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As diferentes (e perturbadoras) respostas às tragédias na Disney e zoológico em Cincinnati

Publicado: Atualizado:
CINCINATTI ZOO
John Sommers II via Getty Images
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Em meados de junho, em um resort da Disney na Flórida, um menino branco, de 2 anos, foi morto ao ser arrastado por um aligátor (jacaré-americano). Em maio, um garoto negro, de 3 anos, caiu dentro de uma área isolada de um gorila do zoológico de Cincinnati, também nos Estados Unidos.

Duas tragédias semelhantes, duas diferentes e PERTURBADORAS respostas do público.
Mas isto não tem a ver com gorilas e jacarés. Nem tem a ver com o modo pelo qual a mídia descreveu Matt Graves, o pai da criança branca, como um empregado de "uma empresa de tecnologia e membro do conselho da Câmara de Comércio", enquanto retratou Deonne Dickerson, o pai do menino negro, como um pai ausente com uma extensa ficha criminal.

Isto tem a ver com a OBSESSÃO de nosso país em tratar pais negros com descrédito, paternalismo e racismo. TODOS OS PAIS NEGROS.

Dê uma boa olhada sobre como falamos sobre pais negros nos jornais e nas mídias sociais:

-- A América branca inventou o estereótipo da "welfare queen" (rainha da assistência social), retratando as mães negras como preguiçosas e oportunistas, ao mesmo tempo reforçando os mitos dos "vários pais" com o "slut-shaming" (do inglês "slut", mulher promíscua, e "shaming", envergonhar -- estigma que reflete o ato de criticar e policiar a sexualidade feminina).

-- Sempre fazemos piadas em nossos filmes, programas de TV e vídeos do YouTube sobre pais negros ausentes.

-- Há apenas alguns meses, criticamos Will e Jada Pinkett Smith porque o filho deles, Jaden Smith, foi visto usando uma saia. As pessoas questionaram a forma como os atores criam o filho e culparam o envolvimento deles com a Cientologia.

-- Quando Mike Brown, negro, foi assassinado pelo policial Darren Wilson, branco, em 2014, as pessoas criticaram a mãe de Mike, por ter criado um "bandido" e nunca lhe deram a oportunidade de viver o luto pela perda do filho.

TODA ESSA BOBAGEM é uma maneira de contestar a humanidade dos pais negros -- para provar que as pessoas negras não são responsáveis por si mesmas ou por seus filhos. Ao fazer isso, validamos nosso legado de opressão em relação aos negros.

Aos olhos da supremacia branca, quem se importa com a gentrificação de nossos bairros negros e expulsão das famílias negras? Quem se importa se isolamos as crianças negras em escolas que são terrivelmente subfinanciadas? Quem se importa se proporcionamos uma assistência médica inferior às crianças negras? Quem se importa se policiais matam crianças negras?

Aos olhos da supremacia branca, como os pais negros não são bons pais, eles não merecem esses direitos civis. Não merecem comer, ser cuidados por um médico, estudar em uma escola pública decente e nem merecem viver.

Engraçado...

As pessoas brancas estão horrorizadas com o fato deste menino de 2 anos ter sido comido vivo por um jacaré, mas, durante a escravidão, as pessoas brancas alimentavam os crocodilos locais com bebês negros.

Acredito que essa indignação em relação às vidas dos negros tem um estatuto de limitações...

Uma versão deste post foi publicada originalmente em The Love Life of an Asian Guy.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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