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'Luke Cage', da Netflix, é uma ode à representatividade

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LUKE CAGE NETFLIX
Divulgação
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Não manjo mais tanto de quadrinhos como pensava. Aliás, na minha época chamávamos de gibi. E comprar gibi era coisa de gente estranha, que não tinha muitos amigos. Íamos ao Sebo do Mickey em Santo André, ao lado do terminal de ônibus comprar gibi usado mais barato. Antes, como hoje novamente, precisávamos economizar de todo jeito. Naqueles tempos por culpa de FHC. Hoje por culpa do Temer.

Como faz anos que não leio um gibi, não vou falar se as séries são ou não bem adaptadas. Não faço a mínima ideia, nem ligo também.

Quero antes chamar atenção para um fato: Luke Cage, última série a estrear, é sobre um personagem negro em uma Harlem que transpira cultura black e soul. Temas como representatividade, respeito, reconhecimento, protagonismo da comunidade negra é o foco. Os heróis da cultura negra são citados. Além disso, Luke é negro e é galã. A todo momento sua beleza é exaltada. Impossível não lembrar de Mohammed Ali dizendo ser o homem mais lindo do mundo. Tanto nos dias de Ali como nos dias de Cage, o padrão de beleza é o do branco europeu, e tanto é verdade que nesta mesma semana a Miss Brasil vencedora nasceu no Paraná e todas as chamadas lembram que ela é a segunda a vencer a competição.

Todos os conflitos estão na série. Busca por orgulho, criminalidade, a mistura entre público e privado. Nada é tratado como galhofa, e a trilha sonora é linda.

Ainda não vi, mas o Spotify precisa ter uma trilha para Luke Cage.

Mas, além de Luke Cage, vamos lembrar que as outras séries Marvel no catálogo da Netflix são Demolidor, um personagem pobre e cego, cujo amigo, Nelson é um cara boa pinta e meio fora de forma, e com um coadjuvante veterano de guerra com transtornos mentais, o Frank Castle.

Em Jessica Jones, ela própria foi vítima de abuso e estupro, sua irmã era abusada moralmente pela mãe, o amigo é um ex viciado.

Há um padrão aqui.

Os personagens de grande destaque possuem não apenas problemas, mas são também personagens que representam pessoas que até então eram, via de regra, invisíveis no cinema ou em outras mídias em geral.

Quando muito eram representados, na maioria das vezes, de modo tolo e caricato: o ceguinho, o gordo, o maluco, a estuprada bêbada, a bulímica, o negro da periferia.

É há aqui uma diferença entre os filmes da Marvel no cinema e suas séries no Netflix.

Capitão América é um loiro de olhos azuis. Tony Stark um playboy. Thor um modelo nórdico europeu. Viúva Negra, a sex appeal. Exceção feita a Nick Fury, que é o Samuel L. Jackson com tapa olho.

Nada contra loiros, playboys ou sex appeal. Ou gente com tapa olho. Meu ponto é que as séries do Netflix divertem ao mesmo tempo em que colocam personagens que tradicionalmente não possuem um espaço além do caricato em posição de destaque, seja como protagonista, seja como coadjuvante.

E faz isso muito bem. Com bons roteiros, interpretações, trilha sonora, efeitos visuais.

Assistir Luke Cage é uma excelente pedida. Não somente ela. Demolidor e Jéssica Jones também. Recomendo fortemente, ainda mais em tempos onde gente como Doria se elege no primeiro turno e, na vida real, as minorias correm risco de perderem seus espaços de representatividade duramente conquistados.

E isso é triste.

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