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A queda de Dilma Rousseff: Cai uma farsa, assume outra farsa

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MICHEL TEMER
Associated Press
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Dilma Rousseff sai do governo do mesmo jeito que entrou: mentindo.

Em seu discurso na manhã após a votação no senado a presidente elencou sua realizações. Pré-sal que ela entregou à China, educação que ela vem destruindo, direitos sociais que ela vem cortando, economia que vem implodindo.

O governo Dilma foi uma farsa, nasceu na cabeça de Lula que queria perpetuar-se no poder, seguiu como estelionato eleitoral e morreu como outra farsa, em um processo legal, porém ilegítimo, coalhado de manobras, para colocar Michel Temer na presidência.

Mas não esqueçamos, o processo foi inteiro apoiado por aqueles que até ontem eram aliados, do governo federal e do PT. Aliados escolhidos a dedo, para quem foi dado poder de decidir o destino do País.

Sigo, como muitos, na oposição. Não importa se Dilma ou seu ex-aliado Temer estão no poder. Pena que o mesmo não possa ser dito pela infinidade de movimentos cooptados, como UNE, CUT ou MST, que por anos abandonaram lutas sociais para sustentar o governo que agora cai. Estes, junto ao PT, irão agora se opor sistematicamente ao que apoiavam, ao que implementavam, enquanto Dilma segue em sua bolha de negação: "Posso ter cometido erros, mas sou inocente".

Ao invés de autocrítica, apelo à negação pueril. Ao invés de desculpas, mentiras. Mas é aquilo: não vai ter autocrítica hoje, amanhã e nem em mil anos. A insistência em chamar um processo legal (pese não necessariamente legítimo) de golpe é tudo que precisamos pra saber que não vai ter autocrítica jamais. E a esquerda ao invés de exigir do PT que assuma a responsabilidade pelos seus atos, segue servindo de capacho. A narrativa do golpe é mais fácil do que a de assumir a responsabilidade por suas ações e por suas alianças.

Cai um péssimo governo, assume outro péssimo governo. Não é possível ter qualquer esperança pelo governo que entra, como não tínhamos mais pelo governo que sai.

Ao cair, Dilma discursou por democracia, contra o "golpe". Irônico, vindo de uma presidente que sistematicamente desrespeitou a democracia - levando Belo Monte adiante, mantendo seu apoio a UPPs, enviando exército à favelas, defendendo e oferecendo apoio à repressão a movimentos sociais, passando por cima de decisões da OEA/CIDH - e que aplicou primeiro um golpe, ao impor a agenda derrotada durante as eleições, a agenda do PSDB de ajustes fiscais, cortes de direitos e retrocessos.

Com Temer poderemos ter mais retrocessos, é verdade, mas nada que não estivesse na mira e na agenda derrotada adotada por Dilma. Talvez tenhamos medidas prejudiciais sendo aplicadas com maior velocidade, mas a substância é a mesma.

Dilma, enfim, não cometeu apenas alguns erros, ela cometeu crimes. Inúmeros. E teve ao seu lado movimentos sociais e sindicais para garantir sua impunidade, para garantir o continuado apoio das vítimas a seu governo. A narrativa do golpe se insere na mesma lógica de justificação de crimes cometidos, travestidos de meros erros. Não surpreende que em seu discurso ela tenha afirmado jamais ter reprimido movimentos sociais.

Dilma iniciou seu governo se baseando em estelionato eleitoral e deixará o governo mentindo.

Não apenas reprimiu, como também apoiou a repressão levada a cabo pelo PSDB. Se não éramos movimentos sociais em 2013 o que éramos? Não ter bandeiras da UNE, CUT ou PT transforma movimentos em inimigos a serem abusados e violentados? As ações de Dilma e seus aliados mostram que sim. A lei antiterrorista, a Lei Geral da Copa e a repressão que se seguiu em 2013 e 2014 deixam claro que Dilma vive em uma realidade paralela - ou espera que os brasileiros vivam.

Movimentos sociais devem ser apenas os com CNPJ e que apoiam cegamente o Partido dos Trabalhadores. O resto "é tudo bandido".

Em seu discurso Dilma ainda disse "Honrei as mulheres desse país". Sem dúvida, honrou enquanto revogavava regulamentação ao direito do aborto. Honrou enquanto vetava equiparação salarial. Honrou enquanto mandava ministra calar a boca e não falar sobre o direito ao aborto. Faltou apenas gritar, mais uma vez, que não fará "propaganda de opção sexual" para, de vez, descer a ladeira - literal e metaforicamente.

Mas uma hora a situação fica insustentável e a incapacidade do governo de assumir seus erros demonstra que não seriam realmente capazes de impedir o impeachment, e demonstra que dificilmente será capaz de reverter a situação. Serão capazes os movimentos sociais de se descolar do PT ou seguirão apoiando uma farsa?

O governo cai por suas ações, por sua corrupção, por sua incapacidade de governar, mas quem pagará a conta seremos nós.

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