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Os dois lados do impeachment

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER
Divulgação/CâmaraDosDeputados
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O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff tem dois lados.

Um deles é legítimo, o outro, não.

Do lado da legitimidade do processo está a grande maioria dos milhões de brasileiros que foram às ruas pedir a saída da presidente. Os motivos são os que já conhecemos: a crise econômica, a crise política e a corrupção que se alastrou no governo - envolvendo não apenas o Partido dos Trabalhadores, mas diversas outras legendas.

Levando-se em conta apenas esse lado da história, podemos chamar de impeachment o processo que levou ao afastamento da presidente. Até porque ele seguiu todos os trâmites legais e jurídicos, sob supervisão do Supremo Tribunal Federal.

O outro lado, apesar de ilegítimo, é amplamente conhecido. Afinal, não é segredo algum que havia uma ala do PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer, trabalhando nos bastidores para enfraquecer a presidente.

No final de 2014, por exemplo, foi possível notar a má vontade com que Henrique Eduardo Alves presidiu a Câmara dos Deputados, impondo dificuldades ao governo. E essa situação se agravou em fevereiro de 2015, quando Eduardo Cunha assumiu a presidência da câmara.

É fácil encontrar, na internet, fotos de Cunha e Dilma juntos, sorrindo. Há quem diga que eles foram aliados durante algum tempo, mas na última quinta-feira (19), durante seu depoimento no Conselho de Ética da Câmara, Cunha afirmou que sempre fora oposição ao governo. As fotos e o suposto apoio não passavam, portanto, de jogo de cena.

Mas a prova cabal da ilegitimidade só veio à luz na última segunda-feira (23), quando a Folha de São Paulo divulgou trechos de conversas entre o senador Romero Jucá e Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

Nos diálogos, gravados em março deste ano, ao que tudo indica pelo próprio Machado, Jucá e seu interlocutor falam sobre a Operação Lava Jato, na qual ambos são investigados, e o estrago que ela pode causar no PMDB e também no PSDB, partido do qual foram filiados. O conteúdo das conversas é estarrecedor.

Machado fala que "a solução mais fácil" para frear a Lava Jato "É um acordo, botar o Michel [na presidência da república], num grande acordo nacional". Jucá responde que esse "acordo" seria "Com o Supremo, com tudo".

Em determinado trecho, Jucá diz ter conversado com alguns ministros do Superior Tribunal Federal sobre a Lava Jato, e que esses ministros tinham afirmado que "só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]". Cada um que tire suas próprias conclusões sobre o trecho inaudível.

Além disso, o ex-ministro de Temer comenta que está "conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar".

Diante de tudo isso, esse lado ilegítimo do processo pode ser chamado, sim, de golpe. As conversas entre Jucá e Machado deixam evidente, inclusive, que existe uma grande semelhança entre o que estamos vivendo agora e o que aconteceu em 1964, com a diferença de que, agora, o protagonismo é da classe política, amedrontada com o avanço das investigações da Lava Jato, e não dos militares.

Mas é bom lembrar que a grande maioria daqueles que foram às ruas não é e nunca foi golpista. Essa maioria - porque houve, infelizmente, uma minoria pedindo a volta da ditadura e uma outra que sempre esteve aliada a políticos corruptos - foi às ruas de boa fé, indignados com toda a razão com a crise política e econômica.

É provável que eles, agora, sintam-se traídos por Romero Jucá, Michel Temer, Eduardo Cunha e companhia. Em 1964 também houve traições.

A aposentadoria de Michel Temer

No último domigo (22), Elio Gaspari, em sua coluna na Folha de São Paulo, disse o seguinte: "Michel Temer, procurador do Estado de São Paulo, requereu sua aposentadoria em 1996, aos 55 anos. Desde então, passou a receber R$ 9.300 mensais".

Contabilizando a aposentadoria do vice-presidente de 1997 até o fim deste, chegamos à soma de R$ 2.232.000,00 (dois milhões e duzentos e trinta e dois mil reais).

É esse tipo de monstruosidade que deveria ser revista na reforma da previdência. A aposentadoria de Temer pagaria, por vinte anos, três aposentadorias no valor de R$ 3.100,00 cada uma.

Certamente existem centenas, talvez milhares de casos como o de Temer. E isso não deveria ser possível. A economia com a extinção desse tipo de mordomia pode não dar bilhão, mas seria muito bem-vinda.

Detalhe: o salário que Michel Temer recebe atualmente como vice-presidente da república é de R$ 30.934,70.

O esquema de Aécio

Em outro trecho da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado, são citados quatro senadores tucanos: Aloysio Nunes, Tasso Jereissati, José Serra (atual ministro das Relações Exteriores) e Aécio Neves. Segundo Jucá, está "Todo mundo na bandeja para ser comido". Machado responde que "O primeiro a ser comido vai ser o Aécio".

Mais adiante, Machado diz que "O Aécio não tem condição, a gente sabe disso", ao se referir, aparentemente, às chances de Aécio ganhar uma eleição presidencial. E emenda "Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio?".

Nós não sabemos. E gostaríamos muito de saber.

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