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Star Wars e a crise política e institucional no Brasil

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STAR WARS
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Vamos fazer de conta que você passou as últimas décadas dormindo, em Marte ou plantando bananeira e não saiba o que seja Star Wars. Explicaria então da seguinte forma (resumida):

Star Wars é uma série de filmes/livros/desenhos/games/HQ's criada por George Lucas que narra a história da família Skywalker, começando com Anakin Skywalker, que se transforma durante a saga em Darth Vader (o vilão-mor do cinema), prosseguindo com seus filhos Luke e Leia Skywalker, para agora, com a nova safra de filmes apresentar o filho de Leia, Ben Skywalker, também chamado Kylo Ren, e um dos vilões.

Quem não conhece a saga se perde um pouco, pois os primeiros filmes feitos, Star Wars, O Império Contra Ataca, e O Retorno de Jedi foram feitos em 1977, 1980 e 1983 respectivamente. Esses filmes contam a história de Luke e Leia, Han Solo e Chewbacca lutando contra as forças do Império e mostram Darth Vader com o cara mau a ser derrotado.

Já os filmes que contam a infância de Anakin e portanto, a origem de Darth Vader foram filmados em 1999, 2002 e 2005 e são respectivamente A Ameaça Fantasma, Guerra dos Clones e A Vingança dos Sith.

E agora por fim, estão saindo uma nova leva de filmes, O Despertar da Força com Kylo Ren como antagonista. Para deixar um pouco mais bagunçado, Rogue One: Uma História de Star Wars, filme que será lançado amanhã no Brasil, se passa antes do primeiro filme, Star Wars, lançado em 1977.

Nesse meio tempo Star Wars saiu do cinema e foi parar em outras mídias como HQ's e games, expandindo o seu universo. Algumas coisas são ótimas -- como essa nova safra de livros que estão sendo vendidos -- outras são sofríveis -- como as mudanças de George Lucas aos filmes originais e os filmes de 1999 a 2005.

Entre mortos e feridos, feitas as apresentações (fulano este é Star Wars, Star Wars, este é fulano) Star Wars tem uma premissa, e é dela que quero falar.

A série trata de um grupo de pessoas que se levanta contra um regime opressor, o Império Galáctico.

O Império nasce durante o filme em que Anakin se torna Darth Vader (A Vingança dos Sith) não pela simples força bruta. Não são Sabres de Luz ou armas laser que fazem nascer o Império trevoso que atormentará a Galáxia por muitos anos. Ao contrário. É a inteligência.

Senador Palpatine trama a queda e o fim da República por anos a fio. Escolhe a dedo seus principais aliados, planta as sementes da discórdia entre povos, atrapalha rotas comerciais empobrecendo diversas sociedades, constrói um exército de clones sem cérebro nas sombras e os usa sem piedade como massa de manobra na guerra que se segue. Não satisfeito, ele mesmo paralisa o Congresso (com seus direitos adquiridos como Senador da República) usando a burocracia a seu favor.

Ao fim, o mesmo Palpatine instaura uma crise na Galáxia -- uma crise de origem política -- e faz as pessoas acreditarem que o problema principal é a corrupção e a burocracia da República. Palpatine argumenta que se a República não tivesse tanta burocracia e possuísse meios mais eficazes de lutar contra a corrupção, o crise que todos viviam seria resolvida com mais facilidade.

Com os povos sofrendo no meio da crise, o Congresso vota pela própria dissolução, dando a Palpatine os poderes políticos que ele diz precisar para tirar a Galáxia da crise em que se encontra. E como diz a Senadora Padmé, a República se dissolve debaixo de um estrondoso aplauso.

A meu ver, as semelhanças são enormes.

O Brasil segue paralisado em uma crise profunda. Os responsáveis por essa crise, nós vamos saber com certeza no futuro. Renan Calheiros? Lula? Globo? Dilma? Eduardo Cunha? Aécio? Odebrecht? Todos eles? Nenhum deles?

Há quem aposte neste ou naquele, mas a verdade é essa: apenas no futuro, quando tivermos mais fontes, saberemos ao certo os culpados. Por hoje sabemos que o brasileiro, assim como o povo em Star Wars, está farto de corrupção e burocracia.

Olhe a lista da Odebrecht... estão todos lá. De todos os partidos, com apelidos que nem meus alunos de quinta série seriam tão criativos para bolar. Quando você trabalha o mês inteiro, vê no contracheque R$ 1500,00 e lembra dos milhões pagos em caixa 2, propina, compra de voto, etc, é natural que o sangue ferva. O meu ferve ao menos.

E sobre a burocracia, não é preciso dizer muito também. Para abrir uma empresa no quintal de casa é um inferno gigantesco. Para fechar então, precisa ser um Hércules. Temos CPF, RG, título de eleitor, CNH. Quatro documentos, quando um único resolveria os problemas, exceção feita a CNH, que para tirar são precisos papéis de todos os tipos por módicos R$ 2000,00.

O brasileiro médio se vê preso num tsunami de documentos, imposto, taxas e seu salva vidas é um delegado de polícia mal remunerado, quando não com salário atrasado -- se morar no Rio Grande do Sul por exemplo -- que não tem o mínimo preparo para resolver os nossos problemas. Entregam pro policial um trezoitão canela seca com oito tiros no tambor e dizem: Vai lá, salva o país. Para o professor dão um giz e nos mandam salvar o futuro da pátria.

A solução mais fácil, que passa pela cabeça de muitos é explodir a porra toda, mandar tudo a merda, enforcar políticos em praça pública e começar de novo. Bom, sinto dizer, mas isso é o que os vilões fazem. E fazem de bom coração inclusive.

É interessante notar que durante a série, Darth Vader acredita do fundo do coração que está fazendo o que acha certo para a Galáxia. Ele tenta inclusive seduzir seu filho, Luke para o Lado Negro da Força com esse argumento: a República falhou e apenas através da força do Império, é possível acabar com os problemas da Galáxia.

Esse é o ponto: Vader acredita que a República não é mais capaz de solucionar os problemas das pessoas comuns. Ele perdeu a fé na política e, deixar de crer na política é o caminho mais fácil para o fim dela e de nós mesmos.

Me assusta ver que em diversas capitais do País, entre elas Porto Alegre e São Paulo, o número de votos brancos, nulos e abstenções foi maior do que o número de votos que o vencedor recebeu. São pessoas que, assim como Vader, pararam de acreditar na República, na própria democracia, e isso não é apenas triste, isso assusta.

Dizer que a culpa disso é de nossos políticos, é chover no molhado, portanto convido a fazer outra reflexão. Em Star Wars, é exatamente isso que Palpatine quer: que o povo da Galáxia pare de crer na República para que ele possa ampliar seus domínios e governar a tudo e todos.

E se -- um simples e se... -- for exatamente isto o que nossos políticos querem? Talvez não nossos políticos, mas donos de bancos, de canais de TV, ou sei lá quem, deseja. Que paremos de crer na República brasileira e na democracia para ao final, poderem lucrar de alguma forma com isso?

Porque há um ditado muito famoso que diz que, enquanto alguém chora a morte de alguém há uma outra pessoa vendendo lenço. Há quem lucre com a dor e a desgraça alheia, disso não duvidem nunca.

Minha reflexão é nesse sentido. Talvez haja quem se beneficie com a descrença do povo brasileiro no nosso sistema político. Em Star Wars, todos sabemos, é Palpatine.

Na vida real, é um pouco mais difícil, e por isso peço que reflitam e acreditem: a política é o que nos separa da guerra e da barbárie. O que nos separa de nós mesmos e de nosso lado animalesco.

É o que separa Anakin Skywalker de Darth Vader.

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