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Pobreza de espírito

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Estão circulando, nas redes sociais, fotos de alguns políticos em um restaurante de Portugal. São eles: Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann, ambos petistas; Vanessa Grazziotin (PCdoB); Lídice da Mata (PSB); e Roberto Requião (PMDB).

Na postagem em que vi as fotos, há centenas de comentários. Ler comentários na internet, principalmente se a publicação tiver a ver com política, é prejudicial à saúde dos nervos. Mesmo sabendo disso, me arrisquei a dar uma rápida olhada no que comentavam aquelas centenas de pessoas.

E então li um rapaz dizer que os fotografados são "um bando de bostas"; um senhor comentar "esquerda caviar, gastando o dinheiro dos outros"; e uma moça bradar "cadeia neles, porque vão trazer presentes sem pagar impostos".

Não obstante esses e outros absurdos (cadeia porque vão trazer presentes sem pagar impostos?; seria ela uma cartomante?), nenhum deles parecia saber o que os políticos mencionados foram lá fazer.

Teriam viajado a trabalho? Tiraram uns dias para descansar? Ganharam as viagens numa promoção? (Esse gracejo não soa tão absurdo se lembrarmos que o deputado Fernando Giacobo, do PR, ganhou na loteria 12 vezes em 14 dias. Haja sorte!)

Eu também não sabia o que os parlamentares foram fazer em Portugal, mas uma rápida pesquisa no Google me deu a informação: participar de um evento político, a EuroLat (Assembleia Parlamentar Euro-Latino-América). E, como não poderia deixar de ser, tentar influenciar a opinião da comunidade internacional sobre o, segundo eles, golpe parlamentar sofrido pela presidente Dilma Rousseff.

Nenhum dos comentadores tampouco parecia saber que políticos aliados do vice-presidente também foram ao evento, para dar à mesma comunidade internacional a sua versão dos fatos.

Pois bem. Quando se viaja, come-se e bebe-se, assim como fazemos em nossa terra. Até onde se sabe, e me corrijam se eu estiver errado, ninguém é obrigado a jejuar quando está em terra estrangeira - nem mesmo os políticos petistas - ou de esquerda. Nem é obrigado, também, a comer pão e água. (Caso haja alguma nova orientação a respeito disso, é coisa do vice-presidente Michel Temer.)

É óbvio que, se houver alguma suspeita de irregularidade nos gastos dos parlamentares - e não apenas nos dos agora opositores, mas também nas despesas dos agora governistas -, que seja averiguada. O fato é que, ao menos por enquanto, não há nada. Apenas a revolta da turba antipetista.

Portanto, falar bobagens como as destacadas no início deste texto - alguns comentaristas "xingaram" os políticos de "comunistas"(?) - só reforça a tese da esquerda de que uma parte da elite econômica está incomodada com a ascensão social não apenas dos pobres ou da classe média baixa, mas também das figuras da esquerda.

Essa turba revoltada e elitista provavelmente acha que somente os eleitos, os de sangue azul, os de berço de ouro podem frequentar certos lugares, viajar pelo mundo e ter um apartamento em Paris.

Ironia das ironias, quem pensa dessa maneira é pobre, muito pobre de espírito. (Além de, com todo o respeito, burro. Afinal, quanto mais pessoas em melhores condições financeiras, mais dinheiro circulará pelo mundo, e melhor a economia vai caminhar, o que beneficia, justamente, os mais ricos.)

Particularmente, não sou afeito a luxos. Sou um homem de hábitos simples. Luxo, para mim, é poder comprar meus livros, meus CDS, meus DVDs, assinar os jornais e revistas que bem entender, viajar uma vez por ano e comprar presentes para a minha bem amada, tudo isso sem precisar fazer contas. É uma pena que ainda não tenha alcançado a condição financeira necessária para isso, mas um dia chego lá. Não estou pedindo muito.

Em todo caso, é lógico que, se político fosse, quando viajasse ficaria hospedado em lugares melhores, e conheceria restaurantes mais chiques do que os pouquíssimos que já conheci, mesmo que fosse para deles sair reclamando de tanta "chiqueza".

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