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Temos mesmo um 'Frank Underwood' da vida real?

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EDUARDO CUNHA
Adriano Machado / Reuters
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Estupefatos com os ardis, a audácia e, vá lá, a genialidade (para o mal) de Eduardo Cunha, nos deixamos levar pela ideia de que seria ele o nosso Frank Underwood, o deputado inescrupuloso interpretado por Kevin Spacey na série House of Cards.

Com os vazamentos de uma carta endereçada a Dilma Rousseff e do discurso que faria à nação caso a presidente fosse afastada do cargo, alguns embarcaram na teoria de que, na verdade, nosso Underwood seria o vice-presidente Michel Temer.

Mas, para nosso Underwood ser Temer, deveríamos ter um Garrett Walker, o ingênuo presidente estadunidense que foi enredado nas artimanhas do deputado vingativo. E sabemos que de ingênua Dilma não tem nada.

Na série, a trama armada por Underwood para chegar à presidência só começa a ser desvendada, por um jornalista, na terceira temporada.

Aqui, na vida real, sempre soubemos que Eduardo Cunha queria implodir o governo por dentro e Michel Temer, talvez sofrendo de um golpismo precoce, revelou-se muito afoito para chegar o quanto antes ao poder.

Underwood, ao contrário dos dois, conseguiu passar ileso por todos: eleitores, imprensa e até mesmo colegas. Seu círculo de confiança se restringe à sua esposa Claire e seu fiel escudero, Doug Stamper.

Outros personagens que gravitam ao redor do trio só são enredados à trama quando podem facilmente ser eliminados ou quando ficam tão presos a ela que, se fizerem alguma denúncia, vão para o limbo junto com o trio principal - e essas pessoas jamais farão isso, porque sempre têm muito a perder (apesar de isso mudar justamente na terceira temporada).

Demitido no dia 09 de setembro, uma sexta-feira, por conflitos com o alto escalão do governo Temer, Fabio Medina, até então ministro da Advocacia Geral da União, estampa a capa da revista Veja que foi divulgada na mesma sexta-feira.

O agora ex-ministro declarou à revista que o atual governo quer abafar a operação Lava Jato. Se isso já não fosse público e notório, seria uma bomba. Ou seja: o ex-ministro não trouxe novidade alguma.

Se não houve novidade, por que o estardalhaço? Por que a Veja dedicou uma capa ao assunto? Ora, porque ninguém de dentro do governo havia confirmado o plano de "estancar a sangria", revelado sem querer por um desavisado Romero Jucá em conversa gravada por Sérgio Machado.

E então me peguei pensando que Frank Underwood jamais permitiria que algo parecido acontecesse. Alguém do próprio governo fazer uma denúncia grave como essa? Jamais. Foi quando cheguei à seguinte conclusão: ou não temos o nosso Underwood, ou ainda não fazemos ideia de quem ele é.

Concordar com a segunda hipótese significaria dizer que há alguém tramando nos bastidores para chegar à presidência, via eleições indiretas, em 2017. Esse nosso Underwood está fazendo jus ao personagem, e está enganando eleitores, imprensa e os próprios colegas.

Apesar de ser um palpite fantasioso, divertido, até, ele supõe que exista, na Câmara dos Deputados ou no Senado Federal, um político altamente inteligente, um gênio não apenas da política, mas também da manipulação. Por óbvio, não seria um personagem a ser exaltado, mas seríamos obrigados a reconhecer sua engenhosidade.

Em todo caso, é um palpite hollywoodiano demais, ficcional demais, apesar de essa aposta ter sido reforçada recentemente, quando o Tribunal Superior Eleitoral decidiu julgar somente em 2017 o processo em andamento contra a chapa Dilma-Temer.

A teoria mais próxima da realidade é aquela da qual a maioria de nós desconfia ou já tem certeza, mas fica um tanto constrangida em admitir publicamente, porque revela nossas próprias falhas de julgamento e decisão. Isso dito, enunciá-la-ei:

A crise política brasileira é tão somente uma mistura de falta de sorte do país como um todo; preguiça ou falta de interesse, por parte dos eleitores, de acompanhar mais de perto o que acontece na política; e falta de escrúpulos dos próprios políticos.

Falta de sorte, preguiça/desinteresse e desonestidade. Faz muito mais sentido que qualquer teoria inspirada em roteiros cinematográficos, não é mesmo?

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