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O que estamos esperando para voltar às ruas?

Publicado: Atualizado:
PROTESTS IMPEACHMENT BRAZIL
Ueslei Marcelino / Reuters
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Em junho de 2013, milhões de brasileiros de todo o País foram às ruas protestar. Tudo começou com o aumento das passagens de ônibus e metrô em várias cidades do Brasil, mas as manifestações ganharam corpo e as reivindicações se multiplicaram.

Além do aumento no preço das passagens, protestou-se, principalmente, contra a péssima qualidade dos serviços públicos e contra a corrupção. Naqueles protestos, o País inteiro estava unido. Não havia, nas ruas, a divisão odienta que vemos hoje.

Essa divisão, que, de todo modo, já era latente, ficou mais evidente a partir de 2014, com as revelações da operação Lava Jato e a eleição presidencial, quando a campanha de Dilma Rousseff "fez o diabo" para desmoralizar seus principais adversários: Marina Silva, no primeiro turno, e Aécio Neves, no segundo.

Ao fim de 2014, durante todo o 2015 e no início de 2016, milhões de pessoas voltaram às ruas. O motivo: exigir o impeachment da presidente Dilma e a saída do PT do governo federal. Mas, desta vez, o Brasil não estava unido.

Muitos daqueles que foram às ruas em junho de 2013 preferiram ficar em casa. Apesar de estarem descontentes com a administração petista e indignados com a corrupção, entendiam que a saída de Dilma não seria a melhor solução. Além disso, suspeitavam que o afastamento da presidente abriria caminho para tentar acabar com a operação Lava Jato, ou ao menos diminuir seu alcance.

As conversas entre o senador Romero Jucá e o ex-senador Sérgio Machado, ambos do PMDB, recentemente reveladas pela Folha de São Paulo, são a maior prova disso.

Num trecho do diálogo, Machado fala que "a solução mais fácil" para frear a Lava Jato "É um acordo, botar o Michel [na presidência da república], num grande acordo nacional". Jucá responde que esse acordo seria "Com o Supremo [Tribunal Federal], com tudo".

Não há o que interpretar, não há mal-entendido. O impeachment da presidente Dilma foi levado adiante para tentar impedir que a Lava Jato alcançasse um número ainda maior de políticos. O impeachment da presidente Dilma foi uma clara tentativa de obstrução da justiça, e pelo menos Romero Jucá, deveria, nesse momento, estar preso. Foi assim com o ex-senador Delcídio do Amaral.

Estranhamente, não estamos vendo milhões de brasileiros nas ruas exigindo que Jucá seja preso e cassado.

Na última quarta-feira (25), uma nova gravação feita por Sérgio Machado foi divulgada pela Folha de São Paulo. Desta vez, o interlocutor de Machado é o senador Renan Calheiros. Nela, o presidente do senado diz a Machado que, no STF, "todos estão putos" com a presidente Dilma.

Renan, inclusive, conta a Machado que a presidente Dilma tentou conversar com o presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, sobre uma forma de, ao que tudo indica, amenizar a crise política. Segundo Renan, Dilma disse o seguinte:

"Renan, eu recebi aqui o Lewandowski, querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável".

É mais que inacreditável. Isso é inadmissível.

Talvez estejamos entorpecidos diante de tantos fatos assustadoramente impressionantes. Talvez não estejamos vislumbrando uma saída melhor do que a que nos foi apresentada. Talvez estejamos cansados de tanto protestar e nada conseguir mudar.

Mas precisamos voltar às ruas. Precisamos nos unir novamente.

Precisamos esquecer as diferenças políticas e dialogar. Não podemos mais permitir que políticos corruptos continuem colocando o nosso país em segundo plano. Não podemos mais permitir que os menos favorecidos continuem passando por necessidades que não deveriam passar.

Precisamos voltar às ruas e lutar, juntos, por uma reforma política decente. Lutar, juntos, por uma reforma tributária em que o "1% mais rico" pague mais impostos, e os outros 99% paguem menos. Lutar, juntos, para que os milhões de brasileiros que dependem de suas aposentadorias não tenham seus salários atrasados, e para evitar que uma reforma previdenciária injusta e mal planejada seja feita.

Para conseguirmos tudo isso, precisamos deixar as agressões verbais e os preconceitos ideológicos de lado, e voltar a conversar civilizadamente.

O que estamos esperando?

* * *

É bom lembrar

Em sua conversa com Sérgio Machado, Renan Calheiros afirma que "não pode fazer delação premiada preso", sinalizando que é necessário fazer uma mudança na lei que regulamenta as delações.

É bom lembrar que faltou pouco para o vice-presidente Michel Temer nomear, como ministro da Justiça de seu governo interino, o advogado Antônio Claudio Mariz de Oliveira, crítico ferrenho de como a Lava Jato vem sendo conduzida.

A nomeação foi abortada porque, em uma entrevista à Folha de São Paulo, Mariz falou mais do que devia.

* * *

É bom saber

A conversa entre Machado e Renan deixou uma dúvida no ar: por que, no STF, "todos estão putos" com a presidente Dilma?

Será porque, em julho de 2015, a presidente vetou o projeto de lei que visava aumentar os salários dos servidores do judiciário em até 78,6%?

O curioso é que, em abril de 2016, poucos dias depois de a admissibilidade do processo de impeachment ser aprovada pelos deputados, a Câmara, então presidida por Eduardo Cunha, decidiu acelerar a votação de um projeto alternativo para o reajuste do judiciário. Nele, o aumento salarial pode chegar a 41,47%.

LEIA MAIS:

- Os dois lados do impeachment

- Pobreza de espírito

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