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A respeito da depressão

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Visuals Unlimited, Inc./Carol & Mike Werner via Getty Images
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Em setembro foi lançada a campanha Setembro Amarelo, cujo objetivo é quebrar o tabu a respeito dos transtornos mentais e do suicídio, falando sobre esses assuntos aberta e francamente e estimulando pessoas com pensamentos suicidas a procurar ajuda. Vale a pena conhecer a iniciativa no site e na página do Facebook. Então resolvi republicar aqui no Huffington Post Brasil um texto sobre depressão que escrevi há alguns meses.

Na época em que escrevi este texto, minha timeline do Twitter discutia, chocada, a publicação do vídeo do estupro coletivo ocorrido aqui no Rio, há alguns meses. Naquele momento inicial, eu evitei saber mais detalhes além do fato de que ela havia sido drogada e estuprada por vários homens e muito menos procurei assistir ao vídeo: além de confiar no julgamento das pessoas que estão denunciando, acredito que esse tipo de material sensível deve ser analisado pela polícia, não por pessoas anônimas em redes sociais. O correto a se fazer em momentos como esse é denunciar e oferecer apoio à vítima, quando se há meios para tanto.

Passar por uma situação inimaginável como essa certamente já carrega sua carga suficiente de trauma e saber que centenas de estranhos podem estar assistindo e discutindo é algo que eu, se fosse a vítima, não conseguiria suportar. Como espectadora desse show de horrores, minha opção é evitá-lo. E por mais que eu consiga me manter afastada da fonte original, é cada vez mais difícil não se contaminar diariamente com toda a carga de negatividade de acontecimentos como este: ao entrar nas redes sociais, ficamos não apenas sabendo dos fatos, muitas vezes chocantes por si mesmos, como também precisamos nos deparar com comentários inacreditavelmente insensíveis, análises das mais diversas, e, muitas vezes, piadas e memes. Nos casos em que se trata de circo político ou midiático, entendo que o humor é uma válvula de escape que parece necessária, uma forma de amenizar o leve histrionismo que se sente diante do absurdo. Já naqueles como o citado acima, o humor se torna um desdobramento da violência inicial -- e costuma me atingir diretamente enquanto pessoa, enquanto mulher.

Em uma realidade em que em um dia estamos discutindo o assassinato de um fã obcecado de manhã, a violência policial à tarde, a sujeira política à noite entremeados pelos relatos de discriminação diversos compartilhados por conhecidos e desconhecidos, fica complicado alcançar o ideal de felicidade que a lógica do consumo tenta nos vender. A vida precisa continuar, as pessoas precisam produzir, as contas precisam ser pagas e a tendência natural é pairar pela superfície dos assuntos, sem conceder a eles uma reflexão um pouco mais demorada, sem se envolver demais. Pulamos de horror em horror buscando subterfúgio nos vícios e distrações mais variados. Apesar de tudo ir mal, sem uma perspectiva positiva da vida e uma dose de distanciamento, é impossível continuar vivendo. E em meio a isso tudo, o sofrimento é banalizado. Por consequência, minimizado -- quando não completamente invisibilizado. Principalmente quando este sofrimento é do outro. Se não conseguimos empatizar com ele, se não conseguimos nos sensibilizar com esse sofrimento, é como se ele não existisse.

***

Embora ainda não haja uma resposta conclusiva, me parece muito provável que as mulheres sejam as maiores vítimas de transtornos mentais devido a estarmos sujeitas a fatores de estresse desde novas: somos as maiores vítimas de abusos sexuais, de violência doméstica, de violência obstétrica, dos baixos salários (nos casos em que se ganha um salário, quando a mulher não é completamente dependente da família), das jornadas triplas, dos padrões inalcançáveis de beleza e etc. Já faz parte do imaginário social o estereótipo da mulher louca, da mulher histérica, da mulher que desmaia, da mulher de nervos frágeis. Em contrapartida, os transtornos de espectro autista são quatro vezes mais comum em homens e, apesar das estatísticas darem conta de uma pessoa dentro do espectro para cada cem, acho inquietante a noção de que há mais homens antissociais, enquanto há mais mulheres deprimidas. Em uma sociedade em que a discussão sobre saúde mental me parece ainda insuficiente e muitas pessoas que sofrem com algum distúrbio não são diagnosticadas, talvez exista alguma relação aí. Mas divago, essa não é a minha área. O que me importa aqui é a dor silenciosa e incompreendida que as pessoas com transtornos mentais carregam.

Como uma pessoa que passou por uma depressão crônica, com um quadro de anorexia e transtorno do pânico, e ainda não se libertou completamente dos seus resquícios, sei como é viver entre a angústia, o terror e o vazio que acontecem do lado de dentro, ainda que o lado externo pareça absolutamente normal para os que estão de fora. Para aqueles que nunca sofreram de depressão, a doença parece um luto, uma profunda tristeza que um pouco de força de vontade e movimento seriam capazes e curar. Tristeza, luto e desânimo são sentimentos que todos experimentamos e quem sem dúvida fazem parte do pacote, mas a depressão não é isso; antes, é também o oposto: uma certa ausência de sentimentos. Um estado de apatia tal que gera uma tremenda ansiedade, uma enorme culpa acompanhada de uma angústia que nos coloca em um espiral descendente: não apenas a realidade e as atividades cotidianas deixam de fazer sentido, o seu corpo também se recusa a funcionar adequadamente. Você simplesmente não tem mais forças para levantar da cama. Não tem apetite. Perde o sono na hora em que deveria dormir. Somatiza. Não é como se estivesse doente, você está doente. E não sabe direito por quê. Isso gera uma angústia muito grande: de repente, muitas vezes no auge da sua vida e forma física, você se vê como um peso morto e sombrio, incapaz de produzir, de manter relacionamentos e de viver uma vida normalmente. Como na Metamorfose de Kafka, a sensação é de acordar transformado em um inseto grotesco e insignificante, que acaba sendo deixado de lado pelos outros.

Em um texto publicado na revista piauí, a escritora e crítica literária Daphne Merkin descreve de forma clara e certeira o estado de uma pessoa deprimida:

"Acho que jamais conheci uma pessoa depressiva que quisesse sair da cama pela manhã -- que não vivesse o raiar do dia como uma convocação para se enterrar ainda mais debaixo das cobertas, de modo a poder aferrar-se à noite já extinta. (...) Nas poucas horas em que passava desperta sentia uma exaustão letal, como se nadasse numa piscina de piche. Os recados telefônicos ficavam sem resposta, os e-mails nem eram lidos. A ideia de escrever me era tão estranha quanto uma competição olímpica. Eu mal comia, já perdera mais de 13 quilos. Tinha desistido de qualquer comunicação. Quando falava, era quase sempre sobre suicídio.

Apenas uma pequena parte de mim conservava a lembrança da pessoa que eu já tinha sido. Era cada vez mais difícil me imaginar ocupando de novo aquela versão de mim mesma. A depressão acabou por se tornar a coisa que me definia, preenchendo todo o espaço disponível, sem deixar margem para a possibilidade de um 'antes' ou um 'depois'. (...) Como [todas as outras pessoas] tinham conseguido encontrar um modo de viver sem se atolarem nas sombras? De que fonte retiravam a sua energia? Eu não conseguia imaginar que um dia voltasse a participar desse mundo."

Então, o que fazer? Em um mundo que nos bombardeia a todo instante com estímulos negativos mas nos exige felicidade, em uma realidade em que mulheres estão mais sujeitas à violência e aos transtornos mentais -- ainda que ninguém esteja livre disso -- , e boa parte das pessoas simplesmente não consegue se sensibilizar diante do sofrimento alheio, como encontrar forças para sobreviver à uma depressão? Bem, o primeiro passo é sempre buscar ajuda profissional. Um bom começo é não se envergonhar de admitir o problema e buscar ajuda: a depressão é uma doença e de ser encarada como tal: doenças são estados excepcionais que exigem tratamento. Buscar redes de apoio também alivia e muito. Além disso, ajuda ter em mente que esse é um caminho solitário, em que cada um vai encontrar exatamente o que precisa de acordo com suas necessidades. Comigo o ciclo se completou com o passar do tempo (durante longos oito anos, entre melhoras e recaídas), e fez com que eu naturalmente voltasse à vida. Mesmo assim não foi e continua não sendo fácil, exige de mim um contínuo e tremendo esforço de adaptação e de deixar para trás crenças, medos, atitudes, perspectivas e, principalmente, laços afetivos que me intoxicam. Já me pareço palidamente com a pessoa que um dia fui, mas não completamente.

Jenny Lawson, autora de Alucinadamente Feliz, livro em que aborda sua vida com distúrbios mentais cuja reação a tanta infelicidade foi contra-atacar sendo, ironicamente, "alucinadamente feliz" faz uma boa observação: "Não é culpa sua se o medicamento ou a terapia que indicaram não funciona perfeitamente, ou se parou de funcionar. Você não é um problema de matemática. Você é uma pessoa. O que dá certo para você nem sempre vai funcionar para mim (e vice-versa), porém acredito que existe um tratamento para cada um que se der o tempo e a paciência necessários para encontrá-lo". É isso. A clareza de perceber que há sempre uma nova chance, que todo estado é cíclico e nenhum sofrimento é eterno dá, senão a força, pelo menos a resignação necessária para se permitir vivenciar a depressão e perceber que uma vez no fundo do poço, o movimento só poderá ser ascendente, leve ele o tempo que precisar.

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