do seu salário de parlamentar para colocar comida na mesa. Ao contrário. Não apenas sua vida, como a de seus filhos e netos está garantida.

A médio prazo, ele será julgado por duas ações penais ao qual respondia no Supremo Tribunal Federal que, segundo alguns juristas, poderá cair nas mãos de Sérgio Moro. Se for o caso, torcemos para que Moro o trate diferentemente do que vem tratando Serra e Aécio, ambos citados e ambos ignorados.

Seus seis inquéritos aos quais responderá, poderá cair em qualquer tribunal de primeira instância do país. O que quer dizer anos de recursos julgados com Cunha em liberdade.

Ou seja, passado tudo isso, Cunha vai pra casa, abre um vinho caro e come algum prato cujo nome eu mal saberia pronunciar - tipo caviar, do qual nunca vi, nem comi, disso só ouço falar - beija sua mulher, Cláudia, deita e dorme o sono dos justos. No dia seguinte ajeita seus oclinhos, coça a barriga e se põe a escrever seu livro sobre o impeachment, o qual será publicado pela editora de algum contato feito em seus anos como parlamentar.

E para o país então, o que muda?

Pouco ou nada. Os grupos parasitas que antes o apoiavam - MBL, Revoltados Online e Vem pra Rua - continuam com milhões de seguidores, e quase ninguém parece se importar com esse fato. Aparentemente tudo foi válido nesta cavalgada louca em direção ao impeachment. Para usarmos a expressão de Marco Feliciano deputado federal (PSC) envolvido em um caso de tentativa de estupro, e um dos que votaram contra a cassação, Cunha é malvado, mas é o "malvado favorito" deles. Agora estes grupos comemoram sua queda com a mesma alegria no rosto expressa em fotos ao lado de Cunha, tiradas no Congresso.

Da mesma forma, formadores de opinião de grandes veículos de comunicação, que antes o defendiam, já possuem um discurso enlatado para não apenas justificar terem abandonado Cunha, como também convencer a opinião pública que não há mal algum no contato mantido com o antigo affair.

E a opinião pública até onde percebo está comprando este discurso, porque repito, parece que tudo é aceitável, desde que não exista um petista/petralha ocupando a presidência. A população permanece em um estado semi vegetativo capaz de se alinhar a qualquer discurso que se coloque contra o PT, mesmo que esse discurso seja danoso para a ética em si - por exemplo se aliar a alguém tão corrupto quanto Eduardo Cunha - ou danoso para si mesmo - por exemplo apoiar a revogação de direitos trabalhistas.

Ao meu ver, Cunha foi descartado - como presumivelmente o seria após o afastamento de Dilma - e então, uma vez retirado o bode da sala, voltamos ao nosso jantar fingindo normalidade, como se ele nunca houvesse estado lá.

E este meus caros, é o verdadeiro problema.

LEIA MAIS:

- Impeachment e o brasileiro no País das Maravilhas

- Perde-se um deputado, ganha-se um escritor: O futuro incerto de Cunha

Também no HuffPost Brasil:

Close
Os defensores de Eduardo Cunha
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual