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As prisões de Garotinho e Cabral são merecidas. Mas são justas?

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GAROTINHO CABRAL
Agência Brasil/Fotos Públicas
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O noticiário político brasileiro nunca foi ameno. Basta olhar para trás e ver a quantidade de denúncias e escândalos de corrupção que assolam nosso país desde sempre.

Contudo, nos últimos anos, com a maior autonomia de órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Procuradoria Geral da República nas administrações petistas, o número de casos de corrupção investigados, desvendados e punidos aumentou substancialmente.

Mas mesmo quem já estava acostumado com a profusão de absurdos revelados pelos jornais se espantou com esta semana peculiar. Mais especificamente com dois dias desta semana.

Na quarta-feira (16), além de manifestantes a favor de uma intervenção militar invadirem o congresso, Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, foi preso pela Polícia Federal. Garotinho é acusado de compra de votos na cidade de Campos dos Goytacazes.

Na quinta (17/11), vimos o doleiro Alberto Youssef, condenado a 122 anos de prisão pelos crimes cometidos no âmbito da operação Lava Jato, ter sua pena reduzida para apenas três anos. Como já cumpriu, em Curitiba, dois anos e oito meses, Youssef poderá cumprir os quatro meses restantes em prisão domiciliar.

No mesmo dia, Sérgio Cabral, também ex-governador do Rio de Janeiro, foi preso, acusado de ser o chefe de um esquema que desviou mais de 200 milhões de reais dos cofres públicos. Cabral está tão encrencado que conseguiu a façanha de ter a prisão decretada por dois juízes: Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal do Rio, e o já famoso Sergio Moro, de Curitiba.

Mas deixemos de lado a miopia intelectual dos defensores de uma intervenção militar - que rendeu, entre outras coisas, o vídeo impagável de uma mulher dizendo que o círculo vermelho da bandeira do Japão é um símbolo comunista - e o escárnio que é a gigantesca redução de pena de Youssef, patrocinada pelo juiz Sergio Moro, que anos atrás havia condenado o mesmo Youssef, no escândalo do Banestado, a 4 anos e 4 meses de prisão (estaria sofrendo, o juiz Moro, da Síndrome de Estocolmo?).

Falemos de Cabral e Garotinho. Mais especificamente de suas prisões.

A operação Lava Jato transformou em rotina prisões sem condenações. Os motivos são basicamente os mesmos: risco de fuga, perigo à ordem publica e obstrução de justiça. Em alguns casos, essas justificativas fazem muito sentido, como no caso de Marcelo Odebrecht, que, se estivesse solto, comprometeria as investigações.

Em outros, fazem menos sentido, como no caso de Eduardo Cunha, que durante meses foi um perigo para a ordem pública e, sistematicamente, enquanto tinha o cargo de deputado, obstruiu ou tentou obstruir a justiça. No entanto, Cunha foi preso apenas depois de ter o mandato cassado.

Talvez a prisão de Garotinho se justifique pelo fato de ele ter cargo público - era secretário de governo da prefeitura de Campos - e poder destruir provas e/ou embaraçar investigações. Mas por que não o prenderam em 2010, quando foi condenado a dois anos de prisão por formação de quadrilha? (Ele recorria em liberdade.) Aliás, por que Garotinho, condenado à prisão, podia exercer um cargo público? Esse é o tipo de coisa que não dá para entender.

O caso de Sérgio Cabral também não fica atrás, em termos de estranheza. Cabral não estava exercendo cargo público e estava longe dos holofotes. É fato que investigações preliminares indicam que o ex-governador montou uma empresa de consultoria e a estava utilizando para lavar dinheiro. Mas as investigações não foram concluídas e Cabral não foi julgado - muito menos condenado. Sua prisão foi feita com base em indícios.

Muitos comemoraram as prisões, e houve até quem se divertisse com a cena deprimente e humilhante de Garotinho protestando, deitado numa maca, contra a sua transferência do hospital Souza Aguiar para o complexo de Bangu. Talvez essas pessoas tenham esquecido quem os elegeu e como esses dois chegaram onde chegaram.

Ao que indica, parece que eles finalmente receberam o que merecem. Só não podemos esquecer que a justiça tem ritos a serem seguidos. E que, quando eles são atropelados, a possibilidade de que injustiças sejam feitas é muito grande.

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