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'A minha existência é uma resistência'

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Nas duas últimas vezes em que eu compartilhei e denunciei casos de LGBTfobia em minha página do Facebook, algumas pessoas vieram justificar as ações ou condenar o meu posicionamento.

Na primeira situação, uma conhecida disse que este tipo de preconceito é "comum", que "quem não viveu cenas de discriminação?", e condenou a nomenclatura bullying, alegando ser um exagero de situações cotidianas. Afinal, ela mesma já foi alvo de piadinhas durante a adolescência, e agora vive muito bem como adulta. Encerrou a argumentação dizendo que o compartilhamento de casos preconceituosos só aumenta a audiência sobre a questão, e pode gerar mais ocorrências.

Já na segunda situação, em que divulguei um link sobre o horror na boate LGBT em Orlando, uma pessoa me contrariou explicando não ser um ato de LGBTfobia, "já que o Estado Islâmico assumiu a culpa", nas palavras dela.

Mesmo que a escolha da boate não tenha sido ao acaso. Mesmo que o pai do atirador responsável pela morte de 50 tenha confirmado o ódio que seu filho sentia aos gays. Mesmo que o espaço atacado foi de um público específico. As pessoas mortas foram pessoas específicas. Não, não tem essa discriminação aqui não.

Onde estão os exageros numa sociedade em que pessoas morrem apenas por serem quem são? Sejam elas gays, lésbicas, trans, negras, pobres. É exagero de quem repercute ou de quem mata? Quem agride? Quem condena? Ou quem nem quer ver?

Antes de ser homossexual, eu já fui depressivo. Uma pessoa com problemas de socialização. "Diferente", eles diziam. Todos estes, diagnósticos de familiares, que não aceitavam a minha fuga dos padrões. Já na rua, fui xingado e perseguido por falar. Por andar. Por rir. Por estar de mãos dadas com alguém. Por abraçar. Porque ser como eu sou incomoda.

"A minha existência é uma resistência". A primeira vez em que li esta afirmação foi num texto da ativista trans Daniela Andrade. E como discordar dela? Como dizer: "não, você está errada", enquanto a ditadura do agir esmaga cotidianamente cada um que não se enquadra nela?

Ontem eu acordei com a notícia de que cinquenta pessoas morreram porque viviam como eram. E tem mais gente desejando a morte dessas pessoas. Diagnosticando comportamentos. Tentando proibir adoções. Retirando direitos.

Exagero não é denunciar a violência que existe. É não ver que tem gente querendo viver como gente, e vivendo como alvo.

LEIA MAIS:

- Fe-menino (ou por que devemos discutir gênero)

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