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Donald Trump escancara a vitória da direita e o momento de reflexão para a esquerda

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DONALD TRUMP HILLARY CLINTON
Reuters Staff / Reuters
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Por mais que eu considerasse Hillary e Trump equivalentes, não dá pra deixar de se arrepiar com a vitória de Donald Trump. Mal ou bem ele é exatamente aquilo que representa, um psicopata misógino perigoso. Hillary tem uma capa, ela esconde o que realmente é -- e não é muito diferente dele.

Logo, tendemos a analisar ou ao menos ver mais a imagem aparente do que o que está por baixo, daí o medo maior de uma eleição do Trump. Dito isto, acho sinceramente difícil o Trump impor a ampla maioria de suas políticas, mesmo com maioria na Câmara e Senado. Ele não tem apoio total do partido e terá de brigar por esse apoio.

Trump versus Republicanos

Uma vitória do Trump seria (e é) pior pro partido republicano que uma derrota dele, o que é curioso... Trump não conta com apoio de boa parte da liderança republicana, MUITO mais moderada. Ele se aproxima da KKK -- e recebeu apoio do ex-líder da organização, David Duke -- e tem a simpatia da chamada Alt Right, a "nova" direita, que nada mais é que a mesma direita racista, antissemita e preconceituosa, mas com uma roupagem moderna e que cresce cada vez mais como contraponto aos chamados Justiceiros Sociais da esquerda americana.

Trump desagrada a boa parte da liderança republicana que ficará numa sinuca e imprensada entre a extrema-direita, o Tea Party, supremacistas, etc... E fica a lição para os Democratas, quando contra um candidato de extrema-direita você aposta na esquerda (Bernie), não em mais direita (Hillary).

Brexit e extrema-direita

O fenômeno Trump se liga ao Brexit e ao crescimento da extrema-direita na Europa: A esquerda falhou e está perdendo a disputa. Não é apenas a direita que vence por seus méritos, mas a esquerda que perde por sua falta de capacidade de repensar seus métodos e o mundo e pelo fato de que boa parte daquilo que se costuma chamar de esquerda (ou centro-esquerda), uma vez no poder, repete os métodos da direita e ainda assume uma posição pedante, como se fosse diferente.

Um dado importante é que se Hillary tivesse ganho o sentimento que levou Trump ao poder não teria morrido, mas sim poderia até se fortalecer com o passar dos anos. Seria adiar o que parece inevitável dada a insistência dos Democratas em seguir com políticos profissionais e parte do establishment corrupto tão criticado. Retomo esse ponto mais pra frente.

Não duvidem se em pouco tempo tivermos uma Marine Le Pen na França vencendo eleições ou chegando muito perto disso, e o mesmo vale para boa parte da Europa. E repito, tudo isso é mais culpa da esquerda e de sua inabilidade política do que mérito da direita -- pese terem conseguido se modernizar na aparência, ainda que menos no discurso.

Marine Le Pen conseguiu afastar os maiores antissemitas do partido, mas segue defendendo o indefensável, a homofobia não é mais característica marcante de toda a extrema-direita, pelo contrário... Ou seja, a direita soube ampliar seu público -- junto a comum e tradicional pregação do medo do desconhecido, do de fora -- , a esquerda ficou estacionada. Os novos judeus são os muçulmanos, os novos gays são os imigrantes, a extrema-direita mantém o ultra-nacionalismo, mas mudou seus alvos -- mantendo, porém, o componente racista e preconceituoso de sempre. O ódio segue sendo o principal motor, os alvos é que se tornaram mais fluidos.

Mesmo o já citado David Duke, ex-KKK, diz não ser contra os negros, mas sim a favor dos brancos, um jogo de palavras que não altera em nada o resultado final, mas cai melhor entre certas audiências. Mas um dado importante, há muito do discurso dessa direita que apela aos sentimentos mais profundos da população trabalhadora. Apela aos seus medos e esperanças e tem penetrado mais ou com mais facilidade que os discursos de esquerda.

A esquerda dorme?

É o momento de amplos setores de esquerda começarem a fazer uma profunda autocrítica. No mundo inteiro. Estamos passando a mensagem errada, estamos subestimando a revolta popular e mesmo a inteligência do povo. Será que a maior parte dos eleitores americanos são racistas, supremacistas e etc ou será que há algo na mensagem de Trump para além destes pontos que conseguiu conquistar o eleitor e lhes oferecer respostas?

O acadêmico Demétrio Magnoli (sim, pasme) citou Marx na cobertura eleitoral da Globonews ao falar sobre os trabalhadores, sobre a "velha toupeira", e de quebra lembrou que os antigos eleitores do PC francês e da esquerda em geral estão migrando para a extrema-direita. E não é sem sentido. Já passou da hora da esquerda descer do salto alto e começar a dialogar mais do que apenas tentar pregar do alto de seu pedestal. Acreditar que o povo é burro ou que é facilmente manipulado não serve mais.

Temos duas opções (falando mais em termos mundiais que dos EUA em si): Seguir ignorando (e com isso seguir perdendo, considerando todos que não nos apoiam imbecis, fascistas, etc), ou tentar aprender com os erros e notar que o velho discurso engessado da esquerda não está mais sendo capaz de dar respostas. Qual vai ser?

A relação com a Rússia

Ponto interessante é a relação com a Rússia. Trump não tem grandes interesses na Ucrânia, nem em fortalecer a relação com os aliados da OTAN no Báltico e muito menos quer derrubar Assad, ou seja, é o candidato dos sonhos de Putin. O isolacionismo (possível) de Trump pode causar mudanças significativas da política mundial e reforçar o poder e a influência russa. Para os curdos que já perigavam ser abandonados por Obama, Trump é uma péssima notícia (ainda que Hillary não fosse exatamente uma boa notícia também). O acordo dos EUA com o Irã também pode estar em perigo, visto que ele se opõe ao acordo alcançado por Obama.

O que tenho certeza é que a eleição nos EUA se resumiu à ingrata tarefa de escolher entre um psicopata com ações ainda desconhecidas (mas cujas palavras assustam) e uma psicopata bem conhecida e responsável por guerras e sofrimento -- e que ajudou a financiar a ISIS. O mundo estava condenado de qualquer forma.

Ainda sobre a possível política externa de Trump, teremos de pagar pra ver, não faltam pontos nebulosos. O que ele fará com relação às diversas bases americanas pelo mundo? Aos acordos militares, comerciais e tratados dos EUA? Na questão Israel-Palestina o professor Reginaldo Nasser escreveu no Facebook:

O ministro da Educação israelense, membro da coalizão governamental e chefe das fileiras do lobby dos colonos judeus, afirmou que a ideia de criar um Estado palestino coexistente com Israel está superada depois da vitória de Donald Trump nas eleições americanas. "A vitória de Trump oferece a Israel a possibilidade de renunciar imediatamente à ideia da criação de um Estado palestino", afirmou, em um comunicado, Naftali Bennett. "Esta é a posição do presidente eleito e esta deve ser nossa política. A era de um Estado palestino ficou para trás", concluiu

Vale lembrar, ainda, que Trump se opõe a acordos de livre comércio no o Nafta ou ainda o TTIP (este um de seus raros aspectos positivos).

Bernie Sanders e algumas conclusões

Lá atrás quando o Bernie Sanders foi garfado para direção Democrata dar a vitória à Hillary eu comentei que ela era MUITO fraca contra o Trump e perigava perder... Eles não são muito diferentes, afinal. Tanto é fraquíssima que o grosso de sua campanha era apontar como Trump é ruim -- como a campanha da Dilma parte 2. Reparem nos argumentos dos defensores da Hillary, o grosso era um combate ao "mal maior" diante da difícil missão de apresentar razões para se votar na Dilma.

Se Hillary vencesse seria pelo repúdio a Trump mais que por seus méritos. Hillary representa Wall Street, os poderosos, a velha política. Trump, pese a incredulidade que causa, representa algo novo diante de eleitores cansados da mesmice - e capazes de passar por cima de seus arroubos discursivos.

Bernie, por outro lado, representava uma nova política genuína, era um respiro à esquerda nos EUA, representava algo absolutamente novo no país e teria mais chances de combater o populismo quase fascista de Trump que o discurso velho de Hillary.

No fim Trump foi capaz de capitalizar um sentimento muito profundo que vai do deep south branco até os trabalhadores que enfrentam a crise: O sentimento de serem deixados pra trás, de terem sido abandonados pelos políticos tradicionais. Nisso entra globalização, entre SJW, entra rejeição à Hillary, entra tudo, mas o principal, penso, é o sentimento de "e agora"? Bernie tinha agenda, mataram essa agenda, jogaram a vitória no colo do Trump.

Análises de "esquerda" que tentam demonizar a classe média branca americana vão apenas ajudar figuras como Trump a ganhar poder. A crise afetou pesadamente a classe média e trabalhadora branca nos EUA, e os Democratas não tinham respostas (Bernie tinha, mas....). A presença pesada de SJW's no seio da esquerda ajudou a invisibilizar uma maioria e seus problemas e centrou só em questões de minorias (igualmente importante, obviamente). Quando você deixa a maioria ou uma parcela muito significante de lado para focar em minorias você perde. Simples assim. E já há análises abarcando esse fenômeno, Donald Trump surfou no repúdio às chamadas identity politics, ou políticas identitárias.

Em tempo, não duvidem que culpem o Bernie e seus apoiadores agora que Hillary foi derrotada -- tudo no melhor estilo estilo blogprog e militância do PT. E como o @kavotaman me lembrou no Twitter, culparão também o Wikileaks/Assange que, aparentemente, deveriam esconder as falcatruas de Hillary pelo "bem comum".

Em tempo 2: Grande derrotada do ano: Pesquisas eleitorais. Erraram com Trump, Brexit, Colômbia e até eleição do Dória em primeiro turno.

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