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A vitória de Daniel Ortega na Nicarágua e a eleição esquecida entre interesses dos EUA e da China

Publicado: Atualizado:
DANIEL ORTEGA
RODRIGO ARANGUA via Getty Images
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Dois dias antes das eleições nos Estados Unidos, os nicaraguenses tiveram a chance de ir as urnas para escolher o próximo presidente. Daniel Ortega, ex líder guerrilheiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e Rosário Murillo, sua esposa e candidata a vice-presidente na mesma chapa, saíram vitoriosos e governarão o país nos cinco anos. Esta é a quarta vitória eleitoral de Ortega. Ele venceu em 1984, ainda como líder da Revolução Sandinista. Depois, Ortega venceu novamente em 2006 e se reelegeu em 2011, com um discurso mais moderado, na onda progressista-liberal-desenvolvimentista que marcou a América Latina na última década.

Este ano, o Governo Ortega, com maioria no parlamento, alterou a constituição para derrubar o limite a reeleição. Assim, Ortega pode se candidatar mais uma vez. Além disso, a Corte Nacional de Justiça, na qual a maioria dos magistrados é simpática à FSLN, retirou Eduardo Montealegre, principal opositor de Ortega, da presidência do Partido Liberal Independente (PLI), após ação legal de Pedro Reyes, líder da facção de oposição dentro do mesmo partido. Como consequência, vinte e oito deputados do PLI perderam o mandato. Montealegre, um liberal-conservador, conseguiu 31% dos votos presidenciais em 2011 e despontava como principal oponente de Ortega no pleito deste ano. Sem a participação de Montealegre, o caminho ficou livre par Ortega e Murillo, que receberam 72,5% votos. A FSLN conseguiu a maioria absoluta no parlamento.

A oposição de direita afirma que Ortega e a FSLN estão instalando uma ditadura no país. Ortega e a FSLN estariam arquitetando a ocupação do governo indefinidamente através de subterfúgios legais, como a reeleição indiscriminada, o aparelhamento do judiciário e a redução da participação política da oposição. Afirmam ainda que Ortega e a FSLN fraudaram a eleição, que não contou com observadores internacionais e, supostamente, teve uma abstenção de 75% dos votantes (os números oficiais contam uma abstenção de 31,8%). A oposição de esquerda, inclusive muitos que lutaram na FSLN durante a Revolução Sandinista, afirma que Ortega sobrepôs um projeto pessoal-familiar de poder ao projeto revolucionário de nação. Portanto, pode fazer qualquer coisa para manter sua família na direção do país, tal como o ditador Anastasio Somoza Debayle, derrubado pela própria FSLN na Revolução Sandinista. O pleito nicaraguense não passou despercebido pelo Governo Obama. Mark Toner, porta-voz adjunto do Departamento de Estado dos Estados Unidos, afirmou que:

"os Estados Unidos estão profundamente preocupados com o processo viciado de eleições presidenciais e legislativas na Nicarágua, que impediu toda possibilidade de realizar um pleito livre e justo".

Ainda segundo Toner,

"o governo da Nicaragua eliminou os candidatos de oposição para presidência (...) e tomou outras medidas para negar o espaço democrático no processo".

A Nicarágua, provavelmente, voltará a aparecer no radar estadunidense nos próximos anos. O país ocupa uma posição privilegiada na Bacia do Caribe. No passado, era considerado o espaço ideal para construção do canal entre o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico, sobretudo com utilização do Lago Nicarágua. Entretanto, o primeiro canal entre os dois oceanos foi construído no Panamá, sob controle dos Estados Unidos. A passagem inter-oceânica, bem como a navegação na Bacia do Caribe, é chave para o fluxo de mercadorias entre a América, a Ásia e, até mesmo, a Europa, sobretudo aquelas que passam pelos Estados Unidos. Além disso, é fundamental para defesa estadunidense. Desde 2014, o governo chinês e empresas parceiras estão tentando retomar o projeto de construção do canal na Nicarágua a fim de concorrer com o capital estadunidense pelo controle do fluxo de mercadorias entre os oceanos. O governo russo também já demonstrou interesse em participar do projeto. A presença russa e chinesa no continente, principalmente, na ligação com o sudeste asiático pode provocar uma ação do governo estadunidense. O Governo Ortega defende o projeto e, inclusive, tem agido com truculência contra ambientalistas e a população da região, que sofrerá o impacto ambiental e social do mega-empreendimento.

Entretanto, o resultado da eleição de 2011, que conto com observadores internacionais, não é tão diferente do resultado do pleito deste ano. Em 2011, Ortega e a FSLN obtiveram 62,4% dos votos. Mais do que qualquer fraude eleitoral ou projeto de poder, em 2011 e 2016, Ortega e a FSLN se apoiaram no crescimento econômico, quase sempre acima de 3% ao ano desde 2006, exceto no entre 2008 e 2009; na redução da miséria em 13%; e na segurança pública, que evitou o crescimento da criminalidade, sobretudo associada as Maras, gangues envolvidas com o tráfico internacional de drogas, que atuam em Honduras, Guatemala e Estados Unidos. Ortega ainda tem prestígio e popularidade.

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