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Comparar a Marvel à DC no cinema é inevitável

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Eu não listei tudo isso para levantar algum tipo de carteirinha, mas para ilustrar que dos meus 30 anos de vida, 27 foram consumindo produtos da DC. Mesmo quando os filmes foram ruins, mesmo quando as temporadas não conseguem me deixar feliz, eu sempre sou a otária que paga o ingresso do cinema, que assiste todos os episódios fillers, que sofre porque matam as minhas personagens favoritas. Mas eu sempre volto. E assim como eu, milhares de outros fãs passam pelas mesmas questões e sempre voltam. Eu quero e vou ver o universo da DC se desenvolver no cinema, mas eu também queria que ele fosse melhor.

Quando a Marvel iniciou o seu caminho para construir o MCU, eles não sabiam exatamente o que o MCU se tornaria. Hulk e O Incrível Hulk não foram pensados para fazer parte de uma história maior, por mais easter eggs que o segundo tenha. Homem de Ferro foi como um teste para sentir o público e, ao mesmo tempo, uma grande aposta, já que o herói não estava em pé de igualdade com os monstros clássicos da DC como Batman ou Superman. Mas eles foram tateando, sentindo o público e, a partir daí, delineando a história maior em fases, agregando histórias que antes não estavam programadas (como Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga), e juntando as pessoas. Filme por filme. Personagem por personagem. E como a fã de quadrinhos e de cinema que eu sou, eu sempre estive lá.

O que eu queria para a DC era exatamente isso. Mas ao invés de construir uma narrativa do zero, ao invés de planejar Homem de Aço como um ponto inicial para seu universo cinematográfico, a DC criou um filme que, além de ser uma pequena bagunça, também não deixava espaço para fundamentar a pedra de sustentação de um universo inteiro com heróis e mitologias tão distintas umas das outras. E isso foi coisa de mirim, coisa de garoto que entra em partida de Overwatch contra um time de D.Vas sozinho e com um Reaper.

Com o sucesso de Homem de Aço, a DC resolveu correr atrás da Marvel. Mas fez isso com pressa de chegar primeiro, de ser maior e de ser a diferentona, ignorando todos os anos que Marvel levou para ter o MCU de hoje. Nas mãos de Zack Snyder, o universo cinematográfico da DC nasceu uma bagunça de referências, de personagens, de narrativas que não fazem sentido dentro de si mesmas. O diretor optou pelo seu estilo pessoal ao invés de se manter minimamente fiel à personalidade e aos valores que tanto Superman quanto Batman carregam em mais de meio século de existência. A pressa de soltar um "filme de equipe", de correr atrás de Guardiões da Galáxia e de se mostrar "mais adulta" fez com que Esquadrão Suicida chegasse à mesa de produção antes mesmo de Liga da Justiça.

Parte do problema da DC nos cinemas é não olhar para os seus outros sucessos. Se hoje nós temos filmes com roteiros fracos, confusos e que parecem ter sido feitos na pressa, a DC tem décadas de experiência com animações e séries de televisão de sucesso. Por que não olhar para as pessoas que realizavam esse trabalho de qualidade e não buscar ali não só uma fonte de inspiração, mas também o conhecimento de como estruturar esse novo universo?

Batman vs Superman: A Origem da Justiça deveria ter sido o filme sobre a origem da Liga da Justiça, sobre a tríade se encontrando pela primeira vez e unindo forças. Mas, ao invés disso, a DC e Snyder decidiram colocar Bruce contra Clark, um confronto que demorou anos para acontecer nos quadrinhos, tudo isso num desespero em parecer "cool" e diferentão. Nas animações da DC, mesmo naquelas que são mais problemáticas, a Mulher Maravilha sempre está presente na construção da equipe, eles são A Tríade dos quadrinhos. Não tem nenhum herói da Marvel que seja tão conhecido quanto eles. Por que diabos iniciar um universo inteiro sem de fato termos um filme com os três? Por que não olhar para as animações e perceber um padrão que funciona e que poderia ser adaptado para o universo mais sombrio do cinema?

Com o aumento da discussão e da exigência por mais representação feminina, a DC se deu conta de que ela tinha uma mina de ouro nas mãos. O anúncio do filme solo da Mulher Maravilha fez com que os fãs ficassem alertas e ainda mais interessados, o que parece ter levado o estúdio a incluir uma participação maior da amazona em BvS. Só que, ao invés de ser algo orgânico, MM fez apenas uma participação digna de Deus Ex-Machina; sua presença, apesar de ser a coisa mais legal do filme, também está mal costurada à história de retalhos que é o roteiro de BvS. Esse devia ter sido o filme da Liga da Justiça, não da briga de dois garotões mimados com mães de mesmo nome.

O que eu esperava para a DC é que ela não tivesse saído correndo e queimando a largada. Queria que ela tivesse criado o seu próprio universo cinematográfico na sua própria velocidade, se dando conta de que não é uma competição. Não de verdade. Contanto que os filmes sejam lançados em datas diferentes, os fãs iriam fazer fila para qualquer um deles. Eu iria/irei ver Homem de Aço, Mulher Maravilha, Origem da Justiça, Flash, Esquadrão Suicida, Aquaman, Ciborgue, Liga da Justiça e todos aqueles que viessem/vierem depois deles. Mas seria melhor se os filmes tivessem sido pensados de maneira orgânica e organizada, dando o tempo que um universo desse tamanho precisa para realmente crescer, se sedimentar e funcionar dentro de si mesmo. Eu queria que a DC, ao invés de correr atrás da Marvel, tivesse aprendido com ela.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Capitão América: Guerra Civil possuem uma premissa muito similar: dois heróis indo um contra o outro. A diferença entre os dois filmes, além da qualidade do roteiro, está no modo como cada um deles foi construído. A Marvel passou anos desenvolvendo esses dois personagens, construiu a empatia do público para cada um dos personagens, para o relacionamento entre os dois e, só aí, ela criou a marca "Guerra Civil". Em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, a DC usou a marca para atrair o público, não os heróis. São dois personagens que nunca haviam se encontrado, um deles nem sequer teve um filme para ser apresentado, brigando um contra o outro num universo que ainda nem está construído, dentro de uma história cheia de buracos e que faz muito pouco sentido. Eu não acho Guerra Civil perfeito, mas olhar esses dois filmes, entender quais são as similaridades e ver onde os dois se distanciam é importante para entender o que a DC podia estar fazendo.

Com o público cada vez mais exigente, e com o espaço que os filmes de super-heróis tomam nos cinemas, é óbvio que a crítica especializada vai começar a analisar essa produção com um olhar mais atento. Antigamente, os estúdios precisavam ir atrás de diretores de renome, hoje são os diretores que correm atrás dessas franquias. São filmes estrelados por atores bons, dirigidos por diretores renomados ou em vias de se tornarem consagrados, que ocupam a imensa maioria das salas de cinema. A franquia Bourne, que já ocupou a maioria das salas de cinema do país, perdeu um espaço imenso com o lançamento de Esquadrão Suicida. É muito dinheiro, espaço e esforço direcionado aos filmes de super-heróis. Espera-se que eles tenham roteiros bem escritos, com uma direção interessante, personagens bem construídos. Que sejam mais do que fan service, que alcancem o público que lê quadrinhos, mas também o que não conhece os personagens e gosta desse tipo de filme de ação. A comparação entre as franquias Marvel e DC é inevitável e, quando qualquer uma das duas entrega um filme abaixo das expectativas, eles vão receber críticas negativas.

A DC já saiu na frente com o primeiro longa metragem de protagonismo feminino.; Esquadrão Suicida tem a equipe mais etnicamente diversa dos filmes de super-heróis; ela mudou a etnia do Aquaman, incluiu o Ciborgue na LJ e trouxe um pouco mais diversidade para uma equipe tradicionalmente tão branca. A DC tem todos esses pontos legais, não precisa correr atrás da Marvel. A Marvel, apesar de estar na frente no número de produções e na qualidade técnica dos filmes, ainda vai me fazer esperar três anos para o primeiro longa protagonizado por uma mulher e apenas agora, no final da Fase 3, nós fomos apresentados a um herói negro.

Nenhuma das duas editoras é perfeita, nem nos quadrinhos, nem nos cinemas. E não tem nada de errado em uma ter um clima mais leve enquanto a outra procura um mais sombrio. Mas é difícil não comparar Marvel e DC no que diz respeito à construção e à qualidade de seus universos. Desde a escolha de diretores que irão trazer algo positivo e diferente para os personagens e o universo, mas sem fugirem completamente do material original (James Gunn X David Ayer), passando pelo modo como ambas deram o pontapé inicial em suas franquias de equipe (Vingadores X Batman vs Superman: A Origem da Justiça/Esquadrão Suicida). Na verdade, com a recente contratação de Geoff Johns para supervisionar todos os seus filmes, eu acredito que é exatamente por causa dessa comparação inevitável que a DC parece estar (finalmente!) se dando conta de que quantidade e velocidade não querem necessariamente dizer qualidade.

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