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Quando é que as ruas vão, realmente, pedir o fim do mandato de Eduardo Cunha?

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EDUARDO CUNHA
Adriano Machado / Reuters
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Nos últimos dias, a crise política que assola o Brasil continua se acentuando, mas a votação do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados, no dia 17 de abril, trouxe alguns agravantes.

Após o deputado Jair Bolsonaro dedicar seu voto a favor do impeachment ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra - "o pavor de Dilma Rousseff", disse ele - e de muita gente repudiar esse absurdo (Ustra foi um dos mais terríveis torturadores durante a ditadura militar), os fãs do deputado se animaram ainda mais, e passaram a defender mais abertamente os atos hediondos praticados pelos militares naquele período.

Além disso, após o fim da votação, alguns aliados do deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara, já falavam em inocentá-lo do processo contra ele em andamento no Conselho de Ética da casa. Seria uma forma de premiá-lo pela aceitação e aprovação, pela Câmara, da admissibilidade do processo de impeachment.

As manobras já estão sendo realizadas. Além de o vice-presidente da câmara, Waldir Maranhão, ter delimitado o poder de investigação do Conselho de Ética - Cunha só poderá ser investigado por ter mentido numa CPI, e não pelos outros crimes que cometeu -, houve uma troca de deputados na comissão do Conselho. Saiu Fausto Pinato, que votava contra Cunha, e entrou a deputada Tia Eron, que já se declarou admiradora de Cunha.

Há ainda outros desdobramentos trágicos, como as pressões que as chamadas bancadas da Bíblia, do Boi e da Bala, as mais retrógradas do congresso, estão fazendo sobre o vice-presidente Michel Temer, para que ele tome medidas que atendam a seus interesses, em detrimento do interesse de trabalhadores e minorias, como as comunidades indígenas e LGBTs.

Neste texto, no entanto, gostaria de focar no caso de Eduardo Cunha, muito embora os outros pontos sejam também gravíssimos - as exigências das bancadas BBB são absolutamente reprováveis e extremamente perniciosas para a sociedade, e o ato de Bolsonaro é crime previsto no código penal.

O presidente da Câmara dos Deputados foi citado por diversos delatores da Operação Lava Jato. Já foram encontradas diversas contas do deputado no exterior - contas não declaradas às autoridades brasileiras, o que é crime. Na última terça-feira, dia 26, em sessão do Conselho de Ética, um dos delatores afirmou ter levado, pessoalmente, 4 milhões de reais em espécie a um escritório de Eduardo Cunha. O dinheiro foi recebido por um funcionário de confiança do deputado.

Era propina, disse o delator. Propina destinada a Eduardo Cunha. Quatro milhões de reais.

É bom lembrar que há mais de quatro meses Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, pediu ao Supremo Tribunal Federal o afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara.

Segundo Janot, entre outros motivos para o afastamento, o deputado utiliza seu cargo privilegiado e sua influência sobre centenas de congressistas para atrasar o andamento do processo que o investiga no Conselho de Ética.

É um descalabro.

Milhões de pessoas foram às ruas pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Lideradas principalmente pelo MBL, o Movimento Brasil Livre, as multidões externaram suas indignações com a presidente e com o Partido dos Trabalhadores. Com bastante sucesso, é bom ressaltar.

O MBL, que tem como um dos líderes Kim Kataguiri, conseguiu grandes feitos em pouco tempo. Além de mobilizar milhões de pessoas em protestos contra a presidente Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores, Kataguiri e sua trupe conseguiram se aproximar de muitos políticos. Ao ponto de exercerem influência sobre parlamentares da oposição ao governo federal.

Entretanto, essa influência sobre parlamentares não pode ser vista apenas como mérito. Esse estranho amálgama entre o MBL e alguns políticos merece ser criticado, e o movimento precisa repensar suas alianças.

Para lutar contra a corrupção - apenas do PT, ao que tudo indica -, Kataguiri e o MBL se aproximaram de personagens corruptos ou suspeitos de corrupção. Em um episódio controverso no dia da votação do impeachment, talvez o maior exemplo dessa estranha aliança, líderes do movimento ganharam de congressistas, de forma ilegal, credenciais para ter acesso livre ao Congresso.

Convenhamos: aliar-se a corruptos e beneficiar-se através de ilegalidades não é a melhor forma de combater a corrupção.

Portanto, ficam dois questionamentos no ar, principalmente no momento em que Kim Kataguiri e o Movimento Brasil Livre comemoram a vitória sobre o governo - e já celebram o vice-presidente Michel Temer, que sequer assumiu a presidência ainda, como realizador de importantes melhorias para o Brasil, basta dar uma olhada nas últimas imagens compartilhadas na página do movimento no Facebook:

Quando o MBL começará os protestos contra a corrupção de outros partidos?

E quando o MBL começará os protestos contra o deputado Eduardo Cunha, um de seus aliados mais próximos, acusado de ter recebido propinas milionárias em contas secretas na Suíça?

(Ou será que foram às ruas justamente para salvá-lo?)

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