Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Raphael Tsavkko Garcia Headshot

Pelo direito de ofender: Sobre X-Men, vitimização e censura

Publicado: Atualizado:
Imprimir

Preconceito e ofensa não são a mesma coisa. Ainda que a ofensa esteja contida no preconceito, o inverso nem sempre é verdadeiro. Temos direito de ofender e de nos sentirmos ofendidos, mas não temos direito ao preconceito. E lembrando, ter direito não é o mesmo que exercer tal direito, assim como chamar alguém de idiota não é o mesmo que ser preconceituoso contra alguém. Proporção, foco e intenção é tudo nessa vida.

Recentemente propaganda veiculada pela Fox para divulgar o novo filme dos X-Men causou rebuliço entre feministas e Social Justice Warriors porque os outdoors mostravam o vilão, Apocalipse, estrangulando a personagem principal da série cinematográfica, a Mística.

Vejamos: A Fox escolheu uma personagem que NÃO é principal nas revistas e tornou principal no filme. Essa personagem é sensacional, a Jennifer Lawrence dá um show e rouba a cena ao interpretá-la. Trata-se de um filme de heróis, logo, violento. Vale lembrar que a personagem, mesmo nua, consegue ser MENOS sexualizada que qualquer outra (o Wolverine é mais sexualizado que ela, aliás, e as mulheres - e os gays - se derretem). Como personagem principal, ela, a Mística, está no poster de divulgação em meio a uma luta contra um inimigo poderoso. E ambos são... azuis (ou roxos, se preferir).

E algo que parece ter escapado de boa parte das críticas: Apocalipse é um vilão, não um mocinho cujas ações devam ser seguidas.

Ou seja, dado este resumo, entende-se o contexto da propaganda. É violência em que uma mulher - absolutamente ficcional - está envolvida, não "violência contra a mulher", que é outra categoria - e um crime hediondo, penso eu. E para os que ainda assim não foram capazes de entender o contexto, resta assistir ao filme e, então, ter a capacidade de embasar sua crítica.

"This is confusing..... Is it sexist to hit you, is it more sexist not to hit you? I mean the line gets really blurry".

Deadpool.

Trata-se de uma cena de luta, em um momento-chave, em que a personagem principal, mulher, forte, poderosa, está em desvantagem. Coisas da vida - e da ficção. Não à toa os dois personagens são azuis, repito.

Não se trata de incitação à violência contra a mulher, se trata de uma cena violenta em que participa uma mulher. Mesmo compreendo as diferenças de gênero/poder na sociedade, um cartaz em que um homem fosse estrangulado não causaria 10% do burburinho - se é que causaria.

A chave não parece ser a violência em si, mas o fato de que uma mulher não poderia jamais participar de uma cena violenta (e tomar a pior). Neste ponto o comentário acima do Deadpool faz todo sentido.

Me questiono se ao invés de UMA personagem principal, os X-Men tivessem UM personagem principal. Iriam subir aos céus os gritos de ódio pela falta de protagonismo de uma mulher - e seria uma crítica aceitável. Mas se a mulher é protagonista, então ela não pode se envolver em cenas violentas?

Ofensa

Me parece uma tremenda infantilização da mulher, tratada como uma criança incapaz que deve ser protegida - mesmo sem pedir por isso. Assim como as mulheres que, dizem, acabam "ofendidas" ao ver a propaganda (imagina como se sentiriam ao ver o filme!).

Chegamos num ponto crucial: O fato de alguém ou algumas pessoas se ofenderem com algo - seja por não terem ideia do contexto, por terem sofrido algo em suas próprias vidas ou mesmo por pura má fé - não significa que uma imagem (fiquemos apenas com a imagem para não transformar o texto em um livro) seja em si ofensiva. E mesmo que fosse, e daí?

Vejamos o exemplo de South Park. Politicamente incorreto, humor pesado, tiração de onda com Social Justice Warriors, temas controversos... Muita gente se ofende.

E o problema é todo de quem se ofende. O mesmo vale para Family Guy, que ofende muita gente e segue no ar por ser uma sátira, por fazer humor se alimentando exatamente da ofensa que causa.

Lembram das várias polêmicas com o Charlie Hebdo? Qual a proposta dos "ofendidos", censura? A de muitos é isso mesmo. Diante da incapacidade de interpretar, de contextualizar, resta proibir.

Imaginem só se o filme Ted (do criador de Family Guy) tivesse sido censurado/proibido porque o então deputado Protógenes Queiroz se ofendeu e levou o filho menor de idade pra assistir?

Se o Protógenes se ofendeu, o problema é todo dele. Ele tem direito a se ofender, como o filme tinha direito de ofender. Todo mundo tem o direito de se ofender. O fato de você se sentir ofendido não quer dizer que você tenha razão.

É possível compreender que (e porque) algumas pessoas tenham se sentido ofendidas com o outdoor dos X-Men, mas isso não legitima a censura. Nem justifica os arroubos revoltados e totalmente fora do contexto.

Questão geracional?

Não falta dentro da geração millennial aqueles que exigem alertas, "trigger warnings", avisos de que algo - qualquer coisa - possa ofender alguém. Pode ser algo semelhante ao outdoor dos X-Men ou mesmo algo mais banal ainda, como trigger warnings em livros ("este livro contém isso, isso e aquilo e pode ofender uma pessoa assim e assado"), chegando ao ponto de pedir a proibição e mesmo a censura de tais livros/imagens/filmes/etc ou pelo menos que - há casos - livros de determinado tipo não sejam usados em universidades e cursos.

Essa neo-política de "não posso me sentir ofendido" não passa de criancice, de uma fragilidade de caráter imposta à toda a sociedade por grupos estridentes. Claro, uma pessoa que sofreu violência, por exemplo, pode se sentir ofendida ou intimidada por certas imagens, referências e mesmo textos, é compreensível, mas daí a isto tornar-se motivo de militância a fim de pregar censura contra manifestações artísticas, contra arte?

Há casos nos EUA e Inglaterra de professores que passam maus bocados por ensinar, por exemplo, sobre o conflito Israel-Palestina, porque isto pode ofender os estudantes sensíveis. Na mesma linha, estudantes de Yale não querem ler os escritores clássicos da literatura inglesa porque são homens e héteros. Neste caso não se trata exatamente de "ofensa", mas vai no mesmo caminho da cruzada de Social Justice Warriors que querem enxergar o mundo a partir de seus safe spaces e não da realidade.

A mera ideia de, no segundo caso, exigir que junto aos clássicos, sejam lidos autores que representam minorias nem passa pela cabeça dos justiceiros. A ideia jamais é somar, mas cortar, censurar, proibir.

A ofensa de uns não pode ser a base para a censura contra todos. As concepções limitadas do que DEVE SER a realidade não podem pautar a leitura do que É a realidade sob pena de vivermos em um mundo em que a (auto)censura é a regra.

Como comentou um amigo, logo teremos de ter avisos como: "Nenhuma pessoa foi oprimida neste outdoor - ao contrário, ganhou bem para representar dois superseres que não existem".

LEIA MAIS:

- A queda do PT irá derrubar toda a esquerda brasileira?

- A queda de Dilma Rousseff: Cai uma farsa, assume outra farsa

Também no HuffPost Brasil:

Close
'Covarde': elas denunciam violência
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual