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Por que Donald Trump pode ganhar a eleição dos Estados Unidos

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DONALD TRUMP
ASSOCIATED PRESS
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Uma nova pesquisa "Washington Post/ABC News divulgada recentemente aponta Donald Trump e Hillary Clinton num empate estatístico, com Trump à frente de Clinton por 46% a 44% entre os eleitores registrados.

É um avanço de 11 pontos percentuais contra Clinton desde março.

Uma nova pesquisa NBC News/Wall Street Journal, também divulgada domingo, mostra Clinton com 46%, contra 43% de Trump.

Antes, ela liderava com 50% das intenções de voto, contra 39% de Trump.

Pesquisas tão distantes da eleição não querem dizer muita coisa. Mas, neste caso, elas levantam uma questão importante.

Nas duas semanas desde a confirmação de sua virtual vitória nas primárias republicanas, Trump vem sendo alvo de uma cobertura cada vez mais desfavorável - sobre seu tratamento das mulheres, sua propensão a mentir, suas propostas bizarras.

Antes disso, houve meses de cobertura sobre sua intolerância, sua megalomania, seu narcisismo, sua xenofobia, sua recusa em condenar a violência em seus comícios e em se distanciar de supremacistas brancos.

Então como é possível que Trump esteja empatado com Hillary Clinton?

Durante as primárias republicanas, analistas e especialistas nos disseram repetidas vezes que ele tinha atingido seu teto, que suas mais recentes declarações ultrajantes seriam o começo do fim, que ele tinha uma taxa de rejeição tão alta que não havia possibilidade de ele ser o candidato do partido nas eleições presidenciais.

Mas, em minhas viagens pelo país, encontrei muita gente que o apoia justamente por causa dessas características que são alvo de críticas.

Uma latina de Laredo, no Texas, diz que ela e a maioria dos seus amigos são pró-Trump porque ele quer impedir a entrada de imigrantes mexicanos. Ela acha que muitos deles vieram para o país de forma ilegal, o que complica a vida dos que estão em situação legal.

Um sindicalista de Pittsburgh diz que apoia Trump porque ele vai ser duro contra as empresas americanas que exportam empregos, duro com os chineses, duro com os muçulmanos.

O dono de um pequeno negócio em Cincinnati diz que apoia Trump porque "Trump não é político. Ele vai ser duro com os políticos de Washington".

Analistas políticos subestimaram Trump desde o início porque estão olhando para a política pelo espelho retrovisor. A ascensão de Trump sugere um novo tipo de política. Podemos chamá-la de antipolítica.

A política de antigamente opunha esquerda e direita. Depois de assegurar a indicação de seus partidos, os aspirantes à Presidência caminhavam rumo ao centro.

A antipolítica opõe pessoas bem informadas de Washington, executivos de grandes empresas, banqueiros e magnatas da mídia contra um número crescente de pessoas que acham que o jogo tem cartas marcadas. Não há centro, apenas hostilidades e suspeitas.

Os americanos que acham que estão sendo ferrados são atraídos por um bully autoritário - um durão que vai sair dando porrada por aí. O ex-apresentador de reality show que não se cansava de demitir os participantes de seu programa parece durão o suficiente para desafiar os interesses velados que dominam Washington.

É irrelevante que a maioria dos americanos não goste de Trump. Como me disse um morador do Meio Oeste do país algumas semanas atrás: "Ele pode ser um idiota, mas é o nosso idiota".

Analogamente, nesta era da antipolítica, qualquer candidato que pareça pertencer ao establishment político está em situação de grande desvantagem. Esse pode ser o grande calcanhar de aquiles de Hillary Clinton.

A política antiga depende de discursos cuidadosamente lapidados e propostas calculadas para agradar a certos contingentes de eleitores. Nesse sentido, as propostas e discursos de Clinton são quase impecáveis.

Mas, na nova era da antipolítica, os americanos são céticos em relação a esses discursos bem-acabados e essas propostas detalhadas. Eles preferem autenticidade. Eles querem que seus candidatos não tenham filtros nem sigam roteiros.

Um executivo de nível médio de Salt Lake City me disse que não concorda com tudo o que Trump defende, mas o apoia porque "o cara é pra valer. Ele fala o que acredita, e você sabe a posição dele".

Na política antiga, partidos políticos, sindicatos, grupos empresariais e a imprensa intermediavam candidatos e o público - explicando as posições dos candidatos, apoiando-os, organizando e mobilizando os eleitores.

Nesta era da antipolítica, qualquer pessoa com ego, dinheiro e audácia suficientes - ou seja, Donald Trump - faça tudo sozinha: declare-se candidata; comunique-se com os eleitores via Twitter e outras redes sociais; receba mídia gratuita na grande imprensa fazendo declarações ultrajantes, politicamente incorretas e maliciosas. Apoios oficiais são irrelevantes.

Trump aperfeiçoou a arte da antipolítica numa época em que o público detesta a política tradicional. É por isso que tantos especialistas na política de antigamente subestimaram suas chances.

E é por isso que a demagogia de Trump - canalizando os preconceitos e medos dos americanos que estão perdendo espaço - faz dele o candidato mais perigoso de um grande partido na história dos Estados Unidos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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