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O governo Temer já é pior que o governo Dilma

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER DILMA ROUSSEFF
Ueslei Marcelino / Reuters
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Se a presidente afastada Dilma Rousseff foi um desastre no gerenciamento da economia, na prática desta coisa nefasta que é o presidencialismo de coalizão e no tratamento com as minorias, o vice-presidente Michel Temer consegue ser ainda pior, mesmo estando no poder há apenas dois meses.

As ações que o "governo Temer" vem tomando não poderiam ser mais contraditórias. Diante da pressão das ruas, que protestou contra Dilma, o PT e a corrupção, Temer afirmou que iria montar um ministério de "notáveis", mas fez justamente o contrário: convidou, para liderar ministérios, diversos citados e/ou investigados em escândalos.

Além disso, nomeou aliados do deputado afastado Eduardo Cunha, talvez o político mais corrupto da história do Brasil, para diversos postos-chave no governo, inclusive colocando o deputado André Moura, acusado de tentativa de homicídio - entre outras coisas - na liderança do governo na Câmara dos Deputados.

Na área econômica, Temer decidiu aumentar os salários dos servidores do Judiciário. Em alguns casos, os aumentos chegam a mais de 40%. Uma medida descabida diante da grave crise econômica que o país enfrenta.

Ao falar sobre a reforma da previdência, Michel Temer, que se aposentou aos 55 anos, chegou a estipular uma nova idade mínima para a aposentadoria: 70 anos. Isso num país onde a expectativa de vida em alguns estados não chega a 70 anos de idade.

Na última sexta-feira (08), duas novas assombrações ganharam o noticiário. Primeiro, uma declaração de Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), em evento que contou com a presença de Temer, afirmando que "A França, que tem 36, passou para a possibilidade de até 80 horas de trabalho semanal e até 12 horas diárias de trabalho (...) temos de estar abertos para fazer essas mudanças".

(Nota: na França, a mudança foi para que a carga horária semanal possa ser de até 60 horas; o presidente da CNI colocou mais 20 por conta própria. A mudança nas leis trabalhistas no país de Baudelaire causou grandes e constantes protestos no país, gerando uma enorme instabilidade social e derrubando a já baixa popularidade do presidente francês, François Hollande.)

A outra assombração apareceu nesse mesmo evento, quando o vice-presidente Michel Temer declarou, para os empresários presentes, o seguinte: "Nas suas empresas e empresas outras que forem conectadas com os senhores, se puderem dar preferência muitas vezes àqueles que se formaram no exterior, porque, queremos ou não, talvez venham bem formados com informações tecnológicas que auferiram no exterior".

No momento em que pipocam notícias sobre o aumento do desemprego, recomendar que empresários deem preferência a pessoas que se formaram no exterior é de uma irresponsabilidade gigantesca. Principalmente porque quem se forma no exterior, no mais das vezes, são pessoas com melhores condições financeiras.

O "governo Temer" tem sido marcado cada vez mais por uma palavra: retrocesso. Seus aliados são o que há de mais retrógrado na política brasileira. Com Michel Temer, as bancadas da Bíblia e da Bala ganharam ainda mais vez e voz. A situação é tão esdrúxula que por pouco um general que enaltece o golpe de 1964 não foi nomeado presidente da FUNAI (Fundação Nacional do Índio).

Mas aparentemente o vice-presidente não se importa com essas e outras péssimas notícias, afinal, não bastasse tudo isso, ele tem atuado para evitar a cassação do mandato de Eduardo Cunha, de quem é amigo há décadas. E o mais inacreditável é que, mesmo com todas essas notícias, aqueles que bateram panelas e foram às ruas contra a corrupção simplesmente desapareceram.

É verdade que Dilma Rousseff e o PT cometeram erros imperdoáveis e contribuíram para o agravamento da crise política que estamos enfrentando. No entanto, a presidente afastada não cometeu crime que mereça ser punido com seu afastamento e provável cassação do mandato. E a melhor saída para o Brasil, neste momento, passa pelo retorno da presidente Dilma, ainda que seja para negociar com Temer a renúncia de ambos e a convocação de novas eleições.

Cassar o mandato de Dilma Rousseff e manter Michel Temer na presidência significa colocar, no caminho do nosso país, os piores tipos de retrocessos que podem existir. Neste momento, setores da sociedade olham com nostalgia para autoritarismos do passado, e veem no "governo Temer" uma chance de retomar o espaço que perderam após décadas de lutas e conquistas sociais e culturais progressistas.

Portanto, é compreensível que muitos críticos do governo Dilma gritem "Fora, Temer".

E parece que falta muito pouco para eles começarem a gritar "Volta, querida".

LEIA MAIS:

- Estariam Michel Temer e o PT sucumbindo a pecados capitais?

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