Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Rafael Alves de Oliveira Headshot

Precisamos conversar sobre o que vão fazer com o Ensino Médio no Brasil

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER EDUCATION BRAZIL
ASSOCIATED PRESS
Imprimir

Estamos destinados a cuidar uns dos outros por toda a vida, do nascimento aleatório até a morte da qual até agora escapei.

Não foi fácil vencer até aqui. Vim da ZL, minha aula mais frequente no colégio era a vaga, sem professor em sala, mas sim em casa, doente de tanto trabalhar. Faculdade pública era sonho, pagar as contas do mês a meta, comer três vezes por dia o motivo da luta.

Às vezes perdíamos a luta, às vezes a meta não era cumprida, e o sonho era aquela coisa que você sabe que vai perder quando acordar. E acordávamos sempre.

Eu vivi aquele fim de século com menos de R$ 1,50 no bolso para um cachorro quente, e a virada não veio fácil. Afinal estou aqui, com meus 32 e nem todas as contas estão pagas. Mas o sonho foi alcançado e superado por novos sonhos.

Só que os obstáculos de ontem, hoje superados foram substituídos por outros. Ontem não havia professor na sala, hoje estão tentando de todo modo me tirar da sala. A essa altura do campeonato você tem que saber do que falo. Falo da tentativa de destruição do Ensino Médio.

Pedro Chaves (PSC-MS) relator da proposta de mudança do Ensino Médio no Senado afirmou ao jornal Estado de São Paulo:

"Não sou a favor de que as disciplinas sejam retiradas da grade, mas que sejam incluídas como conteúdos transversais"

Na prática isso significa Filosofia e Sociologia nas aulas de História e eu, professor de Filosofia, desempregado. Simples assim.

Junto com meu desemprego, você ou seu filho vai aprender a escrever uns verbos, fazer umas funções, apertar uns parafusos. E só. Está bom. Mais não precisa. Ou precisa?

Precisa. Na última vez quem tirou ambas as matérias do currículo do Ensino Médio foram nossos militares tão amáveis, que tinham por hábito furar o útero de mulheres com agulhas de crochê ou raspar a pele de seres humanos com escovas de aço durante sessões de tortura.

A população foi tornando-se imbecilizada no passado por uma geração inteira que não aprendeu a importância de um "por que", de um "ou não" de um "talvez".

Uma geração que foi doutrinada a acreditar que Lei é sinônimo de Justiça e não aprendeu o suficiente que a escravidão era legalizada. Uma geração ensinada que o Brasil foi descoberto, não roubado, sequestrado, estuprado e bestializado. Que os bandeirantes eram heróis corajosos ao invés de assassinos escravistas. Que nossos índios eram vagabundos e os negros não tinha a vida tão ruim assim.

Aprendeu que gente que protesta contra o sistema morre, a semelhança de Tiradentes e Marighela, e por isso é melhor ficar quieto.

Hoje não vestem farda, vestem ternos Armani. Na cabeça não se vê os quepes, mas carecas envelhecidas de homens cujo rosto não se vê o mínimo de compaixão. Devem ser pessoas que assistem Toy Story 3 e não choram.

Ou assistem Doze Anos de Escravidão e xingam Patsy por buscar sabonete na fazenda vizinha.

Eu não vou perder emprego calado e deixar mais uma geração, a de meus filhos, sobrinhos e netos, crescer tão cega e embrutecida quanto a geração de meus pais e avós.

Se os de ontem ficaram em silêncio, com o devido respeito, isso é algo que a história cobrará hoje ou amanhã e deles não me orgulho, tampouco me servem de exemplo.

O que aprendi lendo Thoreau, Rousseau, Arendt, Platão e tantos outros é que, contra o silêncio das massas, é necessário uma voz forte o suficiente para servir de alerta, no mínimo. Mas aprendi mais.

Aprendi que uma voz apenas não era, não é, e não será forte o suficiente. Jamais.

Este será um fim de texto piegas, mas peço por favor que olhe para dentro do seu coração e se pergunte se os que pregam o ódio entre nós, brasileiros têm como estarem certos. Sejam antipetistas ou não.

E contra o ódio, separatismos, fascismo e coisas do tipo só conhecimento pra resolver. Ler livros, debater, refletir. Principalmente pontos de vista com os quais você naturalmente discordaria. E neste ponto a Filosofia é fundamental.

Por isso meus amigos, a Filosofia deve ficar.

E ficará, mas não sem luta.

LEIA MAIS:

- O que estamos aprendendo com as ocupações estudantis?

- Não precisamos mais dessa dicotomia entre 'coxinhas' e 'petralhas'

Também no HuffPost Brasil:

Close
Protestos contra Michel Temer
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual