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O que mostra o 'quase choro' de Eduardo Cunha

Publicado: Atualizado:
EDUARDO CUNHA
EVARISTO SA via Getty Images
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Conheço muito pouco a Bíblia - tive algumas aulas de catequese quando criança, mas me afastei da prática religiosa e do livro sagrado quando adulto -, mas lembro de passagens clássicas, como aquela em que Jesus Cristo avisa a Pedro que este o negará três vezes e, mesmo Pedro dizendo que jamais faria isso, acaba fazendo. Após a terceira negativa, o apóstolo chora copiosamente.

Longe de fazer qualquer tipo de comparação, lembrei disso ao ver, espantado, Eduardo Cunha com a voz embargada, enquanto lia um trecho da sua carta de renúncia à Presidência da Câmara dos Deputados. Repito e reforço, com outras palavras: não há possibilidade de comparar os dois acontecimentos. Afinal, a presidência da câmara não é Jesus e tampouco Cunha é Pedro.

Mas assim como Pedro, mesmo alertado, negou Jesus três vezes, Cunha negou dezenas de vezes que renunciaria à presidência da câmara, muito embora tenha sido alertado outras dezenas de vezes que, se renunciasse, poderia conseguir se livrar da cassação do mandato recomendada pelo Conselho de Ética da Câmara.

(Pensando bem, até que uma leve alusão não seria completamente descabida - ainda que um tanto herética. Afinal, se for inteligente - e, mais que isso, esperto, ardiloso -, o presidente da câmara, seja ele quem for, pode chegar a ter poderes quase plenos. Se relaxarmos o conceito de milagre - além de invertê-lo de uma coisa boa para uma coisa ruim -, podemos dizer que o presidente da câmara pode até fazer alguns.)

A voz de Cunha embargou no momento em que agradeceu o apoio de sua família à difícil situação que enfrenta. E, de fato, há alguns meses não é mesmo fácil ser Eduardo Cunha.

O antes deputado todo-poderoso vem enfraquecendo aos poucos. Primeiro, vieram as citações ao seu nome em delações premiadas, junto com denúncias de que ele possuía contas secretas no exterior; depois, pedidos de investigação a seu respeito; em seguida, o STF o torna réu; e, finalmente, o STF suspende Cunha de seu mandato, o que automaticamente o afasta da presidência da câmara. Agora, finalmente, veio a renúncia.

Abrir mão da presidência da câmara é a última cartada de Eduardo Cunha e seus apoiadores. O objetivo é impedir que o deputado afastado seja cassado. Mestre em fazer manobras regimentais - quando alguns resultados de votações na Câmara o desagradavam, era comum refazê-las de modo que saísse vitorioso -, Eduardo Cunha sabe muito bem como atrasar a votação da cassação de seu mandato - que estava prevista para acontecer em agosto, no máximo -, e quem sabe assim abrir espaço para evitá-la.

Tudo isso acontece com a aprovação mais que discreta - quase invisível - do vice-presidente Michel Temer, que mantém uma amizade de décadas com Eduardo Cunha. Uma amizade tão profunda que levou o senador Romero Jucá a dizer, em conversa com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, que "Michel é Cunha".

Mas se a renúncia faz mesmo parte de um acordo para salvar Eduardo Cunha da cassação e, dessa forma, evitar com que seus processos cheguem às mãos do parcialmente implacável Sérgio Moro, por que Cunha, cuja frieza sempre impressionou a todos - chegando ao ponto de o deputado Jarbas Vasconcelos, seu correligionário, chamá-lo de "psicopata" - chorou?

Teria Cunha tanto apego assim ao cargo de presidente da câmara? Não deve ser esse o caso, afinal, um dos objetivos de sua renúncia é facilitar a eleição de um presidente que seja seu aliado. No final das contas, ele continuaria dando as cartas.

Estaria ele verdadeiramente arrependido de tudo o que fez, ou de, pelo menos, estar fazendo a sua família passar por constrangimentos? Não é o que parece, pois circulam por aí notícias de que a família Cunha continua tendo a boa vida que sempre teve.

Ou será que finalmente Eduardo Cunha chegou à conclusão de que, como gritou alguém durante a leitura da sua carta de renúncia, "acabou, amigão" (há quem tenha ouvido "ladrão")?

A verdade é que, sobre o quase-choro de Cunha, jamais saberemos. O que sabemos é que o "gritão" é um cidadão bastante otimista. Porque ainda não acabou para o "amigão".

Só acabará no dia em que Eduardo Cunha for cassado. E, se for o caso, preso.

LEIA MAIS:

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