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Por que a eleição de Trump nos deixou tão mal?

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DONALD TRUMP HILLARY CLINTON
Mark Makela via Getty Images
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Há uma entrevista de 1959 para o programa apresentado por John Freeman, Face to Face da BBC, onde Bertrand Russel, filósofo e professor de Wittgenstein, dá dois conselhos para o futuro. Um intelectual e um moral.

O primeiro diz respeito a quando alguém for refletir sobre algo. Russel aconselha que você se pergunte: quais são os fatos e quais verdades os fatos revelam? Não busque ver os fatos de modo a confirmar sua visão de mundo, não se distraia tentando verificar quais benefícios seriam acrescentados a sua crença social caso você esteja certo.

Esse conselho deve ser lembrado diariamente após a vitória de Donald Trump na corrida pela Casa Branca.

Mas se o primeiro é observar os fatos a seu respeito, neste quesito vemos que ele foi flagrado falando com um apresentador de TV que costuma "avançar" sobre mulheres, beijá-las contra sua vontade e "pegá-las pela boceta". Treze mulheres então se manifestaram como vítimas de assédio. Ele nega e, em um dos casos, disse que a mulher seria "feia demais para ser estuprada".

Em outra oportunidade Trump admite que costumava espiar as modelos do Miss Universo nuas "porque é famoso" e além disso, dono da franquia.

Uma de suas medidas inclui registrar os muçulmanos que vivem nos EUA e bloquear a entrada de outros imigrantes que professem esta fé. A última vez em que isso ocorreu foi Hitler fazendo o mesmo com os judeus. Sabemos como isso acabou não é mesmo?

Ele também já afirmou que acha sua filha sexualmente atraente. Em 2015 à revista Rolling Stone ele disse: "Se eu não estivesse em um casamento feliz e, você sabe, não fosse pai dela...".

Ele quer a volta dos métodos de tortura como o afogamento controlado e gostaria que os soldados matassem terroristas e suas famílias. Certa vez, ele afirmou que "você precisa tratar as mulheres como merda".

Esses são os fatos. Trump venceu a eleição com esse tipo de discurso e esse é o fato. Perguntemos agora qual verdade isso revela.

Primeiramente que há milhões de cidadãos norte americanos que não se importam com esse tipo de discurso e premiam Donald Trump com seu voto. Isso também revela que mulheres continuam a ser vistas por muitos como objetos sobres os quais você pode avançar, pegar pela boceta, tratar como merda, espiar sem permissão desde que seja rico e famoso.

Revela, principalmente, que grande parte do eleitorado americano não vê problemas em manter relações sexuais com a própria filha ou com a prática da tortura. Nem com políticas xenofóbicas idênticas a de Hitler.

A verdade que esses fatos revela é assustadora.

Quando olho para o fato de que o brasileiro médio diz que "bandido bom é bandido morto", apoia o BOPE torturando traficante, aplaude falas do deputado Jair Bolsonaro quando este diz que não estupra Maria do Rosário por ela ser feia demais, pede que a PM espanque adolescentes e crianças que ocuparam escolas ou que as prive de água, comida, visita de parentes e mesmo do sono, vejo que a verdade por trás destes fatos é que o brasileiro e o norte americano medíocre em muito se parecem.

O fato é que o mundo parece triste não pela inépcia de Trump, mas por ser um fato que revela uma verdade complicada: o mundo se tornou um lugar triste, se é que um dia não o foi. Trump nos mostra que os avanços civilizatórios estão em xeque, a agenda progressista está comprometida e junto com ela, os avanços conseguidos pelas populações historicamente marginalizadas como a comunidade LGBTQ, negra, entre outras, está em risco sério.

Trump eleito é um tapa na cara de quem tem lutado nos últimos anos contra o segregacionismo, contra a xenofobia, contra o uso de tortura, pelos direitos das mulheres, pelos direitos humanos, ao mesmo tempo que coroa o início de uma era de medo e raiva.

E então você se pergunta: qual o segundo conselho de Russel?

O ódio é tolo, o amor é sábio.

Precisamos amar as pessoas, perdoar mais. Compreender que em um mundo cada vez mais conectado, aprender a viver com o outro é o único caminho possível. Nascemos juntos e vamos morrer juntos, compartilhando o mesmo planeta.

Por favor, seja sábio.

E ame.

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