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Durma, menina. Sei que é difícil, mas estamos nós duas aqui, agora, e estaremos aqui sempre. Nós duas.

Sim, eles vão entrar em seu quarto, sem imaginar que isso a ofende, porque está fechado há tanto tempo; suas bonecas estão lá há tanto tempo, e sua cadeira está lá há tanto tempo, e sua cama está lá há tanto tempo que nada lhes parecerá errado. Você chora, eu sei, e chore, porque nada podemos fazer. Talvez você queira derrubar uma ou outra coisa só por pirraça; não a vou repreender: o colo desta velha senhora estará aqui com você para sempre.

Se mexerem nos móveis, se abrirem as cortinas, se tirarem algumas das coisas que lhe são preciosas, nós as pegaremos de volta. Não se preocupe. Afinal, nosso porão, ah... esse duvido que encontrem.

Mas hoje, agora, a casa é deles. E lhe digo, fomos afortunadas por todo o tempo em que estivemos sozinhas aqui, você com seus oito anos e eu com meus... ah, não precisamos falar disso, não é? (E riem)

Deixe que entrem, eles não nos podem ver. Se lhe dá vontade de alguma traquinagem, já disse, vá em frente. Talvez me faça rir um pouco. Talvez eles ouçam esse riso e isso nos faça rir ainda mais. Mas a casa é deles agora. Sejamos gratas por não derrubarem este lugar para dar espaço a algum daqueles arranha-céus com milhares de andares de altura. Esta casa merece reforma, mas merece respeito: estar como sempre esteve, altiva, senhora de si: como nós sempre a mantivemos, afinal, por todos esses cento e poucos anos.

Durma, criança. Eles um dia seguirão seu caminho; nós estaremos sempre aqui.