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A Venezuela pode virar um Estado completamente falido - uma Somália no Caribe

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FEDERICO PARRA VIA GETTY IMAGES AP G
FEDERICO PARRA VIA GETTY IMAGES / Associated Press
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No ano passado, Oliver Sanchez, de 8 anos, tornou-se símbolo do pesadelo que é a Venezuela hoje. Ele sofre de linfoma não-Hodgkin e corria sérios riscos porque os hospitais e bancos de remédios do país estavam desabastecidos. Inúmeros pacientes venezuelanos e seus familiares olhavam para Oliver com esperança. Ele protestou corajosamente nas ruas com um cartaz escrito à mão: "Quero curar-me Paz Saúde". A mídia e o público se uniram em torno do menino, postando fotos nas redes sociais e implorando que o governo fizesse algo.

Em 26 de maio, Oliver morreu. Ele teria contraído meningite e, por causa da falta de remédios, sucumbiu à infecção. A morte de Oliver iniciou uma onda de indignação entre os venezuelanos. Parlamentares da oposição exibiram fotos de Oliver para denunciar o que eles chamaram de uma morte evitável. Mas a população e a família de Oliver não ouviram nem uma palavra sequer do governo. O silêncio é ensurdecedor.

O menino estava implorando por remédios, mas Maduro mandou a polícia intervir. Ele faleceu

A Venezuela tem a mais alta taxa de inflação e o segundo maior índice de homicídios do mundo. A falta de bens básicos e remédios no país só é concebível durante guerras. Mas a Venezuela não está em guerra nem passou por um desastre natural.

O que levou a essa crise? É uma história complexa de excessos, megalomania e ódio. Moises Naim e Fracisco Toro escrevem de forma brilhante sobre a ruína do país durante os 17 anos de governo de Hugo Chávez e o sucessor escolhido por ele, Nicolas Maduro. As imagens contam a história: longas filas de cidadãos humilhados, com números escritos em seus braços por soldados, tentando comprar comida subsidiada. A escassez é tão grave que os produtos custam de 10 a 20 vezes mais caro no mercado negro. Sem ter como comprar comida, uma parcela cada vez maior da população revira o lixo e saqueia supermercados.

O consenso entre muitos venezuelanos hoje em dia é que algo grande vai acontecer, e não vai ser nada bom.

Neste belo canto do Caribe, a eletricidade é racionada, então os funcionários públicos trabalham só dois dias por semana; a água é extremamente poluída; as pessoas largam os poucos empregos existentes para procurar comida ou para trabalhar no mercado negro. Milhares de empresas fecharam. As escolas estão ficando desertas, porque os professores também têm de fazer compras, e as crianças costumam guardar lugar nas filas para suas famílias.

As dificuldades de produzir ou importar comida se mantêm inalteradas. A escassez só se agrava, e a inflação só aumenta. Se você tem hoje o dinheiro para comprar um quilo de frango, por exemplo - o que pode custar o equivalente a um salário mínimo --, os preços estarão significativamente mais altos amanhã.

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Venezuelanos fazem fila para comprar itens de primeira necessidade num supermercado do bairro de Lídice, em Caracas, 27 de maio. (RONALDO SCHEMIDT/AFP/Getty Images)

Mas Maduro não tomou medidas para tentar ajeitar a economia. Ele prefere ouvir seu conselheiro marxista da Espanha ao empresário que ocupa o Ministério da Economia. Maduro segue dizendo que a crise é uma conspiração e culpa a oposição por tudo, até mesmo pela criminalidade. Em resposta aos protestos, ele declarou estado de emergência, o que permite que a polícia e os militares prendam ou atirem em qualquer um.

A aparente estratégia do governo é resistir e esperar que o preço do petróleo volte a subir ou que a China ofereça um novo empréstimo. Para manter a ordem, Maduro parece confiar no Conselho Eleitoral, na Suprema Corte e nas armas daqueles que o apoiam: os militares, os paramilitares e a polícia, todos envolvidos em contrabando, tráfico de drogas e sequestros.

A violência descontrolada beneficiaria os mais fortes num país que se tornou um santuário para criminosos.

Uma aliança de oposição venceu as eleições parlamentares de dezembro passado, mas não consegue aprovar novas leis. A Suprema Corte, controlada por Maduro, declara inconstitucional tudo o que é feito pelo Congresso. Sem poderes de fato, a oposição procura maneiras de romper a hegemonia chavista sobre as instituições venezuelanas.

Parte da oposição, liderada pelo governador Henrique Capriles, exige um referendo sobre Maduro. Segundo a Constituição, se Maduro deixar o governo em 2016, novas eleições seriam convocadas, e Capriles poderia sair como candidato - pela terceira vez. Se o referendo acontecer em 2017 e Maduro for derrotado, seu vice assume e permanece na Presidência até 2019 - ou seja, os chavistas continuariam no poder. Um referendo no ano que vem é o cenário preferido pelos chavistas contrários a Maduro e pela parcela da oposição que não quer ver Capriles na Presidência.

As pesquisas dizem que um referendo é a esperança de milhões. A população precisa de mudanças, e com urgência. Mas Maduro segue comandando o Conselho Eleitoral, que ignora suas próprias regras e boicota a realização do referendo. Enquanto isso, a oposição pede ajuda dos países vizinhos.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luís Almagro, pediu uma reunião de emergência para avaliar uma possível expulsão da Venezuela, afirmando que "graves alterações na ordem democrática" foram cometidas pelo governo. Mas, graças a uma surpreendente ajuda do novo governo de direita da Argentina, a ideia não foi adiante.

O rompimento do que resta da coesão social pode ser iminente.

O regime de Maduro recentemente adicionou outra ideia terrível a suas táticas defensivas: proibiu que os supermercados vendam produtos subsidiados e criou comitês ao estilo soviético chamados CLAPs para entregá-los diretamente à população. Mas não para todos: os CLAPs entregam comida só para quem apoia Maduro, ou então a vendem no mercado negro.

O consenso entre muitos venezuelanos hoje em dia é que algo grande vai acontecer, e não vai ser nada bom.

As preocupações da população não são infundadas. Nenhum dos atores políticos tem controle sobre o desenrolar da crise - nem mesmo Maduro, que é detestado por uma parte dos chavistas que não conseguem contê-lo. Não há árbitros; as instituições públicas perderam a independência há anos, e o chavismo não respeita a Igreja Católica ou os intelectuais. Ninguém confia em ninguém. Os chavistas que cercam o presidente provavelmente temem uma onda de retaliações se perderem o poder.

Pobres enfrentam a polícia em protesto relâmpago que chegou ao coração de Caracas. Não tínhamos visto isso antes

Se o diálogo proposto pela OEA fracassar e o referendo for adiado, será que as tensões podem levar a Venezuela a uma guerra civil, a primeira desde os anos 1860? A oposição não tem a intenção nem os meios de formar um exército rebelde. E um golpe de estado? Isso é mais provável, mas ninguém tem certezas em relação a um exército cheio de privilégios e que pune severamente as dissensões. Os generais são extremamente fiéis ao movimento político que lhes devolveu influência política depois de 40 anos de governos civis.

O cenário mais provável também é o mais aterrorizante: saques generalizados. Será que a polícia vai atirar na população, como ocorreu na revolta de 1989, antes da ascensão de Chávez? Ou será que ela vai participar dos saques, numa tentativa de sobreviver? Dizem que algumas unidades não vão obedecer as ordens de Maduro de atirar para matar numa situação do tipo.

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Apenas duas embalagens de óleo de cozinha sobram na prateleira de um supermercado do governo em Caracas, 27 de janeiro. (Meridith Kohut/Bloomberg via Getty Images)

A violência descontrolada beneficiaria os mais fortes num país que se tornou um santuário para criminosos. Gangues poderosas atacam a polícia. Elas têm rifles de assalto e granadas, mandam nas cadeias e em cidades inteiras, abordam barcos no mar. Elas dominariam os saques e revenderiam o produto dos roubos. A Venezuela pode virar um Estado completamente falido - uma Somália no Caribe.

Fantasia? Não exatamente: já há uma epidemia de linchamentos, e pelo menos uma pessoa acusada de roubo foi queimada viva. O rompimento do que resta da coesão social pode ser iminente.

Todos sentem que algo importante pode acontecer a qualquer momento. Quem tem condições se prepara para o pior. As pessoas comuns tentam meramente sobreviver dia a dia. Alguns conseguem. Outros, não.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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