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A anulação de Maranhão, o afastamento de Cunha e o PT

Publicado: Atualizado:
WALDIR MARANHO
Agência Brasil
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Ninguém esperava que, na última segunda-feira (9), o presidente interino da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, tomasse a decisão de tornar nulas as sessões da Câmara dos dias 15, 16 e 17 de abril, as últimas referentes ao impeachment naquela casa.

Nas redes sociais, os apoiadores do governo comemoraram, e os que são contra criticaram. E foram estas últimas as manifestações mais curiosas. Os favoráveis ao impeachment bradaram que a decisão de Maranhão seria um "golpe". O Movimento Brasil Livre chegou a convocar uma manifestação "contra o golpe de Waldir Maranhão".

Não deixa de ser engraçado. Afinal, é o governo e seus defensores que chamam o impeachment de "golpe".

Particularmente, prefiro chamar de "impeachment fabricado", porque não há crime de responsabilidade cometido pela presidente Dilma, como muito bem explica a defesa elaborada por José Eduardo Cardozo, advogado geral da união. E mesmo que se pudesse chamar as acusações feitas à presidente de "crimes", o impeachment é uma pena exagerada para os "delitos" apresentados.

Mas ninguém esperava, também, que no final da noite de segunda-feira, poucas horas depois de defender a anulação das sessões do impeachment em um rápido comunicado à imprensa, Maranhão fosse anular a própria decisão.

Supõe-se que a rápida mudança de opinião tem a ver com as ameaças de ser expulso do seu partido, o PP, e de ter seu mandato de deputado cassado. Ou seja: Maranhão conseguiu, em uma só tacada, deixar ainda mais instável o cenário político brasileiro e, provavelmente, decretar o fim de sua carreira política, caso as ameaças se confirmem.

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Para ter efeito, a decisão de Maranhão precisaria ser acatada pelo presidente do senado, o pmdbista Renan Calheiros, que teria de determinar a volta do processo de impeachment para a Câmara. Não foi o que aconteceu, e a decisão de Maranhão só serviu para deixar ainda mais instável o cenário político brasileiro."

Alguns disseram que a decisão do presidente da Câmara foi tomada após ouvir o governador do estado do Maranhão, Flávio Dino, que é aliado da presidente Dilma, e o já citado advogado geral da união. Outros afirmaram que Waldir Maranhão seguiu uma ordem de Eduardo Cunha, com quem se reuniu na sexta-feira à noite.

Ninguém, em nenhum momento, imaginou que Maranhão pudesse ter tomado essa decisão sozinho. Triste do país cujo presidente da câmara dos deputados é acusado de ser marionete tanto do governo quanto da oposição.

O Brasil precisa urgentemente dar mais voz a políticos independentes e íntegros. Do contrário, estaremos fadados a crises cada vez mais frequentes.

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Critiquei, semanas atrás, a condução coercitiva do ex-presidente Lula autorizada pelo juiz Sérgio Moro. Na última segunda, foi a vez do ex-ministro Guido Mantega passar pela mesma experiência, mas no âmbito da operação Zelotes, que não tem o comando do juiz Moro.

A condução coercitiva, não custa relembrar, é um expediente utilizado pela justiça quando o convocado a depor se recusa a comparecer. Não foi o caso do ex-ministro Mantega, que já havia prestado depoimento quando anteriormente convocado. Fosse novamente intimado, compareceria sem maiores problemas.

Nos últimos anos, o ex-ministro tem passado por uma série de constrangimentos. Já foi hostilizado em restaurantes e até mesmo em um hospital, onde estava acompanhando sua esposa, que se encontra enferma. Não bastasse tudo isso, a Polícia Federal ainda o faz passar por mais isso.

Instrumentos de exceção não podem ser banalizados pela justiça e nem pela política. O que está acontecendo no Brasil, com as excessivas conduções coercitivas, a divulgação ilegal de gravações e o impeachment sem fundamento em curso pode abrir uma série de precedentes danosos à nossa democracia.

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O Supremo Tribunal Federal demorou tanto para afastar de suas funções o agora mais-ou-menos-deputado e ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha que, quando o fez, nem teve graça.

A decisão pelo afastamento partiu do ministro Teori Zavascki. Levada ao plenário do STF, todos os outros dez ministros a referendaram. E aí ficou a pergunta: por que demoraram tanto?

O próprio Teori tentou justificar: o pedido, feito pelo procurador geral da república Rodrigo Janot, foi feito em dezembro, e logo em seguida veio o recesso judiciário e as "férias forenses", de modo que ele só pôde se dedicar a analisar a requisição de Janot a partir de fevereiro.

Se, por um lado, é verdade e perfeitamente compreensível que, para tomar medida dessa natureza, é necessário fazer uma análise cuidadosa de argumentações e documentos, por outro a presença de Eduardo Cunha na Câmara era uma ofensa não apenas àquela casa, mas também a todos os brasileiros.

Eduardo Cunha não é uma peça nova no xadrez político. Muito pelo contrário: raposa velha, Cunha vem escapando ileso da justiça há décadas. Sua jornada no mundo da política foi iniciada sob a tutela do ex-presidente Fernando Collor, em 1989. De lá para cá, envolveu-se em uma série de escândalos, e de todos eles escapou.

Nos últimos anos, a população brasileira vem assistindo estupefata a Eduardo Cunha reiteradas vezes dizer que não cometeu nenhuma das irregularidades das quais é acusado, ainda que provas robustas tenham sido coletadas pela justiça.

Enquanto foi útil para a parcela da população que foi às ruas pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o "Fora PT", Eduardo Cunha chegou a ser homenageado em protestos. "Somos milhões de Cunhas", dizia um cartaz em uma das manifestações. Em outra, havia uma faixa com os dizeres: "Eduardo Cunha é corrupto, mas está do nosso lado". Há, no Facebook, uma página chamada "Somos Todos Cunha", curtida por quase duas mil pessoas.

O que fazer diante de tal postura a não ser lamentar?

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Logo após ser divulgada a decisão de anular o impeachment, apoiadores do governo chegaram a falar em prestar apoio e solidariedade a Waldir Maranhão, que, além de ser aliado de Eduardo Cunha, é também é investigado na Lava Jato.

O Partido dos Trabalhadores errou miseravelmente a aliar-se, de maneira insidiosa, ao PMDB. Seus apoiadores, iludidos pela direção do partido e pelo condutor da aliança, o ex-presidente Lula, chegaram a gritar "Michel! Michel!" em um comício da presidente Dilma que contou com a presença do vice-presidente Michel Temer. O que se pede, agora, é o mínimo de bom senso e aprendizado.

Como diz o ditado, errar uma vez é normal, mas insistir no erro é burrice. O PT e sua militância, se tiverem pretensões de reerguer o partido e voltar ao poder, precisam repensar suas atitudes e suas maneiras de fazer política. Caso insistam nas mesmas práticas, esse partido que nasceu com tantas boas aspirações será relegado à irrelevância e ao ostracismo.

LEIA MAIS:

- Quando é que as ruas vão, realmente, pedir o fim do mandato de Eduardo Cunha?

- O verdadeiro Plano Temer

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