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Nós, a Chapecoense e a vida que se vai

Publicado: Atualizado:
CHAPECOENSE
Steve Russell via Getty Images
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"E onde quer que você tenha ido e onde quer que possamos ir
Não parece justo. O hoje simplesmente desapareceu
Sua luz é refletida agora. Refletida bem de longe
Nós éramos apenas pedras. Sua luz nos tornou estrelas" 

(Pearl Jam, Light Years).

Eu tenho muita dificuldade para falar sobre morte e tragédia. Não escrevi nada a respeito da morte do Comandante Fidel que valesse a pena ser publicado. Então joguei os rascunhos fora e fim.

Da mesma forma eu não ia me posicionar sobre a tragédia com o time do Chapecoense.

Não que o assunto seja difícil, mas porque a internet, TV, jornais e rádios estão saturadas desse assunto, desde um ponto de vista muito sensível e elegante como por ex. o Esporte Interativo que não vai entrevistar os familiares até a completa falta de empatia como no caso do Catraca Livre, que fez postagens apelativas pra ganhar cliques com a dor alheia.

Eu pensei e conclui: nada tenho a acrescentar que já não tenha sido dito.

Exceto que ainda não foi falado sobre a vida, nem em como lidamos com a morte.

Que ninguém duvide da dor nem do seu tamanho, então não me refiro a dor de quem fica e ora sozinho e calado para os que foram. Eu falo de nós todos, nós, a Humanidade.

Todos nós já passamos por perdas terríveis. Uma delas, eu perdi Dona Maria Antônia de Lima, outrora minha tia-avó, hoje meu anjo particular. Se foi meu anjo da guarda quando viva, que dirá agora que ela se foi. Quando recebi a notícia que ela havia morrido, chorei, gritei, dei murros nas paredes, amaldiçoei por igual Deus e o Diabo. Aquela dor que todos nós conhecemos tão bem se instalou e custou a me deixar. Se é que deixou.

Mas precisamos ir além do óbvio, nesse caso, ir além da dor. Ir além da tragédia. Olhar não adiante, lá longe, mas sim aqui perto na hora da janta solitária, no café da manhã sem piada.

Quero com isso dizer que é preciso que saibamos e compreendamos: todos nós estamos fadados a morte. Não sei porque é assim, e eu, no auge da minha prepotência, consigo pensar facilmente em um mundo onde não há dor, nem morte.

Um mundo pior talvez? Até creio que sim. Mas eu consigo imaginá-lo sem dificuldade alguma. Mas Deus não me consultou e este é o mundo que temos.

E no mundo que temos e no qual vivemos, todos os aldeões do século VII nasceram, viveram, morreram, e hoje ninguém sequer lembra o nome desses homens e mulheres que assim como nós, amaram, tiveram filhos, sorriram, brigaram, choraram, viveram fases de luto.

Esse será também o nosso destino, como o foi deste time tão simpático e aguerrido, a Chapecoense. Claro que eles serão lembrados por muitos e muitos anos a mais que nós, e creio, isso é merecido. Pelo que se lê aqui e ali, o Chape nos lembrava o futebol de uma época onde éramos mais felizes, parece. Eram pessoas normais, sem a badalação de um Neymar e que jogavam, venciam, perdiam e estavam conquistando sonhos e alegrias para eles mesmos e para quem os acompanhava.

Com esse breve texto eu gostaria apenas que ao invés de nos focarmos na dor da tragédia, na tristeza de jovens que morrem (um pai jamais deveria enterrar seu filho...) consigamos nós todos, e principalmente os familiares dos que morreram no acidente, sorrir. Mesmo que um sorriso tímido.

A vida será dura para eles, ninguém ouse duvidar. Mas a vida é sempre dura.

Talvez eu esteja sendo rigoroso demais, mas creio que é exatamente nos momentos de tristeza, de luto que o sorriso se faz mais necessário. E não sorrir para o passado apenas. Não pode bastar as lembranças. Essas ficaram com a família e também conosco.

Falo de sorrir para o futuro.

Se minha contribuição chegar até algum familiar que neste momento sofre, deixo apenas estas palavras, que sorria para o futuro. Para o filho que crescerá, para as novas alegrias que virão.

Nada disso apagará o momento de agora. Entretanto, acredito que quem sofre merece sorrir.

Um dia quem sabe, saberemos as razões pelas quais essas tragédias ocorrem. Este dia não é hoje. Hoje não é dia de saber sobre os mistérios da vida.

Hoje é dia de sorrir.

A Chapecoense merece.

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