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A nova favela brasileira

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Olhe ao seu redor. Pense nos seus amigos mais próximos e responda: quantas pessoas você conhece que moram em favelas?

Ao todo, 11,7 milhões de brasileiros moram em favelas. Mulheres e homens que, como tantos no nosso país, batalham no dia a dia e comemoram cada conquista. Moradores de um território que, muitas vezes, só aparece nas páginas policiais, em escassas ações sociais de empresas e entidades ou quando alguma celebridade internacional resolve conhecer o que chama de um "ponto turístico exótico".

No último mês, eu e o Celso Athayde, fundador da C.U.F.A., procuramos traduzir em números o que temos aprendido há mais de uma década conversando com esses brasileiros, seja na organização da Central Única das Favelas, seja no Data Popular. Ouvimos 2 mil moradores de favela de todo Brasil para mapear a visão de mundo, padrões de consumo, medos e sonhos destes milhões de brasileiros que, agrupados, formariam o quinto maior estado brasileiro. Isso mesmo, acreditem, temos mais moradores de favela que gaúchos no Brasil.

Certamente ainda há muito a se avançar na qualidade de vida dos moradores de favelas: 73% consideram violento o local onde vivem, 59% afirmam que moradores de favelas sofrem preconceito e 29% já se sentiram discriminados. Mas, por outro lado, não se pode negar o resultado trazido por mudanças que ocorreram nas favelas nos últimos anos: 81% gostam de viver na favela onde estão, 62% declaram ter orgulho de pertencer à comunidade onde moram e 2/3 não gostariam de sair da favela para morar em outro bairro. A expectativa é de que a favela continue melhorando: para o próximo ano, apenas 16% acham que a favela onde moram vai ficar mais violenta e 76% acreditam ela vá melhorar.

Hoje, a renda dos moradores de favelas chega a R$ 63 bilhões por ano. O volume, extraordinário, equivale quase à soma do consumo do Paraguai e da Bolívia juntos. A intenção de compra de produtos eletrônicos, como tablets e notebooks, passam dos milhares. 47% dos moradores de favela já têm televisores de LED / LCD / plasma em suas casas e 28% têm TV por assinatura. É um consumo pujante, mas que ainda obriga muitos consumidores a descer o morro para concretizar sua compra, pois nem sempre encontram lojas na vizinhança que atendam às suas necessidades e desejos.

Estes poucos números são apenas a ponta do iceberg de oportunidades trazidos pela primeira pesquisa Radiografia das Favelas Brasileiras do instituto Data Favela. Uma iniciativa que pretende ir muito além de mostrar este bilionário nicho de consumo.

Grande parte dos moradores de favela vivenciaram um passado onde eram deixados de lado quando se pensava em consumo (para se ter uma ideia, 53% já passaram fome). Hoje, grande parte dos moradores de favelas ingressou no mercado de consumo - mas ainda são poucas as empresas que sabem se aproximar desse novo consumidor. O que ele espera é um empresa parceira. Parceira nas suas conquistas e na sua melhora de vida (76% dizem que a vida melhorou no último ano e 93% que a vida vai melhorar no próximo ano) e parceira no seu dia-a-dia. Ser parceiro da favela não é desbravar sozinho esse horizonte de possibilidades de vendas, mas olhar para esses novos consumidores despido de preconceitos. Ser parceiros é dividir com eles essa oportunidade, gerando emprego e renda locais e apoiando, efetivamente, a melhora de vida que os moradores das favelas têm tanto orgulho de nos contar.