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Existe um caminho possível para formar cidadãos conscientes?

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O século 20 nos deixou com a marca de duas grandes guerras e um período de polarização mundial. Ele também nos mostrou que as ciências e as tecnologias trazem a possibilidade de grandes confortos e benefícios - como, por exemplo, ler esse texto em um computador que está localizado em uma sala com ar.

Além disso, há uma grande possibilidade que você, ao ler esse texto, esteja recebendo uma mensagem no Whatsapp ou qualquer outro aplicativo de mensagens via internet. Também é possível afirmar, sem muito medo de errar, que você possui um cadastro em alguma mídia social e, se não o tem, talvez tenha e-mail ou seus colegas façam uma grande pressão para que você tenha.

Outro ponto que não podemos deixar de destacar é que hoje se você quiser fazer uma viagem, essa viagem será muito mais fácil do que há tempos - seja em termos financeiros, de tempo ou comodidade - tanto a nível nacional quanto internacionalmente. Nessa viagem pelos estados de seu país ou por algum outro lugar você irá encontrar, com certeza, muita gente diferente de você.

Se você está presente nas mídias sociais, como por exemplo, no Facebook ou no Twitter, mesmo que você restrinja o número de amigos ou a visualização para assuntos de mais interesse para o usuário, você estará em contato com diversas formas de pensar o mundo e essas diferentes formas de ver o mundo sendo construídas por diversos valores.

Esse contato direto e intenso com outros-diferentes, seja em forma virtual ou presencial, é marca de nossa época. Entretanto, não podemos nos iludir com a percepção de que as Ciências e Tecnologias apenas foram benéficas para a sociedade e nem que os "confortos e benefícios" foram para todos.

Ao escrever na internet a frase "A faca que corta a carne do churrasco pode matar um ser humano", teremos o comentário de um bom comedor de churrasco falando "- nossa, é verdade!"; Também teremos o comentário de um protetor dos animais falando "- como assim esse cara ta dizendo que não existe mal na morte de um animal"? E por ai vai.

Se a existência de diversos valores sociais já estava presente no mundo, a existência das mídias sociais deu mais voz a essas diversas formas de pensar o mundo.

Os mais antenados na linguagem da internet dirão "A treta está plantada".
Tenho que concordar.

Mas não é só isso [Leia com a voz do vendedor da Polishop]. Essa diferença de valores também está presente no ambiente escolar.

Durante muitos anos a maioria das Escolas - composta pela figura de professores, diretores e outros personagens do cenário escolar -, tentaram "camuflar" as diferenças, como se elas não estivessem presentes ou pudessem ser esquecidas. São marcas disso os uniformes, os números de chamada, as escolas só para meninos, etc. Os conteúdos escolares ainda expressam uma forma de "ver o mundo" caracterizada pelo suposto público alvo ao qual o material se destinava - e acreditem, esse público alvo não eram os pobres, os negros, as mulheres ou os moradores do campo.

Com a intensificação das relações entre outros-diferentes, dada pelo crescimento dos fluxos comunicativos e migratórios, tornou-se insustentável essa camuflagem das diferenças culturais e sociais, de forma que hoje já é possível perceber um forte movimento (expresso tanto em organizações como em leis ou projetos indicados a serem implementados) de afirmação das diferenças e busca por igualdade social.

Comecei o texto afirmando que o século 20 nos deixou marcas profundas. Vivemos tentando reparar erros de nosso passado como humanidade e, por isso buscamos uma escola centrada em valores humanos (Menos os manes que defendem volta de ditadura militar).

Afirmamos no Brasil uma escola para "Todos" e traz o objetivo de "formar para a cidadania".

Afirmamos que esse ideal de escola para "todos" não se faz possível se as diferenças não forem respeitadas e contarem com representatividade no cotidiano escolar. Se antes a lógica escolar não contemplava as minorias (Mulheres, LGBTQAI, pobres, trabalhadores rurais, negros, indígenas, etc), hoje lutamos para não ter retrocessos.

A luta para não ter retrocessos é sinal de que o avanço ocorreu.

Como nem tudo são flores, é preciso que a comunidade escolar assuma valores sociais que fogem de muitas trajetórias de vida para as quais fomos induzidos a traçar. Quem de nós não foi educado reforçando machismos, considerando "cultura" aquilo que uma elite econômica atesta como "cultural"?

Por outro lado, quem de nós foi educado (pela família ou pela escola) para repensar discursos machistas, racistas, homofóbicos, classistas, presentes entre nós?

Como educar no século 21 sem o compromisso com uma profunda "reinvenção" do cotidiano escolar?

Se a Educação do século 21 deve ser uma educação centrada em valores humanos, ela só será efetiva quando nos sensibilizarmos. Só será possível quando o convívio com o outro nos faça aprender.

Me recuso a acreditar que, quando Paulo Freire dizia "não existe ensinar sem aprender" ele estava falando apenas de conteúdos de matemática, química, física, português, etc. Não existe ensinar quando nos fechamos para a diversidade mundo e para a diversidade existente na escola. Ao ensinar com valores humanos, aprendemos a humanidade.

O caminho possível para formar cidadãos é o caminho de nos formarmos cidadãos, enquanto formamos cidadãos. É o aprender com o outro e, juntos, participar na transformação da sociedade.

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