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Michel Temer, o golpista decorativo

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER
Ueslei Marcelino / Reuters
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Acabou. Quase nove meses depois da abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, aconteceu o que até mesmo os seus mais ferrenhos defensores já sabiam: a primeira mulher eleita presidente da República Federativa do Brasil teve seu mandato cassado.

Os observadores mais perspicazes perceberam que, uma vez aprovada a admissibilidade do impeachment pelos deputados, as chances de Dilma escapar do processo seriam mínimas. Aqueles que, mesmo após a votação acachapante na Câmara - 367 a favor e 137 contra -, tinham ainda alguma esperança, certamente as perderam quando o processo começou a ser julgado pelo Senado.

As sessões da Comissão Especial do impeachment foram meramente protocolares. Todos os senadores a favor do impeachment haviam sido muito bem treinados para desempenharem da maneira mais convincente possível o seu papel. Acusavam a presidente de mil e uma coisas - da corrupção na Petrobras, da corrupção do PT, do aumento do desemprego, do aumento dos juros, da alta do dólar, das quedas na bolsa de valores etc. - e distorciam qualquer tentativa que a defesa fazia de mostrar que as acusações que a ela eram imputadas não passavam de meros pretextos sem fundamento.

As acusações: três decretos de créditos suplementares e uma "pedalada fiscal".

Os créditos suplementares não ampliaram nenhum gasto do orçamento federal. O que aconteceu foi apenas uma permuta: em vez de gastar o valor "X" na finalidade "A", gastou-se o mesmo valor "X" na finalidade "B", tão ou mais importante que a finalidade "A".

O "crime" foi, segundo os senadores, não pedir ao congresso autorização para realizar essa medida. Mas esse argumento é frágil: para que um crédito suplementar seja autorizado, alguém precisa solicitá-lo - no caso, um órgão público -, e várias pessoas em vários órgãos precisam analisar esse pedido, verificar se aquela necessidade realmente existe e, entre outras coisas, analisar se é legal autorizar a solicitação sem precisar passar pelo congresso, o que é permitido por lei. Somente após todos esses passos a presidente assina o decreto, um calhamaço com centenas de páginas.

Difícil dizer qual a acusação mais descabida. No caso das "pedaladas", os acusadores transformaram um atraso de pagamento do Governo ao Banco do Brasil em operação de crédito, em empréstimo - porque o governo é proibido por lei de tomar empréstimo a bancos públicos.

Um exemplo bem prático dessa gambiarra acusatória é o seguinte: suponha que a fatura do seu cartão de crédito no mês de setembro é de mil reais. Ela vence no dia 05, mas, por algum motivo, você não tem como efetuar o pagamento. Enquanto você tenta conseguir o dinheiro para pagar, os dias passam, e, no fim do mês, a operadora do cartão envia, para sua casa, um contrato de empréstimo no valor de mil reais mais os juros. Ela entende que você, ao atrasar o pagamento do cartão, tomou mil reais emprestado da operadora.

Surreal. Mas foi essa interpretação que a acusação deu ao atraso do governo.

Nesse "impeachment tabajara", como diz o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, ou "impeachment paraguaio", como diz o jornalista Cid Benjamin, ou "golpe", como dizem os petistas e aqueles que consideram o processo um atentado à soberania do voto popular, muitos foram os que atuaram firmemente para levá-lo adiante.

Muitos deputados, muitos senadores, muitos líderes de "movimentos colunas-sociais" e no mínimo um ministro do STF. Além, claro, do vice-presidente Michel Temer.

Sempre discreto, nos últimos tempos Temer desandou a dar as caras na mídia. Primeiro, escreveu uma carta para a presidente reclamando de que era apenas um vice-presidente decorativo. Depois, divulgou um áudio com o discurso que faria caso a presidente fosse afastada pelo senado. Não demorou muito, convocou a imprensa para cobri-lo fazendo o papel de pai que vai pegar o filho na escola.

Temer parecia - e parece - estar assaz insatisfeito com a pecha de decorativo. Queria, e quer, ser protagonista.

Quase conseguiu, durante o processo de impeachment. No papel de presidente interino, fez uma reforma ministerial (pessimamente feita), prometeu cortar gastos (e mentiu, pois os ampliou), concedeu um aumento para os beneficiários do programa Bolsa Família (na verdade, apenas aumentou um pouco o reajuste que Dilma havia anunciado apenas alguns dias antes), deu tapa na mesa e disse que sabe lidar com bandidos (provavelmente os que o cercam).

Mas Temer ficou no quase. No fim das contas, nem do golpeachment ele conseguiu ser protagonista. Findo o processo, o vice-presidente afirmou que não tolerará ser chamado de "golpista" e que "não vamos levar ofensas para casa".

Em seu íntimo, Michel Temer sabe que é um golpista. Pior: tendo à sua frente Eduardo Cunha e Romero Jucá - que foi gravado tramando o golpe e, pasmem, não foi cassado por quebra de decoro -, ele sabe, mais que ninguém, que não passa de um golpista decorativo. E é assim que ele entrará para a História.

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