Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Rafael Rodrigues Headshot

Fica cada vez mais difícil apoiar o governo interino de Michel Temer

Publicado: Atualizado:
BRAZIL POLITICS
Ueslei Marcelino / Reuters
Imprimir

Alguns leitores, ao criticarem meu texto anterior ("O governo Temer já é pior do que o governo Dilma"), argumentaram que é impossível alguém estar há apenas dois meses na presidência da república e ser pior do que quem estava há cinco anos, e afirmaram que eu deveria dar um tempo ao "governo Temer" antes de criticá-lo, afinal, ele não teria como resolver os problemas do País em tão pouco tempo.

Bem, ao contrário de muitos que me ofenderam no Facebook do HuffPost Brasil - alguns afirmando que sou pago pelo PT para escrever textos como aquele, para citar a ofensa mais amena -, respeito opiniões contrárias às minhas. Ainda que discorde integralmente de alguém, jamais serei desrespeitoso com meu interlocutor ou com o autor de algum texto que me desagrade.

Como não vale a pena dar atenção aos que gratuitamente nos ofendem, achei que valeria a pena tentar conversar com aqueles que viram, no meu texto, críticas precipitadas ao vice-presidente e sua administração interina.

Além dos argumentos que utilizei - nomeação de ministros envolvidos em escândalos de corrupção e aliados de Eduardo Cunha para postos-chave no governo, concessão de aumento exorbitante ao judiciário, sinalização de mudança na idade mínima para aposentadoria, atuação nos bastidores para tentar salvar Eduardo Cunha da cassação etc. -, o "governo Temer" tem planos e atitudes ainda piores.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, recentemente prometeu a empresários que a flexibilização das leis trabalhistas seria aprovada ainda este ano pelo Congresso. E não é necessário ser um expert em legislação trabalhista para saber que uma flexibilização da CLT apoiada pelo empresariado certamente é ruim para os trabalhadores.

Na pasta das Relações Exteriores, o ministro José Serra conseguiu a proeza de ofender uma organização internacional, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Além disso, sinalizou uma mudança de voto do Brasil sobre a defesa do patrimônio histórico nos territórios ocupados da Palestina (em sessão do Conselho Executivo da Unesco, realizada em abril, o Brasil apoiou os palestinos; após a chegada de José Serra, o ministério afirmou que pode rever essa posição).

Mas a atitude mais grotesca de todas, diante do cenário internacional, do "governo Temer" foi a de suspender as negociações para adotar uma política importantíssima apoiada pelo governo Dilma, que era a de abrir as portas - na medida do possível, óbvio - para os refugiados sírios. O projeto envolvia receber recursos internacionais para dar a abrigo a cerca de 100 mil refugiados, uma atitude humanitária e diplomática de extremo valor. Mas o "governo Temer" decidiu simplesmente ignorar o assunto.

Para não deixar este texto muito longo, citarei só mais uma maldade do "governo Temer": a decisão de fazer uma revisão nos benefícios concedidos por incapacidade, ou seja, auxílios-doença e aposentadorias por invalidez.

O governo vai fazer com que pessoas que já passaram por vários constrangimentos para conseguir tais benefícios - a desconfiança de colegas e patrões, o péssimo serviço prestado anos atrás pelo INSS (que melhorou muito nos governos petistas, segundo os próprios funcionários da instituição) e as perícias humilhantes, em alguns casos - passem novamente por uma perícia - que será no mínimo suspeita, tendo em vista que o governo pretende suspender parte desses benefícios.

Após protestos massivos para a saída de um governo corrupto e perdulário, era obrigação de Michel Temer seguir altos padrões éticos e austeros. Mas o que está acontecendo é justamente o contrário. Temer e companhia estão sendo tão corruptos e perdulários quanto o governo Dilma. Com o agravante de que sua administração sinaliza mudanças assustadoras para a classe trabalhadora e para os aposentados - ou para quem está em vias de se aposentar.

Por mais que o governo derrubado tenha sido péssimo, Dilma Rousseff não propôs nenhuma das medidas que o governo Temer pretende adotar nas áreas trabalhista e previdenciária. E, se as propusesse, a pressão da esquerda seria enorme e elas não avançariam. Agora, com Michel Temer e a ala mais retrógrada da política no poder, e com a esquerda fragilizada, corre-se o risco de trabalhadores e aposentados passarem a sofrer ainda mais do que já sofrem diariamente. E não se pode, em sã consciência, ser a favor disso.

Para os que continuarem me achando precipitado, mesmo após listar tantos argumentos, finalizo trazendo uma pequena lembrança histórica: no dia 31 de março de 1964, entrou em marcha (literalmente) o golpe militar contra o então presidente João Goulart.

Dois dias depois, o jornal Correio da Manhã publicava a primeira das dezenas de crônicas do escritor Carlos Heitor Cony contra o golpe - que parte dos militares e parte da sociedade até hoje chamam de "revolução".

Durante meses, quase diariamente, Cony denunciou o absurdo e a ilegalidade daquele movimento que seria, a princípio, temporário e para restabelecer a ordem democrática do País, mas que em pouco tempo mergulhou o Brasil em trevas.

Como consequência disso, Cony foi preso diversas vezes, e suas filhas foram insultadas e ameaçadas por telefone. Esses acontecimentos lamentáveis também foram relatados pelo autor em suas crônicas, parte delas reunidas em uma obra que considero fundamental para a nossa literatura e para a nossa história, o livro O ato e o fato.

Se o momento pelo qual estamos passando não é um golpe militar, mas um impeachment fabricado ou um golpe parlamentar - uma conspiração, se o leitor preferir -, e eu infelizmente não chego nem no chulé do Cony, paciência, mas não vou me furtar de criticar um governo que chegou ao poder através de manobras escusas. Além disso, não se dá refresco a golpistas.

LEIA MAIS:

- O governo Temer já é pior que o governo Dilma

- O que mostra o 'quase choro' de Eduardo Cunha

Também no HuffPost Brasil:

Close
Os poemas de Michel Temer
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual