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A derrota do golpe na Turquia também pode significar a derrota da democracia?

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TURKEY
Baz Ratner / Reuters
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A tentativa de golpe na Turquia foi, de certa forma, amadora. Explico:

O exército não cortou comunicações imediatamente;
Deixou Erdogan usar o facetime, pasme, pra falar com a mídia;
Não tomou imediatamente o parlamento e, pior, não prendeu ou matou Erdogan.

Não, não estou dizendo que deveriam ter feito estas coisas. Estou apenas apontando para erros básicos que ajudam a fortalecer a tese de que tudo não passou de um autogolpe.

Erdogan, livre e com redes sociais funcionando (mesmo que apenas através de VPN), foi capaz de convocar a população a sair em seu auxílio. O golpe foi, então, derrotado (ao menos aparentemente).

Diante de tanto amadorismo fica a dúvida: Este foi um auto-golpe com a intenção de permitir que Erdogan torne-se o ditador que sempre sonhou?

O aftermath do golpe parece sustentar essa hipótese. E, vamos lembrar, democracia é mais do que apenas votar.

Erdogan expurgou o judiciário. Magicamente, menos de 24h após a tentativa de golpe tinha já pronta uma lista com 2.745 mil juízes para retirar do cargo.

Com uma tacada só, ele poderá limpar o exército de qualquer um que não lhe agrade e, de quebra, também conseguiu amplo apoio popular - mesmo que boa parte deste venha de quem se opõe ao golpe e não o apoia diretamente, mas pouco importa.

O golpe, no fim, serviu mais aos interesses de Erdogan de realmente se tornar o sultão que pensa ser - e como age - do que qualquer outra coisa. Ainda, pressiona os EUA a entregar o líder religioso opositor Fethullah Gülen, que vive refugiado no país, fechando o espaço aéreo e cortando a luz da principal base militar americana na Turquia. Gülen lidera o movimento Hizmet que prega um islã moderado e o respeito à ciência, e é acusado por Erdogan de estar por trás da tentativa de golpe, os EUA exigem provas para que possam tomar alguma atitude.

E esta base, Incirlik, é a que presta assistência aos curdos na Síria - inimigos de Erdogan. A ISIS e demais radicais islâmicos estão radiantes. Erdogan é um islamizador inescrupuloso.

2016-07-17-1468783223-4414557-FireShotScreenCaptureilhantanironTwitter__BlockednewsitesinTurkey_HaberdarGazeteportABCGazetesiAktifhaberPostmedy_2016071777.png Lista de sites turcos censurados por Erdogan nos últimos dias

Para os curdos, para a esquerda turca, para a Turquia em geral e para o mundo o golpe fracassado - antidemocrático - ao invés de promover uma onda democrática causará o efeito inverso.

Aproxima-se uma maior concentração do poder nas mãos de Erdogan, que controla boa parte da mídia e censura constantemente a internet, redes sociais e jornais que conseguem permanecer minimamente independentes.

Nos últimos anos Erdogan tem tomado o controle de jornais de grandes circulações e buscado censurar ao máximo a mídia a fim de proibir qualquer manifestação contrária à suas vontades.

Recentemente Erdogan ainda começou a movimentar-se para ilegalizar o partido de esquerda pró-curdo, HDP, aumentando ainda mais seu controle sobre o parlamento.

Curioso pensar que a defesa da democracia, no caso turco, acabe significando o fim da própria democracia. Lembrando que a única coisa que sustentava a farsa democrática na Turquia eram as eleições regulares, porque liberdade de imprensa, de expressão e etc já eram itens raros.

Segundo o jornalista Patrick Cockburn, Erdogan está usando a tentativa falhada de golpe para eliminar os últimos resquícios de secularismo no país.

Se é verdade que é impossível apoiar um golpe militar, é também impossível apoiar Erdogan ou comemorar a derrota do golpe diante do cenário que se desenha. A lição que fica é que nem sempre a luta pela democracia acaba resultando em (mais) democracia. No entanto, é uma luta necessária.

LEIA MAIS:

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