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Estariam Michel Temer e o PT sucumbindo a pecados capitais?

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MICHEL TEMER
EVARISTO SA via Getty Images
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Gostaria de escrever uma notícia cuja manchete fosse a seguinte: "Presidente interino vai a aniversário de senador suplente que tem como convidado governador condenado".

Ela relataria um fato que ocorreu no último domingo (26): Michel Temer foi ao aniversário do senador Wilder Morais (PP). Entre os convidados, estava o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

Dessa notícia, eu destacaria os seguintes pontos:

1. Perillo foi recentemente condenado em primeira instância por improbidade administrativa;

2. Wilder é mais um caso de suplente que assumiu a vaga do titular, que era Demóstenes Torres, cassado em 2012 em meio ao escândalo que envolvia, entre outros, o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

3. Wilder fez uma doação vultuosa para a campanha de Demóstenes Torres. Através de suas empresas, a Orca Construtora LTDA e a Orca Construtora e Concretos LTDA, Wilder doou impressionantes 700 mil reais à campanha do senador cassado.

Além disso, tomaria a liberdade de contar uma fofoca aos meus leitores: Wilder é ex-marido da atual esposa de Carlinhos Cachoeira.

Mas, como não sou repórter, ficarei sem a manchete. E passo, neste momento, a compartilhar com você, caro leitor, uma de minhas preocupações.

É uma preocupação menor, diante da realidade que me - e nos - cerca, pois tem a ver com Michel Temer, que é e será sempre um personagem menor de nossa História, mas ainda assim é uma preocupação.

Sempre tido como um político discreto, notei que Temer tem revelado, recentemente, uma certa obsessão em ser aceito. Vejamos.

Em dezembro de 2015, ele escreveu uma carta à presidente Dilma Rousseff na qual reclamava de ser um vice-presidente decorativo. Teria sido sua última tentativa de conseguir a aceitação da presidente Dilma?

Meses depois, em abril de 2016, dias antes da votação da admissibilidade do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, Temer divulgou um áudio no qual discursou como se presidente interino fosse, dando a impressão de que buscava a simpatia dos congressistas.

Mais recentemente, no dia 21 de junho, em entrevista ao programa de Roberto D'Avila, veiculado pelo canal GloboNews, Temer declarou o seguinte: "Muitos votaram [na presidente Dilma] porque eu era candidato a vice", aparentemente tentando ganhar a legitimidade que não tem diante do eleitorado.

A frase, reproduzida pelo perfil do vice-presidente no Twitter, logo virou piada nas redes sociais. Eu mesmo cheguei a lembrar do caso, amplamente divulgado na época, de que nem mesmo José Sarney, eterno - e diria mais: imortal - cacique pmdbista, votou em Temer na eleição de 2014.

Estaria o vice-presidente sucumbindo à vaidade, um dos mais danosos pecados capitais?

Político menor, eleito apenas como deputado federal, Michel Temer chegou à vice-presidência da república por acaso. O ex-presidente Lula queria o apoio do PMDB no congresso.

Para tanto, o partido de Sarney, Temer e companhia exigiu que o vice da chapa de Dilma em 2010 fosse um pmdbista. Por ser o presidente da sigla e por ser um político habilidoso, Michel Temer foi o escolhido.

A maior prova de que o PT estava tomando uma péssima decisão está no noticiário político de 2006. Naquele ano, Temer declarou apoio à candidatura do tucano Geraldo Alckmin à presidência da república.

Se errar é humano e incorrer no mesmo erro é burrice, o PT foi burro ao manter Temer como vice de Dilma em 2014, pois o mesmo noticiário político mostrava, já em 2013, que havia no PMDB um número cada vez maior de políticos contra a união do partido com o PT.

Mas é óbvio que os erros do PT não são apenas esses. Antes defensor ferrenho da moralidade, o PT sucumbiu a outro pecado capital: a avareza. Talvez seja este o pecado original do PT. E a única maneira que o partido tem de almejar algum tipo de redenção é parar de contemporizar e se fazer de vítima, assumir os erros que cometeu e cortar o mal pela raiz, expulsando do partido aqueles que cometeram crimes e afastando da liderança da sigla aqueles que foram cúmplices.

Ou o PT toma uma atitude radical e volta às suas origens, ou se tornará um partideco de centro-esquerda (atualmente, é um grande partido de centro-esquerda). Somente assim ele poderá honrar os seus fundadores e os milhões de militantes e/ou simpatizantes que apoiaram os seus ideais de honestidade, justiça econômica e redução da desigualdade social.

Do contrário, o PT, como foi pensado em sua origem, estará acabado.

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