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A queda do PT irá derrubar toda a esquerda brasileira?

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Assim que o Temer propuser as primeiras medidas impopulares, dando continuidade às medidas de Dilma, o PT irá se opor e irá chamar a esquerda para "ocupar as ruas" contra as mesmas medidas que impunha 2 meses antes.

Privatizações, corte de direitos sociais e previdenciários, repressão a movimentos sociais, violência contra indígenas, entrega de cargos e verbas aos piores políticos possíveis. Nomeie as piores políticas que você imaginar e o PT terá planejado boa parte delas.

Sim, é fato que o Temer pode ter caminho mais fácil, menos resistência para impor tais políticas, afinal setores do PSDB, PPS, DEM e afins muitas vezes se opunham à certas políticas que historicamente defendiam apenas por pirraça. O PT, por sua vez, irá se opor ao que defendia meses antes também por pura pirraça.

O PMDB fará, sorrindo, muito do que o PT fazia de cara feia - às vezes à contragosto ou tentando justificar pra si que era necessário atacar direitos sociais pelo "bem maior" de enriquecer mais ainda a elite -, mas fazia.

Temer pode até ser ~pior~ que o PT, mas mais pela velocidade e, agora, pelo péssimo congresso que o PT ajudou a montar com suas alianças, e não por ser necessariamente diferente ou ter políticas tão diferentes assim. A diferença é em velocidade/capacidade, não em vontade ou substância.

E a esquerda vai, abraçada ao PT, com bandeiras da UNE e CUT, pras ruas. Isso mesmo, ao lado dos inimigos de vermelho cada vez mais desbotado. Após algum tempo nessa dinâmica, a esquerda voltará (a maioria nunca saiu, mas ok) pra debaixo das asas do PT sem JAMAIS questionar o papel do PT em facilitar/abrir caminho (para) as piores "reformas" do Temerismo. Vide a manifestação da CUT pelo dia do trabalhador com Dilma como convidada de honra - a mesma Dilma que meses antes havia cortado direitos trabalhistas e previdenciários de quem estava nas ruas a ovacionando, para não falar dos 11 milhões de desempregados.

A turma crítica vai dizer que nós, que nunca saímos da esquerda, somos "ressentidos", que nós não somos capazes de entender que o PT mudou, que o PT entendeu seus erros quando caiu e etc. Irão passar pano - como já fazem hoje. Alguns já retomaram velhos jargões abandonados, recalibraram os não-argumentos e os mesmos memes mentirosos que haviam deixado de lado.

É difícil apontar medidas tomadas pelo governo Dilma que se diferenciem das que seriam tomadas pelo Temer. Resta, então, apontar para os aliados de Temer e gritar que ele "não foi eleito", apesar de ter recebido a mesma quantidade de votos que Dilma, já que foi candidato a vice-presidente na chapa do PT.

Aliados, aliás, que até poucas semanas atrás eram da base de Dilma, então não eram corruptos, mas sim "guerreiros do povo brasileiro". O próprio Temer já foi ovacionado pelos petistas, não custa lembrar. A fraqueza dos argumentos, no entanto, não impede que sejam usados incessantemente, em especial o argumento ou tese de que o STF faria parte do "golpe".

Verdade, o STF nomeado em sua maioria absoluta pelo PT "quer dar golpe" no PT. Aliás, dentre os argumentos fortíssimos, estaria o de que o STF apoia o golpe por não julgar o Cunha (o mesmo Cunha que passou meses segurando dezenas de pedidos de impeachment contra a Dilma) e por não permitir que Lula seja ministro para escapar de processo.

Realmente, um esquema refinadíssimo! É a tentativa de ganhar no grito. Vamos lembrar que em 2010 Cunha saía por templos evangélicos defendendo Dilma contra boatos.

Se os fracos argumentos não colarem, o STF é golpista porque não fez o que os petistas e neo-petistas não mandaram. Na cabeça de muitos, se os nomeados pelo PT para o STF não seguem as ordens do partido estão envolvidos no "golpe". O stalinismo e o autoritarismo chegam a gritar.

O STF se acovarda diante de Cunha, isso é fato, como também é fato que Cunha já deveria ter deixado a presidência da Câmara, perdido o cargo e mesmo ter sido preso. Não é isto que está em debate.

A culpa é do STF, que o PT nomeou. A culpa é do Cunha, que o PT tratava como aliado no primeiro governo Dilma e pra quem deram cargos não tem 3 meses (o ministério da Saúde e o de Ciência e Tecnologia). A culpa é da [coloque aqui o que você quiser], menos do próprio PT. Menos das escolhas do PT, das decisões do partido, das políticas do partido, das cooptações, das lutas abandonadas, das alianças.

E nem mesmo os tímidos acenos de Dilma em seus últimos dias, com políticas que deveria ter imposto há anos, dão alguma esperança. Como escreveu a Vera Rodrigues:

"Olha aí no que deu tirar a Dilma, vejam as medidas que já estão encaminhadas e ou aprovadas pelo legislativo."

Em primeiro lugar, o governo se encaminhou para o suicídio político.
Vamos relacionar as leis aprovadas DURANTE o mandato da Dilma? E a Agenda Brasil que ela fechou com o aliado Renan? Além dos vetos presidenciais? O Legislativo é o mesmo. Eleito, aliás, também graças aos espaços abertos por alianças espúrias de um governo tão corrupto quanto vários ~nobres~ parlamentares.

Quem foca a suposta oposição apenas na dicotomia ~é golpe~/não é ~golpe~ "esquece" que ela deve ser muito mais ampla. Já deveria ter sido, desde o início do mentiroso clichê ~guinada à esquerda~, inclusive.

É verdade que cavalo dado não se olha os dentes, mas sério mesmo que tem alguém acreditando que as "bondades" (que na verdade são apenas OBRIGAÇÃO) de Dilma com indígenas, LGBts e etc são fruto de nada mais que cálculo político diante de uma situação desesperadora (para o PT)? E não me venham com "Dilma não fez antes por causa do congresso" porque Dilma tem o congresso em peso contra ela e MESMO ASSIM ela tem feito o que é de sua alçada.

Seja em benefício da(o)s trans, seja em benefício dos indígenas, ou mesmo no reajuste do Bolsa Família proposto pra primeiro de maio. Aliás, Dilma acenou aos indígenas, mas recuou e não apareceu na cerimônia para assinar as demarcações.

Boas medidas? Ótimas. Mas sejamos honestos, não vieram nem por bondade dela e nem porque a tal "guinada à esquerda" chegou. Diante da inevitabilidade de sua queda (ou ao menos de seu afastamento), Dilma achou aí a forma de tanto manter setores mobilizados por ela nas ruas (na esperança de que sejam capazes de reverter a decisão final do Senado), quanto de viabilizar o PT para 2018.

Não apenas o PT terá um discurso vitimista para usar (de novo) em 2018, quanto terá uma meia dúzia de ações positivas para apresentar que, em 2018, serão encaradas como medidas positivas e ponto, sem qualquer tipo de matização ou preocupação com as intenções reais e o desespero envolvido. Sim, cavalo dado não se olha os dentes, se aceita, mas comprar o cavalo (em 2018) são outros 500, assim como ganhar um pangaré e achar que é um alazão.

Acredito que muitos subestimam a capacidade da esquerda ser suicida. Olhem a turma gritando "não vai ter golpe" abraçados aos petistas. Não vejo problema em si com achar que é golpe (apesar de eu não ver golpe, mas um impeachment em meio a uma disputa de poder em que o PT perdeu), mas sair lado a lado com a turma "VAI PM"?

Aliás, setores petistas já começaram (na verdade voltaram) a atacar Junho de 2013 e a esquerda que tomou as ruas, buscando culpar mobilizações populares pela sorte do PT.

Junho de 2013 foi, de fato, o "turning point" que trouxe o PT até a situação atual. Mas não como os ratos governistas gritam, em desespero pela proximidade do fim das verbas que os sustentam. Não foi a esquerda nas ruas que "facilitou o golpe" e sim o governo que, à direita, reprimiu movimentos que buscavam impor aquelas diversas pautas abandonadas pelo PT no poder. Junho de 2013 foi uma tentativa das ruas de mostrar que a esquerda estava viva e lutando. O PT, à direita, se juntou ao PSDB para reprimir e matar esta esquerda.

Junho de 2013 é, enfim, o ponto sem retorno de um governo moribundo e direitista. Ali o recado à esquerda foi dado de forma clara e inequívoca. 2013 é um coringa, serve pra qualquer um - que não entendeu - justificar qualquer patacoada. É impressionante. Se 2013 ilustra algo é que a partir daquele momento não era possível ter ilusões de que o PT era de esquerda. E para FIESP e cia serviu pra mostrar que existia uma massa além da esquerda que era possível levar às ruas.

O Fernando Bastos Neto resumiu a situação:

"Junho foi (e ainda é) uma grande oportunidade, um momento que permite repensar a relação de todos com a política a partir de um consenso democrático. O que hoje chamamos de golpe, na verdade, não é a continuidade do que teve início em 2013, mas a destruição de seu legado. Se observarmos os comentários do vídeo acima, veremos que a maior parte deles são da ordem do: "e nada mudou", e é bem verdade. Junho foi uma oportunidade, também, para o governo. Uma oportunidade para o país começar a falar grosso com a FIFA, se recusar à chantagem barata de uma das organizações mais corruptas do esporte internacional. Uma oportunidade para o PT retomar suas bases de Direitos Humanos e propor uma ofensiva contra os excessos das polícias militares -- nunca houve, como naquele momento, uma revolta tão grande com a atuação desmesurada dos policiais militares. Foi a oportunidade única de construir um projeto de Reforma Urbana, em conjunto com uma sociedade mobilizada, investir mais em Saúde e Educação. Junho é, hoje, infelizmente, o nome de uma série de chances jogadas fora justo no momento em que o Brasil aprendeu a voltar às ruas."

O PT vai cair, vai ser recebido de braços abertos pela esquerda, continuará no comando de sindicatos e movimentos que já não voltarão mais e iremos nos ferrar de novo mais adiante. O PT não precisou de recursos federais pra ter todos esses movimentos nas mãos ANTES de chegar ao poder. O poder facilitou e mesmo consumou a cooptação, mas antes o processo já vinha forte.

Como escreveu César Benjamin:

"Um ciclo longo da política brasileira está terminando. Entramos em voo cego. Será preciso reconstruir referências, o que não é fácil.

Especialista em fazer o marketing do otimismo sem projeto, Lula foi uma espécie de Eike Batista da política. Também encantou multidões e, com isso, arrastou grande parte da esquerda. Entre os atores políticos, ela será a maior perdedora.

Ao longo da história, a esquerda resistiu a diversas tentativas de aniquilação, vindas de fora para dentro. Ao aderir ao lulismo - que abria aos seus quadros generosas oportunidades de ascensão social, afluência material e poder -, ela se deixou sucumbir por um processo inédito, lento e profundamente corrosivo: a dissolução de dentro para fora, pela perda de seus valores fundamentais."

Não que tudo seja desespero e nuvens negras. Temos nas ruas movimentos jovens nascendo, se multiplicando. Neste mesmo momento no Rio e em São Paulo escolas são ocupadas por jovens que não apenas não tem qualquer ligação com o PT ou com a velha esquerda que não larga o osso (ou o partido), mas que propõem algo novo e que escapam da lógica binária imposta.

Se isso será suficiente, só o tempo dirá.

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