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Entrevista: Martha Batalha retrata a vida invisível das donas de casa cariocas

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A história sobre a publicação de A vida invisível de Eurídice Gusmão é interessante: ex-jornalista e ex-editora da Desiderata, Martha Batalha decidiu escrever o seu primeiro livro e o ofereceu a várias editoras brasileiras. Todas recusaram.

"Quando minha agente apresentou o livro para editoras brasileiras o mercado editorial estava em crise. O governo, um dos principais compradores das editoras, tinha interrompido vários programas de leitura. Investir em um novo autor é um risco que a maior parte das editoras não podia tomar naquele momento", conta ela. "De certa forma foi bom para o livro, porque depois de receber várias respostas negativas eu e minha agente, Luciana Villas-Boas, não desistimos. Reeditei o romance mais uma vez (foram muitas!), tornando-o mais polido".

A insistência de Batalha e sua agente deu certo: ao apresentar o livro na Feira de Frankfurt, as editoras estrangeiras se encantaram e nada menos que dez delas adquiriam os direitos de publicação - entre elas a alemã Sührkamp e a espanhola Seix Barral.

Após esse feito incomum para um livro de estreia, a editora Companhia das Letras resolveu voltar atrás e publicar este divertido romance que fala sobre duas irmãs cariocas, Eurídice e Guida, que em meio aos anos 40, tinham como a melhor perspectiva de vida a possibilidade de serem boas esposas, donas de casa e mães.

Mulheres em sua maioria invisíveis e impossibilitadas de protagonizar a própria vida. Com uma prosa fluída e senso de humor afiado, Batalha consegue costurar diversas outras histórias de homens e mulheres no Rio de Janeiro do início do século XX dentro da história principal de Eurídice Gusmão, essa mulher que Poderia Ter Sido e Não Foi - como tantas outras.

Apesar de feminista até o talo, embora sem jamais soar panfletário, há uma ressalva importante de ser feita: embora Batalha afirme que a história das mulheres contada no livro sejam a de "nossas avós", essas mulheres são, em sua maioria, as de classe média e brancas.

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"Tive que escolher um ponto de vista para contar essa história, e este ponto de vista é o da mulher branca de classe média", defende a autora, ressaltando que "não há nada de errado nessa escolha, e tudo aquilo que acontece com a protagonista é universal".

Falando ao Huffington Post Brasil por e-mail, Martha Batalha destrincha a ideia por trás de A vida invisível de Eurídice Gusmão, fala sobre feminismo, racismo e o quanto de ecos da sociedade dos anos 40 ainda estão presentes na classe média carioca atual.

O que inspirou você a escrever o livro? Pode comentar um pouco sobre como foi a concepção dele?

Eurídice chegou para mim aos poucos. Ela era esta mulher extremamente inteligente, nascida nos anos 1920. Queria fazer muitas coisas, mas toda a hora que encontrava algum projeto que gostava acontecia alguma coisa no entorno, e o projeto fracassava. Logo percebi que Eurídice não seria definida pelo que fazia, mas pelo que não podia fazer.

Na medida em que escrevia outros personagens apareceram, e todos foram marcados pela impossibilidade. É o dono de uma papelaria que não consegue se casar por causa da mãe controladora, ou uma dona-de-casa que poderia ter sido numa excelente repórter, mas a carreira era impensável para uma mulher na época. O romance se tornou, então, a história das não-realizações, que eu tentei contar com ironia, e num estilo que cativasse o leitor.

Outra questão que marca a narrativa é a da herança familiar. Isso sempre me interessou. Se você pensar na pessoa que é hoje, ela não é fruto apenas das suas escolhas, mas das escolhas dos seus pais e avós. Alguém pode ter mudado de país, ficado milionário ou perdido tudo. Morrer cedo e não ter oportunidade de criar os filhos, separar-se, casar de novo. Todas as famílias têm histórias interessantíssimas, e procurei relatar algumas no livro.

A história envolvendo a publicação do livro é interessante por si só, tendo sido divulgado primeiro no exterior antes mesmo de ser lançado por aqui. A que você atribui essa rejeição inicial? E o que pensa ter sido o diferencial que encantou as editoras estrangeiras?

Não sei dizer o que encantou as editoras estrangeiras. Posso dizer que procurei fazer um livro com boas histórias, e que fosse gostoso de ler. Um livro que funcionasse como um retrato da classe média daquela época, com todos os seus sonhos, conquistas e imperfeições. Queria que meu leitor ouvisse "o canto da sereia", que começasse a leitura, se encantasse com o ritmo e as histórias, e não conseguisse fechar o livro. Pensei o tempo todo no leitor brasileiro, mas talvez essa conexão com o texto também tenha agradado às editoras estrangeiras.

Sobre a venda para o exterior antes da publicação no Brasil: Quando minha agente apresentou o livro para editoras brasileiras o mercado editorial estava em crise. O governo, um dos principais compradores das editoras, tinha interrompido vários programas de leitura. Investir em um novo autor é um risco que a maior parte das editoras não podia tomar naquele momento. Por isso credito as negativas que o livro recebeu à situação da indústria editorial, e do Brasil. Não foi por uma questão de qualidade do original. De certa forma foi bom para o livro, porque depois de receber várias respostas negativas eu e minha agente, Luciana Villas-Boas, não desistimos. Reeditei o romance mais uma vez (foram muitas!), tornando-o mais polido. Se ainda assim ninguém quisesse publicar, ao menos eu tinha tentado o meu melhor, e poderia seguir tranquila com minhas escolhas.

Recentemente, houve uma polêmica envolvendo as características de ser bela, recatada e do lar como uma qualidade feminina de destaque. As feministas ficaram divididas: enquanto a liberdade de escolha de se ser o que quiser é uma bandeiras do movimento, algumas mulheres argumentaram que ser 'do lar' deixa a mulher em uma posição que vai de encontro a tudo que o feminismo prega: autonomia financeira para poder se livrar de relacionamentos abusivos, se manter no mercado de trabalho, investir em si mesma e ter bens próprios, sem depender de ninguém. Em seu livro, vemos um pouco disso: Eurídice, uma mulher brilhante, decide ser uma mulher 'do lar', mas acaba presa a uma vida sem autonomia. Pode comentar um pouco a respeito da sua visão sobre o assunto?

Acredito que ficar em casa é uma opção, principalmente quando se tem filhos pequenos. Feminismo não é exigir das mulheres carteira assinada. Feminismo é exigir que elas tenham escolhas. Nos Estados Unidos, onde moro, é muito comum ver mulheres saírem da força de trabalho depois de terem o primeiro filho. Elas passam alguns anos em casa e depois voltam.

Mas o caso incomoda não pelas escolhas dela mas pela escolha da expressão "do lar" como um elogio."Do lar" é uma opção, e não um elogio. O errado é passar a ideia de que a mulher ideal é aquela que é "bela, recatada e do lar".

Apesar de ter renunciado a seus sonhos, Eurídice é resignada e se adapta bem a sua vida, chegando mesmo a conseguir subir de classe social, deixando para trás a sua vida no subúrbio tijucano - importante mencionar que isso é graças à posição de seu marido. Tivesse ela a oportunidade de continuar seus projetos, imagina que sua dinâmica em relação à família seria diferente? Explico: seria Eurídice mais feliz caso possuísse autonomia para ser além de uma mulher 'do lar'?

Acho que sim. Eurídice tem o tipo de perfil da pessoa que precisa empreender, produzir, se sentir útil. Quando estava escrevendo o livro pensava nas muitas mulheres que eram e são como Eurídice, e não conseguiram, ou conseguem, se realizar. Isso me incomoda muito, o desperdício de potencial.

No prefácio você afirma que a história de Eurídice e Guida é a história das suas e das nossas avós. Embora Guida acabe personificando a vivência de muitas mulheres de baixa renda, com suas dificuldades financeiras, sujeitas a abusos morais e sexuais e ficando a cargo da criação dos filhos de mulheres da classe média, o recorte feito no livro é bem específico: a história que é contada é a da mulher branca e de classe média. Há uma menor representação da vivência de mulheres pobres, principalmente as negras. Você tem receio de que apenas um determinado público vá se identificar com o livro?

Nenhum. Tive que escolher um ponto de vista para contar essa história, e este ponto de vista é o da mulher branca de classe média. Não há nada de errado nessa escolha, e tudo aquilo que acontece com a protagonista - mulher branca de classe média - é universal. Ou seja - acredito que todas as mulheres vão se identificar com Eurídice, independentemente de raça, classe social ou país.

Agora, é um livro que levanta muitas questões, como a forma com que as mulheres brancas de classe média no Brasil se relacionam com as mulheres negras de classes mais baixas, e vice-versa. Existe entre elas uma relação complexa e por vezes simbiótica (é a empregada das Dores, no livro, que mais sabe sobre a vida de Eurídice, e se preocupa com ela).

Pela minha leitura, o ponto de vista adotado no livro é o da sociedade branca e patriarcal, padrão no início do século passado. Ainda a respeito da população negra, a narração parece emular a maneira separatista de se referir a essas personagens: temos "o mulato", "a negra", o que não acontece com personagens brancas. Minha pergunta é se houve uma intenção de escancarar o racismo da sociedade da época, que colocava o negro como 'o Outro'?

É exatamente este o ponto de vista. O da sociedade branca e patriarcal, que é, até hoje, a base da nossa sociedade. Mas sendo muito sincera, eu nem tive a intenção de escancarar o racismo. É só contar uma história deste período que ele aparece, sem forçar a barra. O narrador usa termos da época, às vezes com certa ironia. Interessante você dizer isso, porque tive uma longa conversa com minha editora, a Sofia Mariutti, sobre o uso da palavra mulato no texto. Ela queria que eu tirasse, eu optei por deixar. O contexto é o seguinte (cito trecho do livro):

"De vez em quando um ou outro Godoy ou Morais se livrava da maldição da semelhança, o que deve ser agradecido a Deus e à mãe, que sentia um fogo imenso sob os babados da saia, aliviado, ao longo dos séculos, por dois padres, três médicos, um bandeirante perdido pelas serras do Rio e cinco mulatinhos."

Queria deixar porque o mulatinho, aqui, aparece como brinquedo sexual. Não podia dizer menino (porque não queria dar ao leitor a opção de que poderia ser branco). A palavra mulato tinha, e ainda tem, esta conotação sexual. E nem é um mulato qualquer, é um mulatinho. O diminutivo deixa o menino ainda menos importante. Em Casa Grande e Senzala Gilberto Freyre diz que "não há escravidão sem depravação sexual - é a essência mesma do regime." É uma frase dolorosa, principalmente para os descendentes dos negros subjugados. Mas não foi inventada por Gilberto Freyre, ou por mim. Faz parte da nossa história. E, na minha opinião, se eu conto uma história desta sociedade, neste contexto, é preciso tocar no tema sem preocupações politicamente corretas.

Você acredita que ainda possível de se ouvir os ecos e trejeitos até hoje da classe média carioca retratada em sua história?

O tempo todo! Esta é uma das grandes batalhas que vemos no Facebook e nas ruas, nos últimos tempos. Existe esta sociedade extremamente conservadora, machista, patriarcal, que quer dar as cartas, e toda uma nova geração gritando para não acontecer. E nem temos que falar de anos 40 ou 50, quando se passa a história do livro. Se você for ler ou reler Casa Grande e Senzala e Sobrados e Mocambos, que trata das famílias do período colonial e durante o primeiro e segundo reinados, verá o quanto estes livros são atuais.

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