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O mal-estar nas diferentes democracias pelo mundo

Publicado: Atualizado:
DEMOCRACY
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Texto escrito com Felipe Almeida

Há um forte mal-estar nas diferentes democracias pelo mundo. Isto advém de um profundo descompasso, sendo eufemístico, na relação entre representados e representantes, gerando assim uma grave crise de representatividade. Perceber esta questão como algo individual a cada país é ter a atenção desviada do essencial - o que está em crise pelo globo é a própria democracia, pelo menos como a praticamos atualmente. Superar este mal-estar é perfeitamente possível. Para ir nesta direção, por mais inusitado que possa soar, é preciso aprender com o teatro.

A democracia √© uma ideia, no m√≠nimo, radical, e ainda bem que ela assim √©. Pensar que cada indiv√≠duo tem o direito de opinar sobre os seus destinos pol√≠ticos, independentemente de sua religi√£o, cor, g√™nero, posses, posi√ß√£o social e assim por diante, √© um grande alento considerando a gest√£o da pol√≠tica em termos hist√≥ricos. Por√©m, ao longo do tempo, a democracia parlamentar, que √© como em geral a democracia √© exercida pelo mundo, foi deixando alargar a dist√Ęncia entre representantes e representados. Hoje, para o cidad√£o comum, decidir seu destino pol√≠tico resume-se basicamente em apertar duas teclas e o bot√£o confirma.

Como resultado, percebe-se na democracia hoje o que o teatro designa por a quarta parede. Normalmente, uma cena teatral ocorre entre quatro paredes: os fundos, duas paredes laterais e uma quarta parede. Esta express√£o teatral nomeia a parede invis√≠vel e imagin√°ria que separa atores e plateia, o universo das personagens da vida real e, em √ļltima an√°lise, a fic√ß√£o e a realidade. √Č o n√£o contestar a exist√™ncia desta quarta parede que faz com que a plateia simplesmente assista, sem interferir, √† cena e, mais, que os atores performem como se aquela ali n√£o estivesse presente.

Bertold Brecht, dramaturgo alem√£o, revolucionou o teatro ao quebrar esta quarta parede c√™nica, interagindo com a plateia, fazendo-a inclusive parte da cena e, assim, membro ativo da experi√™ncia teatral. O mesmo precisa ocorrer com a democracia. N√£o se trata de acabar com a democracia parlamentar, longe disso. Contudo, √© preciso que os cidad√£os deixem de ser tratados como meros expectadores do processo democr√°tico e que a intera√ß√£o v√° para al√©m do vaiar e aplaudir o espet√°culo. √Č preciso quebrar a quarta parede da democracia.

Um caminho √© democratizar a democracia abrindo-se mais espa√ßos para que os cidad√£os, enquanto indiv√≠duos, possam diretamente decidir quest√Ķes ligadas √†s suas vidas. No passado, a dificuldade para ter v√°rias pessoas em um √ļnico local debatendo era enorme. Contudo, hoje h√° tecnologia dispon√≠vel para que milh√Ķes re√ļnam-se, discutam e votem sobre temas dos seus interesses. Cada pessoa com um celular ou acesso a um computador, por exemplo, tem uma urna de vota√ß√£o em potencial nas m√£os.

√Č preciso caminhar para uma democracia de maior intensidade. Mais abertura √† participa√ß√£o cidad√£ certamente resultaria em uma aloca√ß√£o e execu√ß√£o de recursos mais condizente com as necessidades e anseios da popula√ß√£o. Ao contr√°rio de outros regimes pol√≠ticos, crises na democracia supera-se, somente, com mais democracia.

*Texto publicado originalmente no Jornal Gazeta do Povo

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