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Eduardo Cunha e os três embusteiros

Publicado: Atualizado:
EDUARDO CUNHA
EVARISTO SA via Getty Images
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Na última semana, o Brasil acordou perplexo com a notícia de que Rodrigo Janot, Procurador Geral da República, pediu ao Supremo Tribunal Federal as prisões dos senadores Romero Jucá e Renan Calheiros, do ex-presidente da república José Sarney, e do deputado afastado Eduardo Cunha, todos do PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer.

O motivo, no caso dos três primeiros, são as gravações de conversas entre os citados e o ex-senador Sérgio Machado, que revelaram uma conspiração com intuito de derrubar a presidente eleita Dilma Rousseff e abafar a Operação Lava Jato.

No caso de Cunha, a razão são as seguidas manobras que o deputado afastado continua fazendo para evitar que o processo contra ele em curso no Conselho de Ética tenha como resultado o pedido de cassação do seu mandato.

Todos os quatro repudiaram a atitude de Janot, é claro. Um deles com razão: Renan Calheiros. Neste momento, sua prisão seria um exagero. A conversa entre Renan e Machado que foi divulgada não dá motivo para uma medida tão dura. Graves, mesmo, são os casos de Jucá, Sarney e Cunha, que realmente tentaram ou conseguiram atrapalhar processos em andamento.

No fim de 2015, o então senador Delcídio Amaral foi preso por tentar evitar a delação premiada de Nestor Cerveró, um dos personagens principais do escândalo de corrupção na Petrobras.

Se fosse utilizado o mesmo critério para ambos os casos, Jucá e Cunha estariam atrás das grades há semanas. Pela idade avançada, Sarney estaria em casa, mas devidamente equipado com uma tornozeleira eletrônica.

Afinal, o que é mais grave: tentar evitar uma delação premiada ou tentar estancar uma operação inteira? Tentar evitar uma delação premiada ou continuadamente agir para atrapalhar os trabalhos de uma Comissão de Ética da Câmara dos Deputados?

Segundo matéria do jornal O Globo, o pedido de prisão foi enviado ao STF há pelo menos uma semana, e coube ao ministro Teori Zavascki analisá-los. Mais uma vez - assim como no caso de Eduardo Cunha -, Teori deixou passar uma grande oportunidade de fazer a coisa certa no momento certo.

Com a divulgação dos pedidos, a probabilidade de Teori deferi-los é quase zero. Espera-se apenas que, como diz o ditado, ainda que a justiça tarde, não falhe. E que, se possível, não tarde muito.

Novas eleições

A certa altura da conversa com Sarney, Sérgio Machado diz o seguinte: "Tá todo mundo se cagando, presidente. Todo mundo se cagando. Então ou a gente age rápido. O erro da presidente foi deixar essa coisa andar. Essa coisa andou muito. Aí vai toda a classe política para o saco. Não pode ter eleição agora".

Repare na última frase: "Não pode ter eleição agora". E lembre-se de que a grande maioria dos políticos refuta a proposta de novas eleições de maneira peremptória.

Agora, uma fala de Sarney: "Nem Michel eles queriam, eles querem, a oposição. Aceitam o parlamentarismo. Nem Michel eles queriam. Depois de uma conversa do Renan muito longa com eles, eles admitiram, diante de certas condições". Pouco antes, Sarney tinha dito "Nenhuma saída para ela [Dilma]. Eles não aceitam nem parlamentarismo com ela."

Numa outra conversa com o mesmo Machado, Sarney lança uma suspeita sobre Dilma: "Nesse caso, ao que eu sei, o único em que ela está envolvida diretamente é que ela falou com o pessoal da Odebrecht para dar para campanha do... E responsabilizar aquele [inaudível]".

Apesar de esse trecho da conversa ter sido destacado sucessivas vezes pela imprensa e por aqueles que são contra Dilma e o PT, não fica claro se o pedido foi de doação legal ou de doação ilegal. Nessas horas, poucos se detêm ao fato de que essa passagem nada mais é do que um "ouvi dizer", ou seja, não é uma informação confirmada.

Se fôssemos nos basear em "Ouvi dizer", 90% dos políticos deste país seriam cassados.

Nessas conversas, os acordos para derrubar a presidente Dilma não são "ouvi dizer". Muito pelo contrário: está tudo muito claro. Nem a oposição queria Michel Temer, como diz Sarney. Só o aceitou depois de "certas condições". Uma delas certamente é o ministério de notáveis corruptos montado por Temer. As outras "condições" ainda não foram anunciadas.

A divulgação dessas gravações deveria fazer com que o processo de impeachment fosse cancelado imediatamente. Qualquer legalidade que poderia haver nesse processo foi para o ralo. Michel Temer e seu entorno não têm a legitimidade necessária para conduzir o País até o fim de 2018. Por outro lado, Dilma Rousseff e seu entorno não têm apoio suficiente do congresso para governar.

Por isso, ambos deveriam renunciar, para que uma nova eleição presidencial possa ser feita ainda este ano, aproveitando a ocasião das eleições municipais - ou numa data não muito distante disso -, sem a possibilidade de nenhum dos envolvidos nesses escândalos se candidatar, para podermos começar 2017 com um novo presidente e com uma nova equipe na Esplanada dos Ministérios.

É absolutamente necessário que haja uma nova eleição presidencial este ano. Ou se faz isso, ou teremos crise atrás de crise até 2018. E, como o próprio Sérgio Machado diz em uma das conversas, ninguém mais aguenta isso.

LEIA MAIS:

- Os dois lados do impeachment

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