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Eu, meu filho autista e colapsos em público

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ALEX E O FILHO
arquivo pessoal
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Alex é um menino doce.

Ele está feliz o tempo todo e raramente fica triste. Sua avaliação na escola é ótima e, se fôssemos avaliar seus comportamento em casa, ela também seria excelente.

É provável que não tivéssemos muitas coisas negativas a dizer, porque ele é comportado e sempre tenta nos agradar, além de tentar conseguir o que quer.

Seu relacionamento conosco, seus pais, é muito bom. Ele recebe beijos e abraços da mamãe e do papai aleatoriamente e também quando precisa. Sempre dizemos que o amamos.

Estava lendo A Fantástica Fábrica de Chocolate para ele ontem à noite, e ele me disse do nada:

"Papai, te amo muito."

Meu coração derreteu na hora. Emoções são complicadas para Alex. Ele não as processa como uma criança neurotípica. Imagino que os colegas de classe dele decidem sem problemas o que querem fazer no playground e, se estiverem entediados, procuram outra coisa mais satisfatória.

Meu filho, não. Ele para e não faz nada. Alguém tem de dizer que ele pode fazer outra coisa e onde elas estão. Isso é autismo.

Sim, ele é muito focado em si mesmo, um menino dentro de seu mundo, com seus próprios pensamentos, que percebe o mundo de maneira completamente diferente de mim e de você.

Ele costuma nos dizer que está brincando com Katie ou Iris e, quando fica entediado, não lhe ocorre que ele pode parar e fazer outra coisa. Ele está feliz, brincando com suas argolas, sozinho.

Mas está contente, e é isso o que importa.

É o mesmo quando ele tem um ataque. Normalmente é porque ele não consegue enxergar as coisas do nosso ponto de vista. Estamos tentando quebrar a rotina do que ele está fazendo, e isso, na cabeça dele, não é bom. Uma vez ele atirou um objeto em mim e quase quebrou meu nariz.

Ele foi se esconder porque eu dei um grito, mas não acho que ele compreenda o que faz quando está tendo um desses ataques.

De vez em quando, acontece em público, por causa do barulho ou de luzes muito fortes. Uma situação normal, para nós, para ele pode parecer alguém mirando uma luz nos seus olhos e gritando a plenos pulmões na sua orelha, ao mesmo tempo o espetando com mil agulhas.

Jamais saberemos. Tenho a sorte de não sofrer com essa sobrecarga sensorial, mas aposto que não é nada fácil.

E é incrível olhar para os ataques do passado, analisando tudo de ângulos diferentes e sabendo que era a coisa a certa a fazer. Mas na hora é muito mais difícil.

Situações e normas sociais não significam nada para ele. Ele pode ter um ataque no meio de uma biblioteca, se for o caso. É duro.

É duro quando você tenta acalmar as coisas no meio de desconhecidos, de gente que quer dar palpite - nunca são positivos.

Uma vez uma mulher segurou as pernas do meu filho sem pedir minha permissão e as colocou num carrinho de supermercado. Depois, ela saiu abanando a cabeça, dizendo:

"Homens! Bah."

Não teria demorado até que eu acalmasse ou distraísse meu filho. Obviamente minha situação piorou a percepção ruim que ela já tinha a respeito de homens.

Estranhos já me disseram para eu controlar meu filho malcriado, me olharam com cara feia, me deram conselhos que não pedi. Até mesmo profissionais deram opiniões nada profissionais.

Não estou nem aí para o que os outros pensam, mas também não sou invulnerável. Posso dizer com bastante sinceridade que não é nem um pouco agradável ver as pessoas julgarem a mim e à minha mulher quando nosso filho tem um ataque.

Nos sentimos pais fracassados. Porque no fundo sempre temos aquela dúvida:

"Será que poderíamos ter feito algo diferente?"

Normalmente nos apoiamos e lidamos com juntos com as situações mais difíceis, mas quando as pessoas julgam sem conhecer os fatos nossa autoestima é minada. Nos analisamos demais.

Por sorte, não ficamos muito tempo remoendo. Somos confiantes e não nos importamos demais com os julgamentos dos outros. Sabemos que é um problema recorrente na comunidade autista. Então, aqui vai:

Você não está sozinho.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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